terça-feira, 1 de março de 2016

A Queda

Autor: Albert Camus
Título: A Queda
Género: romance filosófico
Editora: Livros do Brasil – Porto Editora
2015
85 páginas




«A indignação, o talento, a emoção que eu despendia livravam-me, em compensação, de qualquer dívida em relação a eles. Os juízes condenavam, os réus expiavam e eu, isento de qualquer obrigação, de julgamento e de sanção, eu imperava, livremente, numa luz edénica».
A Queda, p. 20.

Resumo: Albert Camus foi agraciado com o Prémio Nobel em 1957, um ano após a publicação daquela que viria a ser a sua última obra ficcional e talvez a mais baudelairiana, A Queda. O filósofo argelino foi reconhecido e enaltecido pela lucidez e ironia com que ilumina os traços mais obscuros da natureza humana e pela forma satírica e, por vezes até, virulenta com que espelha os problemas de consciência, fruto das escolhas mais fracturantes e reveladoras do carácter do Homem. Nesta obra, ecoa uma acidez oscilante entre a maldade e a culpa que tentam ser legitimadas, através da manipulação e da subversão de argumentos. A Queda é um caleidoscópio da decadência moral, da sujeição e transgressão sociais, com a agonia inerente a um paradigma pouco humanista e tão contemporâneo. 
O foco de luz incide no monólogo dramático de um Juíz-penitente - assim auto-designado dada a sua dupla função de vítima e de carrasco - que se encontra em Amesterdão, num bar de marinheiros chamado Mexico-City. De repente, enceta uma conversa com um desconhecido, que apesar de não proferir uma única palavra se faz presente em toda a obra, enquanto interlocutor silencioso mas companheiro de todas as reflexões do protagonista Jean-Baptiste Clamence. Nas últimas páginas do livro, revela-se um pouco da identidade deste ouvinte, numa anagnórise aliás, pouco abonatória para ambos: «Ah! Eu já suspeitava, veja bem. Esta estranha afeição que eu sentia por si, tinha portanto sentido. O senhor exerce em Paris a bela profissão de advogado. Eu bem sabia que éramos da mesma raça. Não somos todos nós semelhantes, falando sem cessar e para ninguém, enfrentando sempre as mesmas perguntas, embora conheçamos de antemão as respostas?».
Ao longo de várias deambulações pelos canais e ruas de Amesterdão, o Juíz-penitente vai abrindo o livro da sua vida, partilhando experiências e lembranças dos seus tempos idos em Paris e confessa um episódio muito particular, que o atormenta e condiciona toda a sua argumentação. Entre preâmbulos e divagações, é reservado um importante espaço cénico-literário para confissões, críticas e análises das suas relações com as mulheres: «Estas damas, por detrás das vidraças? O sonho, meu caro senhor, o sonho com pouco esforço, a viagem às Índias! Estas criaturas perfumam-se com especiarias. Entra-se, elas correm as cortinas e a navegação começa. Os deuses descem sobre os corpos nus e as ilhas vão à deriva, dementes encimadas por uma cabeleira desgrenhada de palmeiras ao vento. Experimente».
A sociedade é alvo de um detalhado escrutínio, nas relações tendenciosas, viciadas e perversas, impulsionadoras da queda de qualquer Homem: «Uns gritam “Ama-me!” Outros “Não me ames!” mas há uma certa raça, a pior e a mais infeliz “Não me ames e sê-me fiel”…encontramo-nos um dia numa situação de possuir sem verdadeiramente desejar. Acredite-me, para certos seres, pelo menos, não possuir o que se não deseja é a coisa mais difícil do mundo». Apenas no que se refere ao hedonismo, o Homem consegue ser fiel a si mesmo, já que nenhum homem é hipócrita nos prazeres: «O ato de amor, por exemplo, é uma confissão. Aí o egoísmo grita, ostensivamente, a vaidade pavoneia-se, ou então revela-se aí a verdadeira generosidade».  
Esta plêiade argumentativa, bem construída e coerente ainda que esteja assente na subversão das premissas, representa a imagem do homem moderno da nossa era, fruto de uma sociedade que relega a verdade em prol do verosímil e onde a sedução da palavra é feita pela forma sem corresponder necessariamente a qualquer essência: «As mentiras não conduzem finalmente à via da verdade? E as minhas histórias, verdadeiras ou falsas, não tenderão todas para o mesmo fim, não terão o mesmo sentido? Que importa, então, que sejam verdadeiras ou falsas, se nos dois casos, são significativas do que fui e do que sou? Vê-se mais claro, por vezes, naquele que mente do que no que fala verdade. A verdade cega, como a luz. A mentira pelo contrário, é um belo crepúsculo que realça cada objecto».
A queda do protagonista é sinónimo de fuga, fraqueza e perversão, revestida de uma falsa ideia de liberdade e autonomia mas no fundo não é mais do que uma uma irreversível sujeição: «Aceitei a duplicidade em vez de ficar desolado com ela. Nela me instalei, pelo contrário, e nela achei o conforto que busquei durante toda a minha vida. O essencial é poder permitir-se tudo, mesmo se for preciso proclamar, de tempos a tempos, em altos brados, a própria indignidade. Permito-me tudo… Não mudei de vida, continuo a amar-me e a servir-me dos outros. Só que a confissão das minhas culpas me permite recomeçar de uma maneira mais leve e gozar duplamente a minha natureza, primeiro, e em seguida, um encantador arrependimento».
Qual foi então o episódio que tanto traumatiza, inquieta e atormenta a consciência de Clamence? A queda de uma mulher nas águas do rio Sena e a sua voluntária omissão e hesitação quando se preparava para a ajudar. Na outra face deste arrependimento está uma hipocrisia e egoísmo, que definem os traços de personalidade de um homem perturbado, decadente e em vertigem na própria queda: «Pronuncie o senhor mesmo as palavras que, há anos, não cessam de retinir nas minhas noites e que eu direi enfim pela sua boca: «Ó pequena, deita-te de novo à água, para que eu tenha pela segunda vez a sorte de nos salvar a ambos!» pela segunda vez, hein?, que imprudência! Suponha, caro coleg,a que nos tomam à letra. Teríamos de cumprir. Brr…! A água está tão fria! Mas tranquilizemo-nos! É tarde de mais, agora, será sempre tarde de mais. Felizmente!»


Palavras chave: Monólogo, Juíz-penitente, Paris, Amesterdão, hipocrisia, peso de consciência. 

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

As cidades Invisíveis

Autor: Italo Calvino
Título: As Cidades Invisíveis
Género: Romance
Editora: Dom Quixote - LeYa
2015
174 páginas




- Viajas para reviver o teu passado? – era agora a pergunta do Kan, que também podia ser formulada assim: - Viajas para achar o teu futuro?
E a resposta de Marco: - O algures é um espelho em negativo.
O viajante reconhece o pouco que é seu, descobrindo o muito que não teve nem terá.
As Cidades Invisíveis: p. 37


Resumo: As Cidades Invisíveis de Italo Calvino é, consensualmente, uma das obras primas do século XX e espelha todo o preciosismo e fulgor literários do realismo mágico. O autor coloca Marco Polo diante do imperador dos tártaros Kublai Khan a quem o viajante descreve, primorosamente e com requinte no detalhe, um catálogo de lugares, um inventário de nomes toponímicos, uma cartografia de cidades.
Tal como num jogo de xadrez em que a jogada seguinte depende da anterior do adversário, e depois das exuberantes descrições de Marco Polo, a mente do Grão Kan começava, por sua conta e risco, a desmontar as cidades peça a peça, na ânsia de as reconstruir de um outro modo, substituindo características, deslocando formas e invertendo os sentidos em busca de uma (sua) cidade ideal. Neste exercício de imaginação e projecção de um novo império, Kublai Khan ia-se conhecendo e reconhecendo, porque todas as cidades são como os sonhos: «todo o imaginável pode ser sonhado mas também o sonho mais inesperado é um enigma que oculta um desejo ou o seu contrário, um terror». Por isso, Khan inquieto perguntara a Polo: «- No dia em que conhecer todos os símbolos – perguntou a Marco - conseguirei possuir o meu império, finalmente? Ao que o veneziano respondera: -Sire, não acredites nisso: nesse dia serás tu mesmo símbolo entre os símbolos». 
É neste imaginário simbólico e abstracto de paradigmas mentais que as cidades desfilam ao longo de nove capítulos, exibindo a racionalidade geométrica da existência humana nas suas múltiplas viagens: «Viajando percebemos que as diferenças se perdem, cada cidade se vai parecendo com todas as cidades, os lugares trocam entre si a forma ordem distâncias, uma poeira informe invade os continentes. O teu atlas guarda intactas todas as diferenças: a provisão de qualidades que são como as letras do nome».
A taxonomia das cidades constrói-se mediante as múltiplas relações que estabelecem com os homens e por isso contam- se cinquenta e cinco cidades divididas pelos seguintes grupos: i) as cidades e a memória - Diomira, Isidora, Zaira, Maurília -  ii) as cidades e o desejo -  Doroteia, Anastásia, Despina, Fedora, Zobaida – iii) as cidades e os sinais: Tamara, Zirma, Zoé, Hipácia, Olívia – iv) as cidades subtis: Isaura, Zenóbia, Armila, Sofrónia, Octávia – v) as cidades e as trocas: Eufémia, Cloé, Eutrópia, Ersília, Esmeraldina – vi) as cidades e os olhos - Valdrada, Zemrude, Bauci, Filias, Moriana – vii) as cidades e o nome: Aglaura, Leandra, Pirra, Clarice, Irene – viii) as cidades e os mortos: Melânia, Adelma, Eusápia, Árgia, Laudomia – ix) as cidades e o céu: Eudóxia, Bersabeia, Tecla, Períncia, Andria – x) as cidades contínuas: Leónia, Trude, Procópia, Cecília, Pentesileia – xi) as cidades ocultas: Olinda, Raissa, Marozia, Teodora, Berenice.
            O olhar analítico e profundamente descritivo de Marco Polo, no retrato que pinta de cada uma destas cidades não ceifa qualquer potencial fantástico, muito pelo contrário, suscita o inebriamento por estes lugares, que ganham tamanho realismo na imaginação do leitor. Cidades com nomes de mulheres, umas mais fortes, outras mais frágeis, umas mais faustosas e luxuriantes, outras mais sombrias e obscuras, mas todas únicas, indecifráveis e inesgotáveis. Se muitas espelham a nostalgia do indivíduo na construção idílica e utópica dos lugares, como se fosse um espaço de reencontro consigo próprio, outras desenham arquitecturas presumíveis e verosímeis preferindo as realidades facilmente concebíveis e palpáveis: «umas encerram o que é aceite como necessário enquanto não o é ainda; as outras o que é imaginado como possível e no minuto a seguir já não o é».
Da mesma forma que encontramos cidades de existência indivisível, descobrimos também cidades de existência dúbia e ambígua, umas parecem mais leves e etéreas, outras mais finitas e mutáveis, umas mais rotineiras, outras mais surpreendentes. Como se não bastasse o desdobramento deste catálogo, Marco Polo inclui ainda no inventário todas aquelas cidades que não existindo poderiam ter existido e sobretudo um modelo de cidade que se deduz extrapolando as utopias e as vontades de todas as outras, uma cidade feita de excepções, impedimentos, contradições, incongruências e contrassensos: «se uma cidade assim é o que há de mais improvável, diminuindo o número de elementos anormais aumentam as probabilidades de existir realmente a cidade […] mas não posso fazer avançar a minha operação para além de um certo limite: obteria cidades demasiado verosímeis para serem verdadeiras».
Não esqueçamos ainda as cidades que dentro do paradoxo conseguem ser coerentes, como Cloé, que nas suas movimentações luxuriantes continua a ser a mais casta das cidades, ou até mesmo Esmeraldina cujas vidas rotineiras e tranquilas decorrem sem se repetirem. Há ainda aquelas cidades que têm em si o próprio contrário, o veneno e seu antídoto como Berenice, dotada de uma qualidade intrínseca: sendo injusta germina nela o segredo de uma cidade justa - «da minha conversa retirarás a conclusão de que a verdadeira Berenice é uma sucessão no tempo de cidades diferentes, alternadamente justas e injustas. Mas a coisa de que pretendia avisar-te é outra: que todas as Berenices futuras já estão presentes neste instante, envolvidas uma dentro da outra, apertadas empilhadas inextricáveis».
Khan interroga Marco Polo sobre a sua cidade italiana mas o viajante sabe que as palavras desgastam as imagens da memória, e uma vez fixadas pelas palavras, as cidades correm os risco de se apagar. Marco Polo tem medo de perder Veneza, se falar dela toda de uma vez, mesmo estando ciente de que talvez a tenha vindo a perder, pouco a pouco, depois de falar de tantas outras cidades. Afinal Veneza estivera sempre no seu olhar sobre todas as outras. 
No fim de todas as viagens e deslocações, a cidade que continua a seduzir, verdadeiramente, Marco Polo é aquela que é descontínua no tempo e no espaço, a única que não pode deixar de ser desejada, procurada e idealizada, por ser a mais utópica porque «o catálogo das formas é infinito: enquanto houver uma forma que não tenha encontrado a sua cidade, continuarão a nascer novas cidades. Onde as formas esgotam as suas variações e se desfazem, começa o fim das cidades». Os limites são o segredo e a medida para uma imaginação livre e infindável pois «só se conheceres o resíduo da infelicidade, que nenhuma pedra preciosa pode compensar, poderás computar o número exacto de quilates que deve ter o diamante final.»

Palavras chave: realismo mágico, cidades, utopia, viagens da imaginação, Marco Polo. 

sexta-feira, 1 de janeiro de 2016

A Instrumentalina

Autor: Lídia Jorge
Título: A Instrumentalina
Género: Conto
Editora: LeYa
2015 (3ª edição)
46 páginas







«Como se o tempo de repente dum outro modo fluísse, ou mesmo a qualidade da sua hora mudasse, e uma coisa perdida aparecesse, uma dúvida se quebra, um amor acaba, e outro que nunca se tinha imaginado, de repente, nasce».

Resumo: «Nunca se sabe o que uma viagem pode trazer ao íntimo do coração.»: são estas as palavras que abrem o conto de Lídia Jorge, prometendo e adivinhando desde logo a ternura e a comoção pelos afectos a que já nos tem habituado. No entanto esta narrativa breve distingue-se da restante obra ficcional da escritora como uma peça autónoma, traduzida e difundida em várias línguas – inglês, francês, italiano, húngaro, búlgaro e alemão –, tendo sido inclusivamente considerada uma obra-prima do conto.
Idalina…Rosalina…Constantina…não, Instrumentalina…uma força fonética que lhe dá quase o estatuto de nome próprio, um simbolismo tão intenso que lhe confere quase uma existência ontológica: afinal ela é a protagonista e personagem principal das memórias da narradora, Greta Garbo, como lhe chamava o tio. O selim, a roda pedaleira, a imagem do retorcido guiador, objectos soltos «que sempre tivemos por separados atam as pontas, imagens que bóiam nas nossas vidas sem ligação juntam-se e criam uma nova sequência com sentido». O cenário é o bar do Royal York Hotel e a narradora encontra-se ali sentada numa mesa, olhando quem entra quem sai, movimentações e deslocações que não a deixaram indiferente a uma viagem ao passado e eis que num ápice se reencontrara num outro tempo, num outro espaço. Aquela bicicleta marca Deka, a sua Kodak e a máquina de escrever quase que esculpiam o retrato e os traços de carácter do tio Fernando. Certo dia foi ela a escolhida, de entre todos os sobrinhos, para acompanhar o tio num passeio na Instrumentalina, pelos extensos campos de margaridas. O quadro das memórias vai-se tornando mais nítido e vai-se presentificando no encaixe de todos estes objectos, o Citroën cinza, aquela moeda dourada, que mais não são do que a consubstanciação de muitos episódios da sua infância. 
É certo que a materialidade de um objecto existe apenas enquanto este é tangível mas pode eternizar-se se conseguir chegar à memória dos afectos. Mesmo estando quebrada a Instrumentalina e mesmo desaparecido o tio Fernando, andava ainda na casa dos seus vinte anos, nunca se fecha a possibilidade de nos surpreendermos com novos sentidos que vão além da nossa própria imaginação. Se é com esse aviso que começa o conto é com essa mesma certeza que termina: «Uma coisa fria, como se o meu coração se dirigisse não para um homem mas para um lago empurrava-me a vista na direcção do bengaleiro. Preparava-me para um encontro singular como nunca havia imaginado ser possível. Ele ali estava. Devagar, um cavalheiro de meia-idade, atrás do vidro transparente retirava o seu abafo, dobrava-o, entregava-o com as luvas, e abrindo aporta como quem acaba de correr numa bicicleta, poisava o seu olhar mediterrânico na minha mesa. “Cresceste, miúda, cresceste. Mas a tua cara é ainda a mesma…”.



Palavras-chave: Instrumentalina, memórias do coração, afectos, tio, Greta Garbo.

terça-feira, 1 de dezembro de 2015

Despenteando parágrafos

Autor: Onésimo Teotónio de Almeida
Título: Despenteando parágrafos
Género: Ensaios
Editora: Quetzal – Língua comum
2015
386 páginas




Resumo: O Açoriano Onésimo Teotónio de Almeida, catedrático no Departamento de Estudos Portugueses e Brasileiros da Universidade de Brown e também reconhecido cronista e ensaísta, apresenta o seu mais recente livro Despenteando Parágrafos: uma colectânea de reflexões, memórias, análises críticas, em torno de polémicas suaves.
Nas breves palavras introdutórias, pelas quais o autor afina as expectativas do leitor, justifica-se o título da obra, inspirado na expressão de José Cardoso Pires “pentear parágrafos”. Ao longo de 25 ensaios e mais três “apêndices”, Onésimo Teotónio de Almeida vai fazendo de forma acutilante e mordaz um escrutínio das questões literárias (ou de suposta crítica literária), retóricas, filosóficas, poéticas, linguísticas, humorísticas, questionando famigerados conceitos como «cultura», «ciência», «dialéctica». Onésimo desafia para um diálogo várias figuras da cultura portuguesa – Vergílio Ferreira, Eduardo Lourenço, José Saramago, Camilo Castelo Branco, Miguel Torga, Jacinto do Prado Coelho, Natália Correia, Helder Macedo - e é com arrojo, mas sempre legitimado e resguardado pelo seu enciclopedismo argumentativo, que se opõe e contrapõe a várias perspectivas.
Se pensarmos que esta obra começou a ser escrita e delineada deste a década de 80, podemos estar preparados para uma galeria de indagações circunscritas a várias movimentações histórico-culturais da sociedade. Apesar de uma aparente desarticulação dos textos, pela ausência de unidade temática, todos eles dialogam e convergem, internamente, seja na coerência das abordagens, na preocupação pela clareza, seja na postura e na metodologia desafiadoras.  
O primeiro ensaio apresenta, desde logo, um título barroco Das excelências axiológicas do bremontismo como hermenêutica crítica da discursividade pós-moderna – Perspectivas epistemológico-pedagógicas, e tamanha opacidade adivinha uma complexidade conceptual, quase inibidora da leitura. No entanto, como já é apanágio do autor, podemos sempre esperar requinte e ironia na apresentação e discussão dos factos. Implicitamente começa a ser desconstruída a obscuridade formal dos intelectuais, que assumem um fetiche claro pelos expedientes estilísticos e que «vendem ignorância envolta em mistério». Apesar disso, todos aprovam a parvoíce para que ninguém se revele menos digno na discussão. A verdade é que a profundidade não advém da complexificação lexical mas da distinção das complexidades semânticas, a profundidade sempre preferiu a elegância e a simplicidade, já assim é desde os Gregos. Mas afinal o que é o bremonstismo? «Explicando em linguagem da crítica corrente, é uma ruptura epistemológica na vanguarda hermenêutica-crítica apontando para o diagnóstico da textualidade vigente através da questionação fundamental interrogativa dos elementos constitutivos da discursividade» mas o autor simplifica algumas linhas abaixo em linguagem não erudita: «trata-se da análise gramatical das orações. Procura-se primeiro o predicado e o sujeito, e depois os complementos directo e indirecto, seguindo-se-lhes os complementos circunstanciais de tempo, lugar, quantidade. […] A prática da metodologia bremontista aprendia-a em criança por isso o nome que lhe dei mas reservo-o para uso pessoal. Cada um deverá escolher o seu. O meu, o bremontismo, ensinou-mo a minha professora da 4ª classe da escola primária, chamava-se Zélia Maria da Mota Machado Bremonte».
Num outro ensaio intitulado As modas que vêm de Paris, a tónica continua a ser o hermetismo de linguagens inacessíveis e não inteligíveis criado por uma elite de mentes altamente intelectualizadas. Assim, emanam da capital da Luzes para os satélites em Portugal discursos que são acriticamente replicados, reproduzidos de forma papagueante mas dotados de uma força sacramental. Qualquer profanação será entendido como um sacrilégio mas a este respeito o autor afirma com assertividade: «cá para mim, preferia mesmo substituir os intelectuais por gente que pensa. Ao menos em Portugal, que é para onde escrevo. Que na França, é com Paris» (p.51).
As discordâncias de Onésimo surgem sempre desprovidas de qualquer remoque ou ataque pessoal, mesmo quando o topos lhe diz respeito e toca na sua condição, como é o caso do ensaio Segundo recado para Miguel Torga sobre o determinismo geográfico – ou da insularidade de Vitorino Nemésio. Neste caso a polémica gera-se e floresce a partir da proposta de Torga sobre a relação de causalidade entre geografia e antropologia, e na influência da questão insular na psicologia humana. O autor não se detém a dirimir todos os argumentos, por já terem sido anteriormente desenvolvidos, no seu livro Açores, Açorianos, Açorianidade, rementendo para espaço e tempo oportunos. Ao mesmo tempo que revela pontos dissonantes no confronto com alguns autores também se confessa profundo admirador de outros, como é o caso de Jorge de Sena.
Onésimo consegue nesta sua obra de ensaios transmitir a sensação ao leitor de estar a privar na sua sala de estar porque partilha com ele bilhetes, imagens, livros e fotografias de vários momentos do seu percurso académico e profissional. Num desses momentos brinda-nos com uma troca de faxes com José Saramgo a propósito de uma contenda semântico-terminológica entre ideologia e mundividência. A preferência do autor pelo género ensaístico passa pela liberdade que este confere na análise lúcida e interventiva de assuntos estruturantes, sempre neste tom de provocação e de escrita sisifística, a fim de despentear os ambientes mais ortodoxos e de olhar pelo avesso as ideias mais renomadas e até tidas como insofismáveis.

Palavras-chave: olhar ensaístico, problematização filosófica, (re)leitura de autores, desconstrução de conceitos. 

Exorcismo
(Carlos Drummond de Andrade, Poesia e Prosa (Rio de janeiro: Editora Nova Aguilar,1979).

«Das relações entre topos e macrotopos
Do elemento suprassegmenta
Libera nos, Domine

Da semia
Do sema, do semema, do semantema
Do lexema
Do classema, do mema, do sentema
Libera nos, Domine

Da estruturação smêmica
Do idioleto e da pancronia científica
Da reliabilidade dos testes psicolinguísticos
Da análise computacional da estruturação silábica dos falares regionais
Libera nos, Domine

Do vocóide
Do vocóide nasal puro ou sem fechamento consonantal
Do vocóide baixo e do semivocóide homorgâmico
Libera nos, Domine

Da leitura sintagmática
Da leitura paradigmática do enunciado
Da linguagem fática
Da factividade e da não factividade na oração principal
Libera nos, Domine

Da organização categorial da língua
Da principalidade da língua no conjunto dos sistemas semiológicos
Da concretez das unidades no estatuto que dialetaliza a língua
Da ortolinguagem
Libera nos, Domine

Do programa epistemológico da obra
Do corte epistemológico e do corte dialógico
Do substrato acústico do culminador
Dos sistemas genitivamente afins
Libera nos, Domine

Da camada imagética
Do espaço heterotópico
Do glide vocálico
Libera nos, Domine

Da linguística frástica e transfrástica
Do signo cinésico, do signo icânico e do signo gestual
Da clitização pronominal obrigatória
Da glossemática
Libera nos, Domine

Da estrutura exo-semântica da linguagem musical
Da totalidade sincrética do emissor
Da linguística gerativo transformacional
Do movimento transformacionalista
Libera nos, Domine

Das aparições de Chomsky, de Mehler, de Perchonock
De Saussure, Cassirer, Troubetzkoy, Althusser
De Zolkiewsky, Jakobson, Barthes, Derrida, Todrov
De Greimas, Fodor, Chao, Laca net caterva

Libera nos, Domine 

domingo, 1 de novembro de 2015

Amada Vida

Autor: Alice Munro
Título: Amada Vida
Género: Contos
Editora: Relógio d’Água
1ª edição 2013
265 Páginas





«O essencial é ser feliz», disse ele. «Não importa em quê. Faz um esforço nesse sentido. Vais ver que és capaz. Com o tempo, torna-se cada vez mais fácil. Não depende em nada das circunstâncias…e de repente estás apenas ali, a caminhar serenamente no mundo»,
Alice Munro, Amada Vida, p.95.

Resumo: Alice Munro nasceu na província canadiana de Ontário, em 1931, e em 2013 foi reconhecida com o Prémio Nobel da Literatura, atribuído pela Academia Sueca, que a define como uma “mestre do conto contemporâneo”. Galardoada com muitos outros prémios e reconhecimentos ao longo da sua vida, quando recebeu o Man Booker International Prize, o júri justificou a escolha dizendo: “embora seja essencialmente conhecida como contista, mostra uma profundidade, sabedoria e precisão que a maior parte dos ficcionistas só consegue alcançar numa vida inteira a escrever romances”.
O enredo das suas histórias é relativamente secundário pois o que enriquece o seu universo ficcional é o desfile de personagens comuns e de assuntos triviais, cuja força e impacto residem na crueza dos problemas e na simplicidade da sua manifestação. Quase todos os seus contos têm como cenário a região sudoeste da província canadiana de Ontário mas poderiam ter-se passado em qualquer aldeia ou espaço remoto, desde que fora do cenário cosmopolita das grandes cidades. Talvez seja esta a fórmula mágica de Alice Munro: desviar a atenção do leitor das movimentações citadinas e alienantes, diluindo a história para fazer sobressair as nuances e complexidades das personagens. Desta forma, o leitor rapidamente se projecta num exercício de alteridade, de entendimento e empatia com as personagens e com as suas dores.
Em Amada Vida, a autora brinda-nos com uma antologia de catorze contos, alguns já anteriormente publicados no The New Yorker ou The Paris Review. Curiosamente os últimos quatro contos, a autora agrupa-os num rol muito particular e que pelas suas próprias palavras “formam um conjunto à parte, autobiográfico no sentimento, embora nem sempre no que concerne aos factos. Penso que são as primeiras e últimas –e mais íntimas – coisas que tenho a dizer sobre a minha vida”. Encontramos a chave de leitura desta antologia precisamente quando somos convidados a entrar pela “intimidade da autora” e quando nos apercebermos que o realismo e a afectividade com que, lúcida e avassaladoramente, descreve a (sua) realidade são exactamente os mesmos que lemos deste o início da obra. Assim, desde a primeira à última página, com mais ou menos ficcionalidade, com mais ou menos tons autobiográficos, a verdade é que nos cremos leitores da veracidade e do verosímil. 
A essência da amada vida é revelada pelo fluxo intravável e surpreendente dos acontecimentos, seja no seguimento de um encontro casual, de uma acção não realizada, de um impulso imprevisível e irracional, e todos os episódios são cerzidos entre o imaginário e o real. Sentimentos mais obscuros, puníveis e silenciados como a culpa, o arrependimento, a revolta, o castigo assim como as forças tanáticas que podem surgir, imprevisivelmente, até de uma criança são descritos com a naturalidade de qualquer faits divers sem julgamentos, sem moralismos.Quando chegamos à última página esta certeza pesa juntamente com a consciência de que, acima de tudo, a vida pode ser amada porque representa uma possibilidade permanente de reconciliação (nossa com o mundo ou simplesmente connosco próprios). Mesmo quando uma filha/autora acompanha a doença de Parkinson da mãe, (ultra)passa por todos os dramas inerentes à perda de alguém que ama...e ainda assim se vê impedida de estar presente no seu funeral, não há dor que não se apazigue. Pergunta-se o leitor: mas como é que nos podemos reconciliar com tamanha omissão? Alice Munro responde: «Dizemos que certas coisas não têm perdão – ou que nunca nos perdoaremos a nós próprios. Mas a verdade é que perdoamos – e fazemo-lo a todo o momento.».

Índice dos contos:
PARA CHEGAR AO JAPÃO
AMUNDSEN
SAIR DE MAVERLEY
SAIBRO
PORTO DE ABRIGO
ORGULHO
CORRIE
COMBOIO
À VISTA DO LAGO
DOLLY
O OLHO
NOITE
VOZES
AMADA VIDA


Palavras chave: sofrimento, reconciliação, fuga, encontro, aventura, imprevisto. 

quarta-feira, 28 de outubro de 2015

Mundo Fechado

Autor: Agustina Bessa Luís
Título: Mundo Fechado
Género: Novela
Editora: Guimarães editores
2004
121 páginas





«É nas coisas banais – pensou -, nas coisas simples e sem originalidade, que reside o segredo do sentimento humano»
Agustina Bessa Luís, Mundo Fechado


Resumo: Agustina Bessa-Luís nasceu, em 1922, em Vila Meã, no concelho de Amarante e elegeu a cidade do Porto como residência mas é na cidade banhada pelo rio Mondego que escreveu Mundo Fechado, a sua primeira obra. O livro foi dactilografado por iniciativa do pai, chegando às montras e aos escaparates das livrarias em 1950, na colecção «Mensagem», dirigida por José Vitorino de Pina Martins. A escritora enviou exemplares a Aquilino Ribeiro, Ferreira de Castro, Miguel Torga e Teixeira de Pascoaes. 
O fundador da revista A Águia felicita-a com o maior entusiasmo numa carta datada de 2 de Janeiro de 1950: «Minha muito ilustre camarada! Peço-lhe [perdão] de joelhos, de não ter agradecido já a gentilíssima oferta do Mundo Fechado. […] Feriu-me sobretudo, no desenho nítido das paisagens, a figura esboçada do Personagem principal. Nisto reside o maior merecimento da obra! O ser humano, porque é vivo, é indefinido, perante as cousas mortas ou simplesmente animadas. […] Trata-se duma escritora de raça, dotada de excepcionais qualidades visionárias ou dotadas do instinto do real».
Esta novela apresenta um enredo linear e uma narrativa aparentemente simples, evocando o «peso» do tempo através da personagem central, Pedro, que tem evidentes semelhanças com o Hans Castorp de A Montanha Mágica, de Thomas Mann: «A impressão de que tudo era igual para si e seguia igual, de que entre a noite e o dia, para si, não houvera sombra nem trégua, de que vivia já infinitamente entregue ao tempo, pavoroso de tão vasto, horrível de tão sereno – isto persistia em si. “É como a certeza de ter de esperar para sempre” – pensou» (pág. 6).
No entanto, quem pensa que este mundo de Agustina se encerra neste protagonista melancólico limita a sua leitura porque toda a mundividência feminina que o rodeia dá densidade a esta personagem e profundidade às suas reflexões. Pedro saiu da capital para umas férias na terra em casa das suas tias: Rita e Maria. Este universo feminino alarga-se à Senhora Aninhas e a outras duas figuras fundamentais na construção dos afectos e identidade do protagonista: Teresa e Estrelinha. Estrelinha tinha sido um amor ingénuo da infância que agora reencontrado se distanciara profundamente do imaginário de Pedro, uma escritora não consagrada que vive sob o jugo de um irmão. Teresa, por outro lado, é viúva de um homem doente que legou essa carga genética à filha de ambos. Teresa é uma tecedeira resignada e apaziguada com esse seu destino e é precisamente este seu mundo simples de aceitação e resiliência que encantara Pedro, este mundo que lhe era inatingível e fechado. A postura de Teresa espelhava precisamente, por oposição, a incapacidade de Pedro de alcançar a felicidade das coisas banais, que é sempre onde reside o segredo do sentimento humano: «Faz medo olhar-te assim muda, cheia dessa indiferença que não sei se é a expressão do teu mundo fechado. Ah, esse mundo fechado em tua alma e nos teus olhos! Esse mundo que vocês, pobres e humildes e tristes, vocês os simples no sofrimento, os pacificamente vencidos, trazem no peito, fechado e raso e morte e ignorado para nós, os que intelectualizamos o sofrimento humano! Ah, esse mundo fechado nos teus olhos – teria eu que morrer contigo, lado a lado, para me aproximar dele, teria eu que nascer outra vez e crescer contigo, lado a lado para o conhecer». 
Nesta novela, Agustina dá corpo a esta ambivalência humana, onde se jogam oposições e dialécticas no espaço interior de um indivíduo angustiado e insatisfeito, que se afirma doente ao longo da obra, mesmo que o leitor nunca chegue a perceber verdadeiramente a razão da sua enfermidade.Mundo Fechado é um título coerente com a circularidade da escrita, do espaço e do tempo, coordenadas que se projectam em todas as obras da escritora tendo como pano de fundo esta estranha obsessão pela intangibilidade do que parece tão falaciosamente ao alcance de qualquer um neste ciclo vicioso: paradoxos da natureza humana. 
Lembremos as palavras da autora à LER em 1988: “Uma vida humana é sempre demasiado frágil e curta para fazer uma obra. O sofrimento é que traz toda essa força da vida, um desdobramento da nossa duração. É o que faz falta a muitos autores novos».


Palavras-chave: circularidade do tempo, simplicidade, Pedro, angústias e indagações interiores. 

quinta-feira, 1 de outubro de 2015

O Livro dos Camaleões

Autor: José Eduardo Agualusa
Título: O Livro dos Camaleões
Género: Contos
Editora: Quetzal
2015
108 páginas



“Era um escritor cego. A escrita ajudava-me a ver. Agora que vejo, mas não escrevo, acho que vejo pior.”


“À escala da eternidade toda a improbabilidade é mais do que certa. Tudo o que não pode acontecer, acontecerá.”

Resumo: José Eduardo Agualusa desafia o poder de imaginação, promove a capacidade de efabulação e questiona os limites da significação da Literatura e da História, tornando as suas fronteiras ténues para podermos escrever as nossas vidas de forma livre, libertadora e inventiva. A sua formação em agronomia talvez tenha consolidado este olhar sobre a infinitude da natureza, como um ciclo intravável de nascimento, morte e regeneração no qual a poesia interfere como clarividência e revelação.
Este Livro dos Camaleões é a compilação de vários contos já publicados em revistas e jornais –Visão, Pública, Expresso – e apresenta-nos agora um convívio de personagens que comungam de um traço comum: a procura de identidade em trânsito pela descoberta do seu lugar no mundo. A percepção do leitor vai-se metamorfoseando entre a ficção e entre a realidade, neste jogo dúbio e de incerteza, que nos leva a questionar a natureza e as limitações do factual. As geografias por vezes são obscuras mas sentimo-nos viajantes em Angola, São Tomé, Rio de Janeiro, Salvador da Baía ou Paris.
Nas primeiras páginas, estamos em contagem decrescente para a passagem de ano e enquanto umas pessoas procuram passas o nosso protagonista procura desejos tendo acabado por pedir emprestados sonhos alheios. No entanto mesmo in extremis ocorrera-lhe um décimo terceiro desejo que apesar de vir ligeiramente fora de prazo, era inteiramente dele: terá sido o suficiente para funcionar e ser atendido?
Quando um Construtor de Castelos se encontra com o Menino que Vendia Amendoins e com um mulher bonita, morena, com um vestido faustoso entramos na discussão da razão pela qual “fazemos de conta” ser quem não somos: medo que os outros não gostem da pessoa que realmente somos? Será mais fácil sermos muitos em vez de um só? O Construtor de Castelos afirma ter-se deixado levar pela arrogância de começar a construir pontes por vaidades, como aqueles escritores que escrevem não para verem melhor mas para melhor serem vistos. Nas páginas seguintes junta-se à discussão um escritor cego e um marinheiro que desenvolvem uma nova perspectiva: tudo o que fazemos é regido pelo medo mas não vale a pena recear a travessia para a outra margem porque o Inferno não é mais do que um território interior, “não se vai para o Inferno, não se vai para o Paraíso. Vamos é com eles para toda a parte. Trazemo-los dentro de nós. Há pessoas que expandem o inferno que trazem dentro de si e outras o Paraíso. Muitas não chegam a desenvolver nenhum dos dois. Essas são as mais infelizes”.
Nos contos seguintes conhecemos Sombra que perdera o passado na guerra. Há quem perca um pai, um irmão, um marido, um braço ou uma perna - pois é sabido que toda e qualquer guerra é sempre um roubo - mas no caso de Sombra perder a memória é seguramente a maior de todas as perdas. Da mesma forma, numa outra viagem camaleónica por Salvador da Baía entramos num salão onde de entre imagens religiosas, santos católicos como Cosme e Damião, venerados como ibêjis nos terreiros de candomblé e diante de uma voluptuosa Iemanjá encontramos uma Virgem sem Cabeça. A literalidade da imagem representa precisamente alguém que perdera a cabeça por um homem mas a julgar pela profusão de velas que a rodeava era esta a mais querida por todos. Afinal “há sempre mais humanidade numa virgem sem cabeça, que amou e caiu do que numa qualquer divindade casta e fria, cercada por anjos e pombas”.
Nas incursões por África conhecemos um ditador de um estado iníquo mas muito respeitado em Portugal como o próprio afirma: “A comunidade internacional e, em particular, Portugal, tem apoiado, sem reservas, o nosso modelo de democracia. Sou igualmente generoso para com os estrangeiros. Muitos dos que ontem barafustavam contra mim, e contra a corrupção, estão agora do meu lado. Ficaram-me ainda mais baratos do que os meus adversários. Na verdade, o lucro é sempre meu”. Sabemos hoje que os regimes fortes só começam a desmoronar-se quando o medo troca de lugar. 
Todos estes camaleões revelam-nos as cambiantes da realidade, a capacidade que ela tem de assumir muitas formas e manifestações e de (res)sugerir sempre em outras tantas aparências. Acima de tudo, ficamos cientes da necessidade de reinventarmos essa mesma realidade a cada instante para que a vida siga sempre mais além do aquilo que hoje alcançamos. 

Palavras-chave: diversidade, metamorfose, adaptação, identidade