domingo, 12 de abril de 2015

Novas Cartas Portuguesas

Autor: Maria Isabel Barreno, Maria Teresa Horta, Maria Velho da Costa
Título: Novas Cartas Portuguesas
Género: não integrável em nenhum género particular
Editora: Dom Quixote - LeYa
2ªedição anotada (10ªedição do texto) 2014
415 páginas





Elle flotte, elle hésite, elle est femme
Racine

Minhas irmãs: mas o que pode a literatura?
Ou antes: o que podem as palavras?
1/6/71

Resumo

Em Maio de 1971, três mulheres portuguesas fizeram um pacto literário que deu origem a uma das obras mais difundidas e traduzidas por todo o mundo e que deixa na História da Literatura e da Cultura Portuguesas uma marca indelével de valor incomensurável. O cerco ideológico-político que restringe as mulheres entre o que lhes é consentido e o que é lhes negado é mote para uma intervenção cívica, social, política e estética, na qual a causa feminina se digladia numa semelhante contradição entre a necessidade de alcançar a igualdade para poder conquistar o direito à diferença e  na descoberta da sua identidade. A obra oferece-se pelo prefácio de Maria de Lourdes Pintasilgo, escrito em 1980, através do seu olhar acutilante e certeiro, do seu saber enciclopédico e das suas palavras tão magistralmente cerzidas e profundamente interventivas.
Em Abril de 1972, o livro seria publicado com a chancela dos Estúdios Cor, com a direcção literária de Natália Correia, que mesmo tendo sido instada a cortar partes conseguiu publicar a obra na íntegra. Três dias após ter sido publicada a obra, a censura de Marcelo Caetano ceifou-a da mão colectiva, tendo sido imediatamente aberto um processo judicial contra as três autoras por «conteúdo insanavelmente pornográfico e atentatório contra a moral pública».
Imbuídas de um espírito visionário e ousado, uma das autores pediu a um amigo que levasse, clandestinamente, as Novas Cartas para o núcleo de feministas em Paris, que rapidamente tomou a iniciativa de as traduzir e esprair por outros pontos do mundo. A partir deste momento, o processo mediatizara-se internacionalmente, chamando a atenção do mundo para Portugal e para o cenário político que se atravessava.
O caso das «três Marias», como passaria a ser conhecido, levantou uma onda de solidariedade entre  a comunidade intelectual, instigou protestos e manifestações que tomariam proporções inimagináveis como a cobertura do julgamento por meios de comunicação - Le Monde, New York Times, Nouvel Observateur, L'Express, Libération e muitos outros canais norte americanos - passando pela defesa pública das autoras pelas vozes de Simone de Beauvoir, Marguerite Duras, Doris Lessing, Christiane Rochefort, Iris Murdoch. O caso chegou mesmo a ser votado em Junho de 1973, numa Conferência da National Organization for Women (NOW) em Boston, como a primeira causa feminista internacional. Portugal estava no palco do mundo e o seu regime político era agora alvo de escrutínio mediático.
Este livro escrito a seis mãos, formado por 120 textos que se entertecem, dialogam, relacionam e, acima de tudo, que se questionam e complementam internamente – entre cartas, poemas, relatórios, textos narrativos, ensaios, citações – retratam destemidamente uma sociedade definida pela guerra colonial, pela emigração, pela violência e extemporânea dos direitos das mulheres e da simetria social. As Novas Cartas foram por isso um libelo contra a ideologia vigente no período pré-25 de Abril. Na concepção e composição da obra, as três Marias inspiraram-se no romance epistolar Lettres Portugaises, publicado anonimamente por Claude Barbin em 1669, apresentado com uma tradução também anónima de cinco cartas de amor endereçadas a um oficial francês por Mariana Alcoforado, uma jovem freira enclausurada no convento de Beja. Estas mesmas cartas seriam publicadas 300 anos mais tarde, 1969, em edição bilingue pela Assírio Alvim sob o título de Cartas Portuguesas, com a tradução de Eugénio de Andrade. Entendemos agora por que razão foram estas designadas de Novas Cartas ainda que o adjectivo implique muitas outras considerações.
Estas três Marias comprometidas desde sempre com uma forte dimensão política, desafiaram os poderes vigentes, (re)desenharam os papéis sociais e sexuais das mulheres, fundaram um neofeminismo de vanguarda, desestabilizam as noções fixas de autoria e de autoridade, reequacionaram a noção de género literário, na senda da ruptura e da descontrução de paradigmas impostos. Gritaram em unissono: «Ninguém me peça, tente, exija, que regresse à clausura dos outros» mas sob a permanente constatação de que «definimo-nos para aqueles que nos amam pelos nosso limites de carne e de pele, de saber e de sentir, o contorno, a forma, é o que nos torna palpáveis e compreensíveis». E uma interrogação fica sempre em suspenso: «chegará tempo de amor, em que dois se amem, sem que uso ou utilidade mútua se vejam e procurem, mas, apenas prazer, prazer sí, no dar e no receber?
Mariana Alcoforado, uma freira de Beja, é o móbil destas Novas Cartas, enquanto estereótipo da mulher abandonada e impedida de viver um amor pelo cavaleiro de Chamilly, e em torno da qual gravitam muitas outras personagens, muitas outras histórias e desventuras, cruamente descritas e amargamente sentidas. Sente-se nestas Novas Cartas o contratempo de um nova geografia social e humana, a precocidade de um novo mapa de entendimento de uma humanidade comum. Não se  reduzem apenas a uma luta feminista pela afirmação e liberdade das mulheres, nem apenas a um retrato histórico das movimentações de um mundo imperial e de dominação, nem tão pouco a uma mera descrição dos impulsos e vontades sexuais, ou a simples grito estético e inconformado de três escritoras. Mas é, de facto, tudo isto amalgamado com tudo o resto que se possa afigurar aos olhos de cada leitor.




Palavras-chave: Neofeminismo, «três Marias», Mariana Alcoforado, imperialismo, machismo.  

A morte de Ivan Ilitch

Autor: Lev Tolstoi
Título: A Morte de Ivan Ilitch
Editora: Quasi edições
Género: Romance
Edição: 1ª edição 2008
91páginas






Resumo:

O livro abre com a notícia do falecimento de Ivan Ilitch Golovine, a 4 de Fevereiro de 1882, com quarenta e cinco anos, anúncio feito, oficialmente, pela sua mulher Prascovia Fiodorovna Golovine. Nos capítulos seguintes, o leitor vai desenrolando, retrospectivamente, a história deste conselheiro do Tribunal da Relação. Ivan era o segundo de três filhos de Ilia Efimovitch Golovine, um membro inútil de várias administrações públicas igualmente inúteis. Descrito como a ave rara da família, era menos frio, menos meticuloso do que o irmão mais velho e menos arrebatado do que o mais novo. Por ser este meio termo entre os dois era um homem inteligente, hábil activo, agradável e correcto, tendo sido brilhante aluno na Escola de Direito, um homem bem dotado, alegre, sociável, que cumpria sempre com rigor o que entendia ser seu dever, comme il faut. Este retrato deixa-nos convictos de que esta personagem terá sempre o sensatez e clarividência para as intempéries e agruras que se avizinham na sua vida. Desenganemo-nos.
Dizer que Ivan Ilitch se casou por se ter apaixonado pela noiva e por ter constatado que os gostos dela concordavam perfeitamente com os seus, teria sido tão inexacto como afirmar que se casara pelo facto das pessoas da sua roda aprovarem essa união. Durante os primeiros tempos a relação parecia correr bem, até a mulher se tornar cada vez mais irritável e exigente, culpando-o por todas as desgraças que lhes iam acontencendo, facto que levava Ivan a ser cada vez mais focado e ambicioso no trabalho. O casal foi construindo reverenciais circulos sociais, conheciam a melhor sociedade, recebiam as personagens mais importantes e conheciam sempre gente nova, disfarçando assim o distanciamento e o vazio que se ia interpondo entre eles. Desta forma, iam descendo a encosta julgando estar a subi-la.
Certo dia, Ivan Ilitch confronta-se com uma doença incurável e com a inevitabilidade da morte, situações fracturantes que obrigam qualquer um a repensar prioridades, revalorizar determinados objectivos e a purgar o passado e as suas escolhas pessoais.  Tolstoi converte este lugar comum em páginas plenas de densidade existencial, numa busca ávida pela explicação de uma agonia tão inalienável quanto idónea: “Ivan Ilitch via que ia morrer e estava desesperado. No fundo da sua alma, estava bem certo de que ia morrer mas não só era incapaz de se afazer a essa ideia, não a compreendia sequer, era incapaz de a compreender”. O silogismo que aprendera no manual de lógica de Kieseweter - Caio é homem, os homens são mortais, logo Caio é mortal - não o satisfazia, porque afinal a exactidão só interessa no caso de Caio ou de qualquer outro que não seja ele. Na verdade, o que atormentava Ivan, além da mentira, era que ninguém o lamentava como ele queria ser lamentado. Sabia que era membro do Tribunal da Relação mas tinha vontade que lhe fizessem festas, o beijassem, chorassem ao pé dele, como se acariciam e se consolam as crianças: «mas se é assim – disse de si para si – e se eu deixo a vida com o sentimento de ter perdido, tendo destruído tudo o que me tinha sido dado, se é irreparável, então...». Aspirou o ar profundamente, não acabou a aspiração inteiriçou-se, sincopadamente, e morreu.


PALAVRAS-CHAVE: Agonia, finitude, arrependimento, retrospectiva

O Delfim

Autor: José Cardoso Pires
Título: O Delfim
Editora: Publicações D. Quixote
Género: Romance
264 páginas
18ª edição 1999 <1ª edição 1968





Resumo

José Cardoso Pires não é arquitecto de universos complexos ou de enredos que confrontem personagens em acções fundamentais para a trama dos seus destinos, é antes um escritor do tempo suspenso e de contratempos. Desengane-se o leitor se achar que este romance não lhe exige envolvimento hermenêutico porque vai deparar-se, permanentemente, com múltiplos indícios e com a proliferação de sinais de um mundo, que é preciso decifrar. Neste romance a história não se conta, desvela-se, oculta-se, atrai-nos e distrai-nos da revelação essencial.
O Delfim é o engenheiro Tomás Manuel Palma Bravo, um cognome mas acima de tudo uma forma de estar no mundo, uma forma de se afirmar na história, um caminho para ascender ao plano do mito. Delfim é um nome próprio e apropriado para um herdeiro do poder numa linha sucessória e de soberania, reflectida na posse de uma lagoa. A propriedade da lagoa valia para o engenheiro Palma Bravo precisamente por esse prazer da exclusividade, valia para Maria Mercês, sua mulher, como lugar de águas benéficas e portadoras de saúde e vida, mas valia para os caçadores, camponeses e operários sobretudo como símbolo do universo de valores e benefícios do qual estavam, fadadamente, excluidos. A lagoa representa este fio enigmático, convertido simbolicamente em fulguração sexual de um crime, que encerra segredos e alucinações, que cria um ambiente enevoado onde a culpa anseia por actuar tragicamente.  Temas como a maternidade, infecundidade, abandono do corpo da mulher, homossexualidade, incesto e adultério são revelados com nítida obsessão, num redemoinho de segredos, silêncios e omissões.
O Delfim pode ser lido sob o ângulo do “ruralismo português”, no seu machismo, na pax ruris de uma família Marialva, que carrega a maldição do tempo transposta para a maldição do lugar. Este sentido profético é construído pelos tempos verbais: todo o discurso está num presente que nasce pretérito e que se conjuga com alternância do condicional e do futuro. Nunca saímos de um tempo circular, que é o tempo imposto pela própria figura expansiva da lagoa, há apenas uma dobra, a cicatriz de um crime entre Tomás Manuel, Maria das Mercês e o criado Domingos, alguma coisa que não pode ser inteiramente dita. A tragédia é uma expiação colectiva de um mal, que percorria desde o início dos tempos, e que vai romper com o status quo vigente, dando livre acesso à lagoa com o fim das exclusividadade e com a dessacralização do espaço. O crime assinala a fractura da história, a passagem de uma idade de medos e repressões para uma nova era de transparência e igualdade.
O Delfim é um romance incontornável da Literatura Portuguesa do século XX e à luz da tradição neo-realista apresenta uma história marcada pela teorização marxista, com traços naturalistas já que as complexidades e perplexidades da natureza humana são espelhadas e metaforizadas na paisagem natural e animal como denominadores simbólicos. Os Gregos chamavam métis a este saber astuto, manhoso, maleável e malévolo, de um sujeito proteico, capaz de conhecer o outro para dominá-lo, regido por uma ética, neste caso não pela da natureza mas pela que é ditada pela convenção. 


PALAVRAS-CHAVE: Delfim, lagoa, triângulo amoroso, ruralismo português, crime.

A Boneca de Luxo

Autor: Truman Capote
Título: Boneca de Luxo (título original Breakfast at Tiffany’s)
Género: Romance
Editora: Colecção Mil Folhas
2002
95 páginas

Deus quando nos quer castigar dá-nos tudo o que desejamos
Truman Capote







Considerada por muitos a obra mais feliz e agradável da actividade literária de Truman Capote, e que ganhou vida na tela cinematográfica com a icónica e inigualável Andrey Hepburn, a Boneca de Luxo oferece um cenário divertido, fascinante, epónimo de Holly Golightly, uma menina-mulher misteriosa. Holly é lembrada pelo narrador num tom quente e apaixonado, descrita pela sua silhueta elegante e apetecível de uma mulher arrebatadora, que enreda e marca todos aqueles que se cruzam com ela. O narrador é um homem maduro de 67 anos que não foi indiferente aos seus encantos, tendo acompanhado de perto as suas irreverências, tornando-se cúmplice dos seus desejos e desaires e talvez por isso a descreva de forma tão soberba e irresistível. Para muitos esta protagonista era uma “vil impostora”, “uma exibicionista indecente”, uma mulher de vícios públicos e privados, galanteada por homens mais velhos, avessa a moralidades mas Holly consegue ser muito mais do que isso, cheia de nuances e subtilezas, ingénua e naive. Mostra-se aos olhos do leitor uma jovem de 21 anos, aparentemente frágil e atreita a aventuras e expedientes, com hábitos sociais pouco ortodoxos mas ao mesmo tempo uma mulher independente e segura, com um je ne sais qua que a torna fascinante, complexa e inalcançável.
Descobrimos a meio do romance que Holly era afinal Lulamae Barnes, órfã de pais e que com apenas catorze anos se envolvera com um texano mais velho e pai de quatro filhos, que lhe garantira uma vida estável e abastada. Porém, tudo isto não foi o bastante para impedir que ela fugisse um dia à procura de outros sonhos. Lulamae manifesta, na sua relação com os outros, uma puerilidade e ingenuidade que retiram gravidade aos cenários mais turbulentos em que se envolve mas sem subtrair, no entanto, a densidade dramática e emocional das cenas. Como justificação da sua fuga da casa de Doc, Holly afirma que na vida nunca nos devemos apaixonar por animais selvagens nem confiar-lhes o coração, pois quanto mais lhes damos mais fortes eles ficam. Quem se apaixona por um animal selvagem acaba olhando para o céu porque chegará sempre o dia em que ele voará. Ainda assim é preferível olhar para o céu e desejá-lo ardentemente do que viver com ele. Mesmo tendo sido abandonada pelo homem com quem iria casar e de se ter envolvido num processo mediático de tráfico de droga, Holly vivera sempre destemidamente a sua frescura e jovialidade no recomeço de novas histórias. Em liberdade condicional foge para o Rio de Janeiro com a conivência do narrador, que nunca mais ouviu falar dela. O escândalo ao qual esteve associada tornara-se um mero fait-divers e Holly partira, sem culpas ou expectativas, com a lista dos 50 homens mais ricos do Rio. Seguramente terá continuado a fazer o deleite e o fascínio daqueles homens que procuram sempre, sem possuir, uma Boneca de Luxo.



Palavras-Chave: Liberdade, Mulher, Fascínio, Luxo e Luxúria, Burguesia

As Avenidas Periféricas

Autor: Patrick Modiano
Título: As Avenidas Periféricas
Género: Romance
Editora: Porto Editora
1ª edição 2014
101 páginas






Resumo: O mais recente Prémio Nobel da Literatura, Patrick Modiano, apresenta agora pela Porto Editora um romance inédito em Portugal, vencedor do Grande Prémio de romance da Academia Francesa e igualmente distinguido com o Grande Prémio Nacional das Letras. Galardões à parte que atestam, incontornavelmente, o seu mérito, desperta-se em nós a curiosidade sobre o que terá consagrado o autor. A crítica do Jornal Le Monde imprime a expresão Modianesco como um neologismo instalado: um tom angustiado, um ambiente de penumbra e enigmático, um fio invisível nem sempre perceptível ao leitor, uma inquietação insatisfeita, identidades perdidas, características tão ao gosto do clássico existencialismo francês.
Numa pequena aldeia ao lado da floresta de Fontainebleu, um bosque de faias, em plena ocupação provisória alemã, portanto entre 1940 e 1944, juntam-se ao fim de semana algumas personagens inquietantes, que abrem espaços cénicos de uma alta burguesia misteriosa e intocável. Alexandre Serge é o narrador protagonista e pelos seus olhos vemos um retrato social, uma mundividência burguesa alambicada, olhares fleumáticos, esgares silênciosos e obscursos, atitudes langurosas de personagens escorregadias, dúbias que se movem em ambientes intimistas de convívio sem relações de confiança. Murraille é chefe do jornal C'est la vie e pivot de muitas movimentações do romance, elo de ligação e de encontro de muitas personagens como é o caso do protagonista e de seu pai, um desconhecido barão a que chamam Chalva Henri Deyckecaire. A relação entre eles é fria, distante, perdida. Quem é esse pai? Um traficante, um judeu acossado, um industrial com relações duvidosas e hábitos pouco recomendáveis? A demanda de Alexandre prossegue ao longo do romance na senda de revelar a personagem de seu pai, que tinha como principal actividade vender objectos a coleccionadores fanáticos, obnubilados, desde antigas listas telefónicas, espartilhos, narguilés, postais, selos, cintos, fonógrafos, candeeiros de acetileno. Assim, procurava em Paris todo o tipo de utensílios que pudessem suscitar interesse a esses coleccionadores, extorquia-lhes grandes quantias sem qualquer relação com o valor real das mercadorias. A ânsia de aproximação a este pai desconhecido, enigmático leva o filho a tornar-se um moço de recados, querendo dar provas de iniciativa própria e de ajuda incondicional. Com o tempo, Alexandre sugere ao pai dedicarem-se aos bibliófilos, convicto de que seria fácil arranjar edições antigas a preços baixos, rentabilizando todo o conhecimento e formação que tinha adquirido no Colégio interno de Bordéus onde o pai o tinha ido buscar, com 17 anos. Com o tempo foi-se dedicando à falsificação de assinaturas dos autores e convertendo-se num factótum.
Num tempo desconexo, não linear dentro do romance, o narrador invoca o seu repositório de (poucas) lembranças, recordando o mais triste episódio da sua vida, quando o pai o tentara atirar para debaixo da linha do comboio. Surpreenda-se o leitor com o tom com que estas cenas são descritas, sem mágoas, sem traumas, como se o tempo fosse responsável por detê-las no passado sem reminiscência presente. Os flashes dos espaços e do tempos, sem continuidade ou progressão fixam os acontecimentos em cenas estáticas, suspenas e intensas. Há um momento de encontro de pai e filho, um jogo de silêncios indecifráveis, num olhar comprometido do Barão e no desespero inverbalizado de Alexandre, que reclama pela presença paternal que mais não é do que espectral, como ele próprio afirma: “Eis-nos condenados, órfãos que somos a perseguir um fantasma em reconhecimento de paternidade”.
Que avenidas são estas? São avenidas paralelas, de penumbra, colaterais, que nunca desembocam na verdadeira anagnórise ou (re)conhecimento da essência, da identidade, meros espaços de viagens interiores e perdidas do protagonista, por isso mesmo periféricas. “A Avenida da Ópera abria-se perante mim. Anunciava outras avenidas outras ruas que nos levariam daí a pouco aos quatro ponto cardeais. O meu coração batia um pouco mais depressa. No meio de tantas incertezas, os meus únicos pontos cardeais de referência, o único terreno que não me fugia debaixo dos pés, eram os cruzamentos e os passeios dessa cidade onde acabaria, sem dúvida, por me encontrar só”.


Palavras chave: identidade paternal, burguesia parisiense, penumbra enigmática, secretismo filial.

A civilização do Espectáculo

Autor: Mario Vargas Llosa
Título: A Civilização Do Espectáculo
Género: Ensaio
Editora: Quetzal
2ª edição 2013
220 páginas






Resumo:

A Civilização do Espectáculo é uma duríssima radiografia do nosso tempo, da nossa cultura, dos nossos vícios e perversidades, pelo olhar crítico e mordaz do nóbel peruano (2010). Vargas Llosa faz uma denúncia virulenta da metamorfose da palavra em imagem, do esvaziamento e destituição da Cultura, outrora consciência que impedia o virar de costas à realidade e que hoje é mero mecanismo de distração, entretenimento e alienação. São invocados oportuna e coerentemente vários estudos críticos em torno deste denominador comum – a crise e decadência da Cultura: viajamos desde escritores galardoados como T.S. Eliot, a Steiner, Guy Debord, Lipovetsky, Jean Serray, Octavio Paz, Ortega Y Gasset, Miguel de Unamuno, Sartre, Camus, Bertrand Russel, ao mestre da literatura erótica Guillaume Apollinaire, passando ainda por filósofos e pensadores prestigiados como Jacques Lacan, Julia Kristeva, Gilles Deleuze, Foucault, Paul de Man, Popper, Benjamin ou pelo psicanalista Sigmud Freud.
“A Cultura relega para o sótão das coisas passadas de moda o exercício de pensar e substitui as ideias pelas imagens” afirma Vagas Llosa, e por isso os filólogos são paladinos solitários, encerrados nas Faculdades de Letras. O ensaísta vai urdindo relações da Cultura com a drogas e o sexo, com a Economia, com a Política e Poder revelando como estão imbricadas todas estas formas de espectáculo, enquanto performance colectiva de relação social, ouçamo-lo: “a generalização do uso das drogas não responde à exploração de novas sensações ou visões empreendidas com fins artísticos ou científicos. Nem é uma manifestação de rebeldia contra as normas estabelecidas por seres inconformados. Nos nosso dias, este consumo de drogas está relacionado com um ambiente cultural que empurra o indivíduo na procura de prazeres fáceis e rápidos que os imunizem contra a preocupação e a responsabilidade, em vez do encontro consigo mesmos através da reflexão e da instrospeção, actividades eminentemente intelectuais”. Impera a questão: o que é que conduziu ao apoucamento e volatilização do intelectual no nosso tempo?
O nobel detem-se, prolongadamente, num capítulo dedicado à análise lúcida sobre a emancipação sexual que trouxe uma banalização e a morte do erotismo, porque a “Cultura moderna” vende sexualidade, lugar epónimo da revelação da intimidade do outro, num ritmo voraz de entretenimento e diversão frívolos, onde desembocou fatalmente esta liberdade conquistada pelas novas gerações. “O erotismo desapareceu como a crítica e como a alta cultura, que convertiam o acto sexual numa obra de arte e o impregnavam de virtuosismo estético, na manifestação do que de mais humano e criativo havia no Homem e não meramento assente num instinto animal”, afirma acutilante o autor. Erotismo é não se esgotar na certeza o que pertence ao campo das possibilidades, dos desejos e fantasias, nesta vocação tanática em que o indivíduo se digladia com o instinto vital e criativo – Eros para os Gregos. Intimidade é o mais recôndito da soberania individual, que forja as características distintivas da cada personalidade, o que nos torna diferentes e únicos. George Bataille alertou para a necessidade urgente de desanimalizar o amor físico, pois nesta ânsia de libertação e vanguarda trivializou-se, vulgarizou-se a vacuidade. Acabar com a discrição e o pudor não é acabar com o preconceito mas amputar uma dimensão que foi surgindo à medida que a cultura e o desenvolvimento das artes e letras se iam enriquecendo a par.
Cultura, Política e Propaganda gravitam também em torno de uma mesma mundividência, monotorizados pelo Estado, empenhado em que ela não se afaste da ortodoxia que serve de apoio àqueles que governam. O resultado deste controlo, sabemo-lo, é a progressiva conversão da cultura na sua deliquescência por falta de originalidade, espontaneidade, espírito crítico e vontade de renovação e experimentação formal. A Cultura devia exercer influência sobre a vida política, submetendo-a a uma avaliação crítica contínua e inculcando-lhe valores e formas, rebatendo impunidades, debaixo de serveros escrutínios. Vargas llosa sublinha reiteradamente que a cada novo caso de corrupção a cultura contemporânea em vez de mobilizar o espírito crítico da sociedade e a sua vontade de o combater, apenas o encara com resignação, resiliência e com o mesmo fatalismo com que se aceitam os fenómenos naturais.
Nas tarefas criativas e digamos que «impráticas», o capitalismo provoca uma confusão total entre preço e valor em que este último sai sempre prejudicado e que conduz a essa degradação da cultura e do espírito que é a civilização do espectáculo. O autor explica como tal aconteceu: «o mercado livre fixa os preços dos produtos em função da oferta e da procura, o que fez com que em quase todo o lado, incluindo em sociedades mais cultas, obras literárias e artísticas de altíssimo valor fossem desconsideradas e postas a um canto, devido à sua dificuldade e exigência de uma certa formação intelectual e de um sensibilidade para serem apreciadas[…]este sistema de economia livre acentua as diferenças económicas e dá alento ao materialismo, ao apetite consumista, à posse de riquezas e uma atitude agressiva, beligerante e egoísta que, se não encontrar freio, pode chegar a provocar perturbações profundas e traumáticas na sociedade, como já se sente».

Em suma tudo o que seja entretenimento fácil, superficial, acessível, massificado converte-se hoje em paradigma de cultura e com isso conseguiu-se uma vitória pírrica, um remédio pior do que a doença: viver na confusão de um mundo em que, paradoxalmente, como já não há maneira de saber o que é a cultura, tudo o é e já nada o é. A Civilização do Espectáculo hoje abstraiu o espectador da História real para a ficção, desmobilizou o cidadão e fá-lo sentir-se isento de responsabilidade cívica, julgando que está fora do seu alcance intervir numa História que se julga irreversível. Llosa abre ainda a indagação: “Como é que se pode falar de um mundo sem cultura numa época em que as naves espaciais construídas pelo Homem chegaram às estrelas e a percentagem de analfabetos é a mais baixa de sempre?”. Pois todo este progresso é verdadeiro mas não é obra de homens e mulheres cultos, mas sim de especialistas com conhecimento. Entre Cultura e conhecimento há uma grande diferença, o segundo trata-se de uma façanha científica flagrante de barbárie, isto é, um facto eminentemente anticultural, se a cultura voltar a ser como acreditava T.S. Eliot: «tudo aquilo que faz da vida algo digno de ser vivido”. 

A Aventura de Miguel Littín Clandestino no Chile

Autor: Gabriel Garcia Márquez
Título: A Aventura de Miguel Littín Clandestino no Chile
Editora: Publicações D. Quixote – LeYa
Género: Reportagem literária
Lisboa 2000
186 páginas







Resumo

Gabriel Garcia Márquez que instituiu o “realismo mágico” mostra nesta sua reportagem literária um espírito jornalistico aguçado, uma curiosidade insatisfeita, um civismo inconformado e uma sensibilidade estética inigualável. O nobel columbiano nunca deixou de representar com realismo literário as realidades político-sociais que lhe eram próximas e que consequentemente nos aproximam a todos. Não se é escritor apenas para criar universos ficionais mas também para se dar novos imaginários à realidade. Esta é a tentativa de Miguel Littin, um dos cinco mil exilados em 1985 com proibição absoluta de regressarem à sua terra. No entanto, não há nada que impere sobre a vontade e este clandestino volta ao Chile através artes clandestinas num conluio de vários envolvidos, durante seis semanas com o intuito de filmar sete mil metros de película. Na verdade, esta demanda, que representa um retorno interior às lembranças, vai constituir uma viagem cinematográfica pela sua vida, pelas suas memórias e identidades pois nenhuma viagem pode ser mais enriquecedora do que a procura pelo que se foi.
“Pelo método de investigação e pelo carácter do material, A Aventura de Miguel Littin é acima de tudo uma reportagem, assume o autor”, que narra sempre na primeira pessoa de forma a tornar audível a voz do clandestino pelas suas palavras. Assim se cruzam duas vozes que escrevem a quatro mãos histórias e peripécias que tornam estas páginas vibrantes e envolventes, numa densidade emocional facilmente tangível pelo leitor. Também não passa despercebido ao leitor todas as mágoas que Miguel vai revivendo, em permanente exercicio de alteridade, ditado pela exigência de ter se ser outra pessoa, pela necessidade de aprendizagem de comportamentos, posturas. A par, este clandestino vai tendo de administrar as muitas desilusões, percebendo que os anos foram longos e devastadores não só para os que partiram mas também para os que ficaram. Constatou por dentro o reverso do milagre chileno, patrocinado pela Junta militar sob inspiração celestial da Escola de Chicago, que querendo dar aparência imadiata de prosperidade desnacionalizou tudo o que Allende tinha nacionalizado, vendendo o país ao capital privado e às multinacionais. Sabe-se que em cinco anos as importações foram maiores do que nos duzentos anos anteriores, a dívida externa do Chile, que no último ano de Allende era de quatro mil milhões de dólares era agora de quase de vinte e três mil milhoes. Mundividências maniqueístas e quase inverosímeis não eram as ficionadas no seu filme mas as que a realidade revelava, o grito era feito pelas poblaciones em uníssono: «não nos importa a casa nem a comida, mas sim que nos devolvam a dignidade, a única coisa que nos tiram é a voz e o voto.

Assim, trinta e dois mil e duzentos de película, ao fim de seis meses de montagem em Madrid ficaram reduzidos a quatro horas para televisão e duas para cinema. A Miguel Littin ficou-lhe a consciência de que a nova geração se encontrava empenhada, sem pressas nem barulho, em libertar o Chile do desastre militar e que apesar de tenra idade, todos tinham mais do que uma visão de futuro, tinham um passado de façanhas incógnitas e vitórias ocultas, que levam guardadas no coração de um grande modéstia. Também por isso, este não foi o feito mais heróico da sua vida, como esperava, mas foi o mais digno, resgatou à contraluz uma identidade que levara para fora do Chile, à sombra de tudo o que vivera.