segunda-feira, 1 de junho de 2015

Medeia - vozes

Autor: Christa Wolf
Título: Medeia vozes
Género: Romance
Editora: Cotovia
1996
204 páginas







“Talvez haja sempre, para aqueles que têm paciência e sabem esperar, um ganho em cada perda, uma alegria em cada sofrimento […] de todas as alegrias simples, afinal são sempre as únicas que duram. E eu, para onde irei? Haverá um mundo, um tempo, com lugar para mim? Ninguém a quem possa perguntar. É esta a resposta”
Voz de Medeia

Resumo: A alemã Crista Wolf (1929-2011) foi escritora, ensaísta, crítica literária mas também activista em movimentos de emancipação do género e acompanhou ainda de perto o processo evolutivo da ex-RDA por acreditar, convictamente, no papel preponderante do indivíduo nas construções históricas e sociais. Nesse sentido, as mulheres são o centro e o catalisador das suas narrativas, ganham força quando devoradas por convulsões interiores e são o móbil de movimentações de poder.
A autora afirmou numa entrevista à Le Magazine Littéraire que “ceux qui ont réellement perdu quelque chose m’intéressent énormément, et comment ils essaient de s’en sortir", por isso se entende que este romance, apesar das ressonâncias de Séneca e de Eurípides, transponha e reinvente as suas matrizes clássicas para se converter num romance contemporâneo. Na verdade, esta Medeia de Wolf, com todas as suas vozes, representa estas minorias desprezadas, seja dos Turcos da Alemanha, seja dos descendentes dos Africanos na Europa ou ainda dos Judeus (vide a este propósito teóricos como Margart Atwood, David. R. Slavitt). Invoquemos as palavras em epígrafe do romance de uma outra ensaísta alemã, Elisabeth Lenk, que nos ajuda a perceber de que forma estas heranças culturais são recebidas: "anacronia não significa as épocas estarem indiferentemente umas ao lado das outras mas sim contidas umas dentro das outras como as bonecas russas onde as paredes do tempo convivem e se rejuvenescem". Assim, estas vozes são acima de tudo uma reinvenção contemporânea do topos clássico do poder e da forma como ele actua sobre a mulher, numa intriga amorosa nunca desvinculada de um jugo político e de dominação, reflectindo cruamente como actua o poder no comportamento humano quando se está no lado oprimido.
Surpreendentemente os traços vingativos e bárbaros da Medeia Euripidiana atenuam-se neste romance onde vemos uma mulher que ama os filhos – Medo e Feres - natural da Cólquida e que foge para Corinto por não se conseguir ajustar à sua terra perdida e corrupta. No entanto, encontra exactamente os mesmos traços de arrogância e medo no rosto do rei Creonte. Não há, por isso, surpresas no que toca o mais torpe e vil da natureza humana, quando visceralmente tomada pela ambição de poder sobre o outro.
Pela voz de Medeia vemos uma mulher que se dá desprotegidamente ao homem que ama, Jasão: “era uma confissão que não esperava dele. Sentei-me a seu lado na esteira, peguei-lhe nas mãos que apertavam as fontes, comecei a acaricia-lo na testa, no rosto, nos ombros, na convinha sensível sobre as clavículas, anda, disse ele em tom suplicante, eu deitei-me a seu lado, conheço o seu corpo, sei como espicaçar-lhe o desejo, fechou os olhos e entregou-se às suas fantasias, onde eu nunca entrava. Sim, sim, sim, Medeia, assim mesmo” (p.28). Por seu lado, a voz de Acamante faz um enquadramento temporal e afirma: “os tempos vão ficando cada vez maiores à medida que nos afastamos deles, é normal e é igualmente absurdo querermos ficar agarrados a esses grandes tempos passados. Mas então a que é que um homem se há-de agarrar? A Medeia?” Este astrónomo do rei faz ainda uma chamada de consciência para a tomada de decisões e lembra que tudo depende daquilo que consideramos útil, bom e correcto. Na verdade, Medeia sempre se recursara a aceitar uma premissa importante: “o que é útil não é necessariamente bom e é insensato partirmos do princípio de que as pessoas ficariam melhores se lhes dissessem a verdade sobre si próprias, quando isso acontece elas ficam desanimadas e obstinadas, tornam-se ingovernáveis.” (p 111). Nenhuma mentira é grosseira o bastante para que as pessoas não acreditem nela, se ela corresponder exactamente ao seu secreto desejo de nela acreditar.
À medida que vão entrando ordenadamente em cena todas estas vozes - Medeia, Jasão (argonauta, comandante da “Argos”), Agámeda (discípula de Medeia), Acamante (primeiro astrónomo do rei Creonte), Glauce (filha do rei Creonte e da mulher Mérope), Leucon (2º astrónomo do rei Creonte), Medeia, Jasão e por último novamente Medeia – vai-se construindo um caleidoscópio, uma circularidade no romance e uma multiplicidade de perspectivas sobre o mesmo fenómeno. Apesar de Medeia ser votada ao exílio é-lhe inculcado sempre um estatuto de vítima das forças políticas, das vontades imponderáveis dos homens, das vicissitudes e contingências do destino.
A autora nessa mesma entrevista à Le Magazine Littéraire legitima esta Medeia e contradiz alguns críticos, que a acusam de destruir a utopia, porque de facto quando esta mulher, no fim do romance, lança uma maldição a todos os que a humilharam e a votaram à solidão e ausência do mundo espelha naquele exacto momento a vitória humana através da sobrevivência e da resignação, tão ao gosto da filosofia cínica, que a partir do século XIX se pauta pela descrença na sinceridade e na bondade das motivações humanas. Medeia despreza as convenções sociais precisamente para sublinhar a frivolidade destas e a sua última saída de cena é feita pelo processo de superioridade teatral Deus ex machina, com o eco das suas palavras: “nem sempre nos agrada aquilo que é necessário mas uma coisa assimilei de forma indelével, que as obrigações do meu lugar me obrigam a decidir, não por razões de agrado pessoal mas em função de valores mais altos.” (p.112)

sexta-feira, 1 de maio de 2015

Uma Viagem à Índia

Autor: Gonçalo M. Tavares
Título: Uma Viagem à Índia
Género: Romance em verso
Editora: Caminho
6ª edição 2010

456 páginas





“Este prosaico poema, antipoema e hiper-poema, com consciência aguda da sua ficcionalidade, navega e vive entre os ecos de mil-textos-objecto do nosso imaginário de leitores.”
Eduardo Lourenço


Uma Viagem à Índia não é uma epopeia que engrandece ou amplifica feitos históricos, não é a aventura de superação e de conquista de um herói, é antes o confronto do Homem com as suas falibilidades, derrogando utopias e ambições. Ao longo de dez cantos acompanhamos a demanda do protagonista, num percurso que não é apenas na horizontal – Lisboa, Londres, Paris, Praga, Índia, Lisboa - mas é, antes e acima de tudo, feito na vertical…em queda. O “romance ensina a cair[1]” e ao mesmo tempo em que se inspira nos clássicos é também assombrado pelo traumático séc. XX, como uma caixa de ressonância que ecoa o pessimismo, o tédio e melancolia, reflecte traições e enganos onde dinheiro é o único valor universal. 
O nosso (anti)herói Bloom – tal como o Ulisses de James Joyce – viu a sua vida destruturada por um duplo homicídio, um que cometeu e outro que sofreu, e decide por isso viajar à procura de sabedoria através do esquecimento e de uma fuga com carácter pedagógico. A figura do Ulisses de Homero opera aqui como um hipertexto, também ele um anti-herói no seu tempo, pelo carácter odioso dos processos de que se serviu e dos fins que perseguiu. Esta irreligio (não ligação, irreligião) que distancia o herói clássico do divino é o que caracteriza o herói contemporâneo de Gonçalo M. Tavares. Lembremos que na Odisseia, Ulisses no entusiasmo da viagem e nos braços de Circe e Calipso, esquece as obrigações como rei de Ítaca e os seus laços tornam-se ténues, frágeis, alimentados apenas unilateralmente por Penélope. Mas Ulisses é também um herói profundamente racional e quando cega e ludibria a força bruta do Ciclope põe termo à era dos gigantes e dá início à era do Homem ávido, curioso por (se) conhecer (n)o mundo, tantas vezes seguindo os trilhos da imperfeição, do declínio e da morte, sinais da fragilidade dos heróis mas também da sua humanidade.
Em pleno século XXI vivemos nas intermitências destes topoi clássicos - viagem e  regresso - mas desta vez não por espaços físicos ou por mares nunca antes navegados mas por espaços íntimos e interiores nesta ambivalência incessante entre a memória e o esquecimento. Sabemos hoje o que já pressentiam os heróis da Antiguidade: não viajamos para nenhum paraíso e todas as viagens são sempre um regresso ao passado de onde nunca saímos. Esta é a genealogia clássica do herói contemporâneo: “não se trata de encontrar a imortalidade mas de dar um certo valor ao que é mortal” (Canto I, 3). Lancemos por isso um olhar sobre a fragilidade, o tédio da condição humana e sobre a sua mesquinhez absurda: “é claro que Bloom também não é uma obra-prima da ética. Não sendo ladrão nem um cabrão traiçoeiro, também não é santo. Tinha até os seus segredos bem negros, mas ainda não é tempo de os revelar” (Canto I, 78). Tal como Ulisses, Bloom também se inebria em lirismos e deixa-se deleitar pela hospitalidade dos cheiros, dos sons e das raparigas bonitas, que perdem a áurea de sensualidade para se tornarem mais lascivas e cruas. O nosso herói contemporâneo relembra a tradição ampliando todos os seus traços: “sabe que fora do nosso país, as mulheres recebem-nos como se salvassem um náufrago” (Canto II, 76). Tal como na vida de Ulisses e epónima de Penélope, Bloom tinha uma entre as mulheres, Mary: “além de tranquila, ela utilizava a memória para se recordar de mim quando estava longe”.
Estas aventuras de Bloom conduzem-nos pelos labirintos intertextuais da epopeia clássica e narram o humanismo de um herói que falha, vinga e sofre com todas as suas vulnerabilidades. Um herói moderno pode ser frágil e este herói contemporâneo é demiurgo e interfere na sua própria mudança porque “até o imutável se não mudar será empurrado” (Canto VIII, 31). Bloom traçou uma viagem para o outro lado do mundo para fugir às memórias mas acabou por ser conduzido para o outro lado de si próprio. Terá aprendido mais em movimento ou quando parou? O tédio e a melancolia do nosso herói nascem da consciência aguda de que “o pior sítio para estar vivo é entre aquilo que um dia exige e aquilo que o eterno promete. No meio, eis o pior sítio”. (Canto X, 104).

Entrevista de Pedro Mexia a Gonçalo M. Tavares no Público a 27/10/2010 : http://www.publico.pt/culturaipsilon/noticia/o-romance-ensina-a-cair-268246?page=-1

terça-feira, 14 de abril de 2015

Outras Cores

Autor: Orham Pamuk
Título: Outras cores
Editora: Editorial Presença
Género: Ensaios
Lisboa 2009
424 páginas


Resumo: Numa recente visita a Portugal para receber o Prémio Europeu Helena Vaz da Silva, pelo seu reconhecido contributo para a promoção e valorização do património cultural europeu, Orhan Pamuk deixou a seguinte mensagem: “A herança cultural europeia não se deve limitar à preservação dos seus monumentos mas também à preservação dos seus valores fundamentais e a Europa deve ter uma discussão séria sobre esses mesmos valores fundamentais”. Na verdade, as preocupações de Pamuk, situam-se sempre em questões fronteiriças, limístrofes e na demanda pela identidade de um país que divide o Ocidente e o Oriente, nesta permanente dialéctica entre a modernidade europeia e a tradição muçulmana.
Arquitecto e Jornalista de formação, apesar de nunca ter exercido nenhuma das duas actividades, Orhan Pamuk mantém o olhar crítico sobre a arquitectura da sociedade e o sentido apurado na análise e denúncia dos seus problemas. Nesta colectânea de reflexões, desabafos, pensamentos e confissões, redigidos em formato de ensaio, o Nóbel turco revela uma postura desalinhada, dissonante, por vezes amarga, inerente a qualquer análise lúcida da realidade. Esta obra divide-se em seis grandes grupos: i) Vida e Preocupações, ii) Livros e Leituras; iii) A Política, a Europa e outros problemas por sermos nós mesmos, iv) Os meus Livros são a minha vida e v) Outras cidades, outras civilizações. Nem sempre estas divisões correspondem a arrumações conceptuais estanques porque sentimos ao longo da leitura que a sua vida pessoal com a mulher e a filha o levam a questionar todas as outras questões exógenas, históricas e circunstanciais, como se de uma força centrípeta se tratasse, que outorga coesão e unidade ao foco das suas preocupações.
Quando um livro é assim concebido, oferece-se aos olhos do leitor dando-lhe a possibilidade de participar de forma subjectiva, livre e pessoal, procurando resposta e reflexão para as suas próprias curiosidades e inquietações. Realço, por isso, dois ensaios muito particulares, que se relacionam, que se complementam e que se justificam mutuamente, talvez por isso escolhidos para abrir e encerrar o livro.
A Mala do meu pai é o título da conferência proferida no momento de entrega do prémio Nobel na Suécia. E porque nunca chegamos ao topo da montanha sem reconhecer o caminho que foi trilhado até lá, o escritor fala sobre a mala e os pertences escritos que seu pai lhe deixou e com isso aproveita o pretexto para discorrer sobre a sua relação com a Literatura e o seu (re)e auto conhecimento nela pois “o escritor que se fecha num quarto e que, antes de mais, viaja ao interior de si mesmo, descobrirá com o passar dos anos a eterna regra de literatura: ter de possuir a capacidade de contar as suas histórias como se fossem as de outros e contar as de outros como se fossem as suas". Neste discurso transparente honesto, íntegro mas também nostálgico, temeroso e revoltado, Orhan Pamuk confessa as razões por que escreve e alguns desses argumentos são bastante desarmantes e intimistas, por vezes num tom algo amargurado: “Eu escrevo porque não consigo fazer um trabalho normal como as outras pessoas. Escrevo porque estou zangado com todos vós, porque estou zangado com toda a gente. Escrevo porque só consigo participar na vida real transformando-a. Escrevo porque gosto da glória e do interesse que a escrita nos traz. Escrevo para estar só. Talvez escreva por querer compreender porque razão estou tão, tão zangado com todos vós, tão, tão zangado com toda a gente. Escrevo porque gosto de ser lido. Escrevo porque é entusiasmante transformar todas as belezas e riquezas do mundo em palavras. Escrevo porque nunca consegui ser feliz. Escrevo para ser feliz”. 
Numa viagem regressiva até ao primeiro texto do livro intitulado O Autor implícito, Pamuk afirma a este propósito que «a literatura não permite a um tal escritor pensar que salva o mundo; em vez disso dá-lhe a hipótese de não desperdiçar o dia. E todos os dias são difíceis especialmente difíceis quando não se escreve».
Escrever é sempre um exercício paciente, um trabalho permanente e persistente, sem espaço para resiliências e onde deve haver espaço para o imprevisto, para o inusitado e para a surpresa. É pelo facto do escritor se sentir surpreendido pela sua própria escrita que o torna actor depois de ter sido agente da construção literária. Tal como na vida, em qualquer viagem, antes de partir fazemos planos: escolhemos a história, determinamos os portos a visitar, as cargas a transportar, calculamos tempos e distâncias, cartografamos o itinerário, o caminho dos sonhos e das vontades. Contudo, o vento surge dos quadrantes mais imprevisíveis e decide mudar a direcção e introduzir novas coordenadas. Quando ele acalma, encontramo-nos em lugares que nunca esperávamos conhecer, em águas calmas e enevoadas e percebemos que, tendo feito muito pouco para isso, fizemos avançar o romance, a viagem, a vida.  


Palavras-Chave: Identidade, Ocidente/Oriente, Viagens exteriores e interiores, Escrita

domingo, 12 de abril de 2015

O Meu Irmão

O Meu Irmão
Autor: Afonso Reis Cabral
Título: O Meu Irmão
Género: Romance
Editora: LeYa (Prémio Leya 2014 - 361 candidatos de 14 países)
1ª edição 2014
365 Páginas




Raça de Abel, dorme, come e bebe,
Deus sorri complacentemente
Baudelaire

“Eu nascera inteligente e perfeito, ele nascera inimputável e incompleto. Sendo irmãos, não podíamos ter nascido em lados mais diferentes da vida e, no entanto, um de nós conquistara o centro da vida e o outro não. O Miguel abdicara de todos os dons antes de nascer e por isso conquistara o paraíso na terra e Deus guiava-o pela mão, aceitando o que ele oferecia. Crescera anjo ferido na expressão do nosso pai. E eu acrescento: crescera anjo ferido e não sabia disso. Bastava-lhe existir para existir bem, em paz.” (p.172).
O Meu Irmão é, assim, um romance que retrata a relação do narrador com o irmão Miguel, um homem de quarenta e alguns anos portador do Síndrome de Down, pelo qual ficara responsável após a morte dos pais. “Porque a vida dele (Miguel) alimentava-se da vida deles. Não nasceu apenas deles, viveu da soma dessas duas pessoas, a mãe e o pai. Agora que não há elementos para somar, como subsiste? (p.115) As outras quatro irmãs reclamaram também Miguel para elas mas de forma titubeante e pouco assertiva, quase como descarte de consciência, apresentando cada uma a sua desculpa, o seu «apesar de»: os filhos - cinco de Constança ou os quatro de Matilde, os novos maridos - Joana ia no terceiro, ou a falta de dinheiro de Inês.
Este narrador, doutor em Letras, professor universitário de Literatura Portuguesa, divorciado e aparentemente bem resolvido com as suas amarguras e frustrações tem agora a oportunidade de aprender com Miguel a aceitar as “não resoluções” que a vida coloca e a lidar com os improvisos com que o destino nos desafia: “nunca sentirei um amor de pai pelo meu irmão, embora saiba que de certa forma é isso que me constringe. Se conseguir amá-lo mais, reconhecê-lo como meu- fingir que desde sempre o vejo como criança, imaginar que lhe peguei ao colo depois de ele nascer-talvez ultrapasse a distância em nós” (p.80, em caixa de texto). A diluição desta distância é, então o desejo mais profundo e explícito do narrador, inseguro perante este novo cenário porque as limitações de Miguel reflectem, em profundidade, a natureza das suas próprias incapacidades, das suas convulsões interiores, das suas ambições e frustrações. Afinal de contas o irmão por ter nascido assim, nasceu “com a vida feita”. Além disso, Miguel era capaz de amar incondicionalmente, de forma absoluta e total e ainda assim era profundamente dependente da protecção do irmão.
A reminiscência bíblica de Caim e Abel é um tom quente nesta relação fraterna, não fosse a epígrafe inicial de Baudelaire (a partir do poema As Negações de S. Pedro, do livro As Flores do Mal) que se oferece ao leitor na abertura da obra e que revela o itinerário desta viagem. Começamos nas primeiras páginas a caminho do Tojal, perto de Arouca e longe de tudo o resto. O Tojal é uma paisagem humana, agreste, abandonada, árida que parece infértil e estéril ao nascimento de qualquer sopro de vida natural ou emocional. Miguel e o irmão encontram-se e privam com a única família daquela aldeia: Olinda, Aníbal e Quim, o único de quatro filhos que ficou, também quarentão, também dependente como Miguel, mas com outro tipo de necessidade e que acaba por morrer. Quim era capaz de ter ambições e daí a amargura de nunca as ter concretizado, Miguel não, vivia na satisfação do que lhe podia ser dado e do que ele poderia conseguir, logo que tivesse a Luciana era quanto lhe bastava.
O amor de Luciana e Miguel foi contra todas as expectativas e convenções uma demonstração de que a deficiência e aparente diminuição não condiciona a existência de estados maiores. Inconscientemente para o narrador Luciana representava o impedimento para um amor fraterno mais consistente, uma atenção e uma prioridade de Miguel que estando viradas para ela deixariam de estar viradas para o irmão. No entanto, um incidente somente revelado nas últimas páginas do romance aproxima os três e fecha uma analepse que explica ao leitor o retorno ao Tojal e àquele espaço de tempo irreflectido, de memórias perdidas mas felizes.
A diferença e a doença são dois temas frágeis, susceptíveis e socialmente de penumbra, abordados neste romance de forma dura e madura, sem complacências, longe do politicamente correcto e dos pudores com que são silenciados. Pela voz deste irmão misantropo angustiado, solitário, que se diz com a impressão de não conseguir amar, face ao modo absoluto com que Miguel o faz, aprendemos que “existem segundas oportunidades para as primeiras impressões” (p. 117). Para dar azo a este espaço mais intimista e confessional, o autor cria dois níveis discursivos, o narrativo ficcional e um outro que resulta como uma caixa de ressonância ao amplificar as pensamentos e principalmente o que fica para além deles. Esta espaço discursivo alternativo dá profundidade à leitura, torna audíveis todas as autocríticas que por falta de coragem não passam a corpo maior: “Tudo o que é ofensa está em corpo menor”, explica o escritor. Apesar dos desabafos, destes comentários paralelos, entrecruzados, espontâneos e tantas vezes ácidos e surpreendentes, o leitor é permanentemente confrontado com a sinceridade e a gratuidade do amor que vê renascer no narrador, que comporta todas as formas, todas as idiossincrasias e diferenças: “volto para junto do Miguel quando me ocorre que é muito fácil fazermos mal às pessoas que amamos” (p 69).

Palavras-chave: Síndrome de Down, relação fraterna, Tojal, Luciana e Miguel


Uma menina está perdida no seu século à procura do pai

Autor: Gonçalo M. Tavares
Título: Uma menina está perdida no seu século à procura do pai
Género: Romance
Editora: Porto Editora
1ª edição 2014
194 Páginas





Resumo: Gonçalo M. Tavares tem um fascínio, cada vez mais explícito nas suas obras, pelo tempo e pela velocidade dos acontecimentos e da vida, comprovando que um livro que acompanha o ritmo do mundo pouco tem a oferecer. Cada livro dita uma (a sua) velocidade de leitura e o novo romance de Tavares pede-nos “mais devagar” porque as coordenadas quase nunca são lineares e os percursos quase sempre entrecruzados. A velocidade não é constante (porque também não é isso que se espera da vida), os acontecimentos distribuem-se por vários ritmos, que detêm a nossa atenção e exigem pausas recorrentes.
O cenário é a Alemanha do pós Segunda Guerra e nas primeiras páginas encontramo-nos com Hanna, uma menina de quatorze anos com síndrome de Down, que acaba de ser acolhida por uma instituição. Pouco se sabe acerca desta menina, de onde vem ou quem é, apontamentos que no fundo se tornam absolutamente acessórios para o enredo quando a única informação que importa ao leitor é saber que esta menina anda à procura do seu pai.
Marius, que a recebe na instituição, vai-se responsabilizando por ela como se se assumisse um pai substituto. A partir daquele momento tornam-se inseparáveis, acompanham-se em viagens, aventuras e em várias casualidades que os levam a cruzar-se com muitas personagens: Josef Berman – um fotógrafo obstinado por animais com deficiências -; Agam a quem pediam para fazer inscrições públicas de códigos secretos. O ofício deste excêntrico era esta estranha obsessão de guardar e revelar, ao mesmo tempo, os segredos dos outros, desde uma pequena mensagem da amante num objecto da sala de um senhor qualquer, até às frases veladas do sino da cidade; Fried Samm, um de quatro irmãos que fixavam cartazes de mobilização social.
Hanna e Marius, nas suas peripécias por Berlim, conheceram também Raffaela e Moebius, donos do hotel, onde ficaram hospedados no quarto chamado Auschwitz. Nesse hotel conheceram ainda Terezin, um velho que que lhes contara a história dos sete judeus, os sete «Séculos XX». Estes sete homens tinham como função memorizar sem qualquer falha, toda a História do século XX – levando o exercício à exaustão - ao mais pequeno pormenor sobre tudo o que se tinha passado nos Campos de Concentração.
Quando chegou à instituição, Hanna trazia apenas um objecto que Marius levou a um antiquário na expectativa que lhe revelasse alguma informação. Vitrius pouco correspondeu a esta expectativa mas com ele ficaram a conhecer um relógio do século XIX com dois mostradores utilizado nas fábricas de tecidos em Inglaterra. Um dos mostradores media o tempo normal, media o tempo fora da fábrica como todos os outros relógios, portanto não saía do mundo. Já o segundo mostrador era típico da revolução industrial, avançava de acordo com a velocidade da roda de água que accionava as máquinas. Se os homens não mantivessem o ritmo constante da água, repercutia-se no ritmo das máquinas e, consequentemente, o relógio retardava: marcava apenas o tempo do trabalho. Na verdade, a passagem do tempo é bem mais justa se se fizer depender do nosso esforço para cumprir um determinado objectivo. Vitrius preservava ainda uma invulgar “herança”, iniciada pelo seu avó e continuada pelo seu pai, uma tarefa que consistia em desenvolver sequências numéricas com intervalos de dois números.
Por sugestão de Vitrius chegaram até Grube, um velho historiador que defendia a História como um elemento vivo, que mudava de posição, ora acelerava, ora diminuía de ritmo, um elemento com peso constante – uma massa que de um ponto para o outro se arrasta ou acelera, com o centro de gravidade variável.
Uma menina perdida no seu século à procura do pai representa, acima de tudo, a fragilidade e a limitação que temos em encontrar identidades e em descobrir as (nossas) raízes que nos definem e orientam. Ao mesmo tempo, sentimos esta ânsia sôfrega de deixar marcas e rastros para que os outros nos possam encontrar (ou até para nos que voltemos a reencontrar com nós mesmos), para que não nos percamos num tempo que é nosso e numa colectividade à qual pertencemos.
As noções de Tempo, Memória e História são indissociáveis entre si e principalmente entre as personagens, são no fundo os pilares estruturais na demanda de nós mesmos - simples objectos devir, precários e volúveis. No fundo estamos vivos apenas para isto: aceitar o que vai acontecendo porque aconteça o que acontecer o importante é avançar…sem nunca parar.




Estrutura do romance
I O rosto
1.      Um Rosto
2.      AS fichas
3.      Um fotógrafo de animais
II A Revolução – Dizer Adeus
1.      O Cartaz
2.      Fried Samm, a Revolução
3.      Como ajudar?
4.      Manual de Instruções
5.      Dizer Adeus
III O Hotel
1.      O hotel
2.      O quarto
3.      Os sorrisos na rua
4.      Comer
IV Subir e Descer
1.      Vertigens
2.      A Visita ao Antiquarius Vitrius
3.      Dom Quixote
4.      A Mão
5.      Os dois ponteiros
6.      A descida
7.      Gritar
V O nome
1.      A Forma do Hotel
VI a Visita Súbita
1.      Nova Visita a Vitrius
2.      A Terefa da Família ( Herança)
3.      Continuar
4.      O olho
5.      Regresso ao Hotel
VII O Pesadelo
1.      Um pesadelo
VIII No Hotel, em volta do Hotel, Perdidos no Hotel
1.      Os hóspedes
2.      Perdidos no Hotel
3.      AS costas
IX Procurar uma Planta
1.      O olho vermelho
2.      Uma fotografia
3.      Procurando uma planta
X Peso e Música
1.      A Importância do Peso
2.      Um passeio com Terezin
3.      Algumas questões sobre bem-estar
XI Outro pesadelo
1.      Marius
XII Sete Séculos XX
1.      Os Séculos XX
2.      Os Séculos XX em Moscovo
XIII Pequenas Palavras
1.      Olho vermelho e o cartão
2.      Olho vermelho, o Sino
XIV Hansel e Gretel
1.      Deixar Pistas
2.      Hanna e Marius no Comboio
3.      Josef Berman aparece
XV A fuga
1.      Esconderijo
2.      Regressar a Berlim
3.      Nada
4.      A Multidão, finalmente


Um Amor Feliz

Autor: David Mourão-Ferreira
Título: Um Amor Feliz
Editora: Editorial Presença
15ªEdição de 2002
299 páginas






Sinopse

David Mourão Ferreira inspira-se na matriz dos Amores do autor latino Ovídio (43 a.C – 18 d.C). O cenário é, igualmente, decalcado a partir de uma Roma exuberante, cuja frivolidade e fausto são as condições sine qua non e o humus perfeito para a fertilidade de determinados hábitos e para uma plêiade de subterfúgios amorosos. Nesta antecâmara, tece-se um enredo tão sedutor quanto enigmático, sustentado por jogos, expedientes e enganos.
            O fio condutor é uma mulher, envolta num manto de secretismo, aparentemente oculta, gramaticalmente comum, enganosamente anónima, a Y. A sigla, convertida em nome de mulher, graficamente erótica que tudo precipita e inicia, é a metáfora colectiva dos amantes. Y converteu-se na incógnita da vida do artista plástico, Clown, quando este descobriu que Arte, Amor e Mulher tecem a fórmula de Um Amor (quase) Feliz, com o género feminino sempre dominante.
O romance apresenta uma estrutura de quarenta e sete capítulos, parcialmente desconexos e isolados mas tece-se de forma coerente, nas suas teias de erotismo e sedução. A obra suscita várias leituras e mergulha o leitor num universo amoroso cambiante e indecifrável, num jogo dialéctico de luz e sombra, consentimento e infracção, enigma e revelação.  A intensa e arrebatadora história de paixão entre estes dois amantes tem como pano de fundo uma Lisboa eclética e frívola, com as suas movimentações sociais e festivas, nos esgares titubeantes de uma elite diplomática.
O romance encerra de forma inconclusiva, circular, aberta porque é na intermitência de duas possibilidades que se abre o espaço para a vontade e para a ilusão de Um Amor Feliz. Clown confirma com Y a máxima ovidiana: «quanto mais guarda se faz ao corpo, mais adúltera é a alma, a mulher só é verdadeiramente fiel quando tem a liberdade de o não ser[1]».

PALAVRAS-CHAVE: Um Amor Feliz. Amores Ovidianos. Adultério, Jogo de sedução. Y.



[1]Carlos Ascenso André, (trad) Amores de Ovídio, Livros Cotovia e Carlos Ascenso André, Lisboa, 2006, p 20.

Siddhartha

Autor: Hermann Hesse
Título: Siddhartha
Editora: LeYa
Género: Romance
153 páginas, 2011






Resumo:
            O nobel alemão Hermann Hesse presenteia-nos com Siddhartha (1922), um romance que coloca a tónica no dualismo da vida activa e da atitude contemplativa, numa constante dialéctica de questionação das escolhas e dos caminhos, na esteira da celebração de um certo misticismo oriental. O leitor vai viajando, nestas páginas sinestésicas, pelos labirintos e complexidades da alma humana do protagonista, nascido na Índia, no século VI a.C.
            Siddhartha é filho de um brâmane e cresceu isolado das misérias do mundo, gozou de uma existência calma e de uma vida luxuosa, até ao momento em que decidiu abdicar de tudo isso, para se envolver e iniciar numa viagem existencial, na senda da descoberta das (suas) verdades. O livro começa com a sagacidade de um jovem que procura ficar vazio de sede, vazio de desejo, vazio de sonho, vazio de alegria e de tristeza pois acreditava que esvaziando um Eu dominado por impulsos e  inclinações, poderia fazer emergir o mais profundo do Ser. Juntamente com o seu amigo Govinda, desprende-se das amarras circunstanciais, disposto a beber de preceitos sábios e de doutrinas irrefutáveis. Nesta caminhada, as escolhas dos dois samanas divergem e seguem, por isso, rumos diferentes.
            Siddhartha sempre honrara 3 directrizes norteadoras - Jejuar, Esperar e Pensar - e movido pela avidez e insatisfação das doutrinas cruza-se com várias pessoas que lhe vão dar a conhecer um outro lado da vida e do mundo, diametralmente opostos daqueles que ele conhecia. Com Kamala, o Brâmane conhecera os prazeres do corpo e dos sentidos, sem nunca se entregar à cortesã inteiramente; com Kamaswami, um afamado comerciante, aprendera a agradar a cobiça e a ganância sem nunca se deixar levar por elas, ou pelo menos acreditando nessa ilusão. No entanto, o tempo revelou-lhe o contrário pois ninguém é incorrompível até ser tentado e Siddhartha deixara-se deslumbrar, deixa-se seduzir por aquelas que eram as efemeridades da vida.
            Certo dia, chegando próximo de um rio viu reflectido na água o vazio da sua alma e nesse momento, percebendo que a sua vida se tinha esgotado, quis entregar-se à morte como quem quer parar o fluir perene do tempo e da vida. De repente, ouve reverberar dentro de si um «Om» sagrado que tanto significa «Completo» como «Perfeito» e que desperta o seu espirito entorpecido. Nas margem desse rio conhece Vasudeva, o barqueiro, com quem durante os anos seguintes convive e aprende. Os anos foram passando sem que ninguém os contasse e por altura da morte de Buda, o Sublime, na hora da sua passagem para a liberdade eterna, Kamala dirige-se com o seu filho, para o lugar onde estava a morrer o Santo agora moribundo. Entretanto, Kamala é mordida por uma cobra e morre nos braços de Siddhartha, que rapidamente reconhece no menino da cortesã, o seu filho. Com este filho Siddhartha inicia nova viagem, agora pela incondicionalidade de um sentimento sem reciprocidade mas que ainda assim lhe mostra o sentido real da vida.
O livro encerra com um reencontro e com uma conversa profunda de Siddhartha com o seu amigo de sempre Govinda, no reflexo um do outro reconhecem as suas próprias escolhas, tendo o rio como pano de fundo, esse rio que é reminiscência e lembrança de que nunca nos banhamos duas vezes na mesma água. Siddhartha confessa-se e assume que o contrário de qualquer verdade é tão verdadeiro quanto essa mesma verdade e que tudo é metade, em tudo falta a totalidade, integralidade e unidade. O Mundo sempre se dividira em Sansara e Nirvana, ilusão e verdade, sofrimento e libertação. O brâmane percebera que a sua imensa avidez e amor por tudo, o distanciaram do equilibrio, dispersaram-no de um foco. Foi preciso cometer muitos pecados e tantas loucuras, enfrentar misérias, desilusões e sofrimentos para poder recomeçar: afinal a viagem mais sagrada e regenedora do Homem é sempre aquela que o leva por um périplo a interior, na descoberta de si mesmo.


Palavras-Chave: misticismo oriental, vida activa versus atitude contemplativa, libertação, equilíbrio.