Autor: Agustina Bessa Luís
Título: Mundo Fechado
Género: Novela
Editora: Guimarães
editores
2004
121 páginas
«É nas coisas banais – pensou -,
nas coisas simples e sem originalidade, que reside o segredo do sentimento
humano»
Agustina
Bessa Luís, Mundo Fechado
Resumo:
Agustina
Bessa-Luís nasceu, em 1922, em Vila Meã, no concelho de
Amarante e elegeu a cidade do Porto como residência mas é na cidade banhada
pelo rio Mondego que escreveu Mundo
Fechado, a sua primeira obra. O livro foi dactilografado por iniciativa do
pai, chegando às montras e aos escaparates das livrarias em 1950, na colecção
«Mensagem», dirigida por José Vitorino de Pina Martins. A escritora enviou
exemplares a Aquilino Ribeiro, Ferreira de Castro, Miguel Torga e Teixeira de
Pascoaes.
O fundador da revista A Águia felicita-a com o maior entusiasmo numa carta datada de 2 de Janeiro de 1950: «Minha muito ilustre camarada! Peço-lhe [perdão] de joelhos, de não ter agradecido já a gentilíssima oferta do Mundo Fechado. […] Feriu-me sobretudo, no desenho nítido das paisagens, a figura esboçada do Personagem principal. Nisto reside o maior merecimento da obra! O ser humano, porque é vivo, é indefinido, perante as cousas mortas ou simplesmente animadas. […] Trata-se duma escritora de raça, dotada de excepcionais qualidades visionárias ou dotadas do instinto do real».
O fundador da revista A Águia felicita-a com o maior entusiasmo numa carta datada de 2 de Janeiro de 1950: «Minha muito ilustre camarada! Peço-lhe [perdão] de joelhos, de não ter agradecido já a gentilíssima oferta do Mundo Fechado. […] Feriu-me sobretudo, no desenho nítido das paisagens, a figura esboçada do Personagem principal. Nisto reside o maior merecimento da obra! O ser humano, porque é vivo, é indefinido, perante as cousas mortas ou simplesmente animadas. […] Trata-se duma escritora de raça, dotada de excepcionais qualidades visionárias ou dotadas do instinto do real».
Esta novela apresenta um
enredo linear e uma narrativa aparentemente simples, evocando o «peso» do tempo
através da personagem central, Pedro, que tem evidentes semelhanças com o Hans
Castorp de A Montanha Mágica, de
Thomas Mann: «A impressão de que tudo era igual para si e seguia igual, de que
entre a noite e o dia, para si, não houvera sombra nem trégua, de que vivia já
infinitamente entregue ao tempo, pavoroso de tão vasto, horrível de tão sereno
– isto persistia em si. “É como a certeza de ter de esperar para sempre” –
pensou» (pág. 6).
No entanto, quem pensa
que este mundo de Agustina se encerra neste protagonista melancólico limita a
sua leitura porque toda a mundividência feminina que o rodeia dá densidade a
esta personagem e profundidade às suas reflexões. Pedro saiu da capital para
umas férias na terra em casa das suas tias: Rita e Maria. Este universo
feminino alarga-se à Senhora Aninhas e a outras duas figuras
fundamentais na construção dos afectos e identidade do protagonista: Teresa e
Estrelinha. Estrelinha tinha sido um amor ingénuo da infância que agora
reencontrado se distanciara profundamente do imaginário de Pedro, uma escritora
não consagrada que vive sob o jugo de um irmão. Teresa, por outro lado, é
viúva de um homem doente que legou essa carga genética à filha de ambos. Teresa
é uma tecedeira resignada e apaziguada com esse seu destino e é precisamente
este seu mundo simples de aceitação e resiliência que encantara Pedro, este mundo que lhe era inatingível
e fechado. A postura de Teresa espelhava precisamente, por oposição, a incapacidade de Pedro de alcançar a felicidade
das coisas banais, que é sempre onde reside o segredo do sentimento humano: «Faz
medo olhar-te assim muda, cheia dessa indiferença que não sei se é a expressão
do teu mundo fechado. Ah, esse mundo fechado em tua alma e nos teus olhos! Esse
mundo que vocês, pobres e humildes e tristes, vocês os simples no sofrimento,
os pacificamente vencidos, trazem no peito, fechado e raso e morte e ignorado
para nós, os que intelectualizamos o sofrimento humano! Ah, esse mundo fechado
nos teus olhos – teria eu que morrer contigo, lado a lado, para me aproximar
dele, teria eu que nascer outra vez e crescer contigo, lado a lado para o
conhecer».
Nesta novela, Agustina dá corpo a esta ambivalência humana, onde se jogam oposições e dialécticas no espaço interior de um indivíduo angustiado e insatisfeito, que se afirma doente ao longo da obra, mesmo que o leitor nunca chegue a perceber verdadeiramente a razão da sua enfermidade.Mundo Fechado é um título coerente com a circularidade da escrita, do espaço e do tempo, coordenadas que se projectam em todas as obras da escritora tendo como pano de fundo esta estranha obsessão pela intangibilidade do que parece tão falaciosamente ao alcance de qualquer um neste ciclo vicioso: paradoxos da natureza humana.
Nesta novela, Agustina dá corpo a esta ambivalência humana, onde se jogam oposições e dialécticas no espaço interior de um indivíduo angustiado e insatisfeito, que se afirma doente ao longo da obra, mesmo que o leitor nunca chegue a perceber verdadeiramente a razão da sua enfermidade.Mundo Fechado é um título coerente com a circularidade da escrita, do espaço e do tempo, coordenadas que se projectam em todas as obras da escritora tendo como pano de fundo esta estranha obsessão pela intangibilidade do que parece tão falaciosamente ao alcance de qualquer um neste ciclo vicioso: paradoxos da natureza humana.
Lembremos as palavras da autora à LER em 1988: “Uma vida humana é
sempre demasiado frágil e curta para fazer uma obra. O sofrimento é que traz
toda essa força da vida, um desdobramento da nossa duração. É o que faz falta a
muitos autores novos».
Palavras-chave:
circularidade do tempo, simplicidade, Pedro, angústias e indagações interiores.
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