quarta-feira, 28 de outubro de 2015

Mundo Fechado

Autor: Agustina Bessa Luís
Título: Mundo Fechado
Género: Novela
Editora: Guimarães editores
2004
121 páginas





«É nas coisas banais – pensou -, nas coisas simples e sem originalidade, que reside o segredo do sentimento humano»
Agustina Bessa Luís, Mundo Fechado


Resumo: Agustina Bessa-Luís nasceu, em 1922, em Vila Meã, no concelho de Amarante e elegeu a cidade do Porto como residência mas é na cidade banhada pelo rio Mondego que escreveu Mundo Fechado, a sua primeira obra. O livro foi dactilografado por iniciativa do pai, chegando às montras e aos escaparates das livrarias em 1950, na colecção «Mensagem», dirigida por José Vitorino de Pina Martins. A escritora enviou exemplares a Aquilino Ribeiro, Ferreira de Castro, Miguel Torga e Teixeira de Pascoaes. 
O fundador da revista A Águia felicita-a com o maior entusiasmo numa carta datada de 2 de Janeiro de 1950: «Minha muito ilustre camarada! Peço-lhe [perdão] de joelhos, de não ter agradecido já a gentilíssima oferta do Mundo Fechado. […] Feriu-me sobretudo, no desenho nítido das paisagens, a figura esboçada do Personagem principal. Nisto reside o maior merecimento da obra! O ser humano, porque é vivo, é indefinido, perante as cousas mortas ou simplesmente animadas. […] Trata-se duma escritora de raça, dotada de excepcionais qualidades visionárias ou dotadas do instinto do real».
Esta novela apresenta um enredo linear e uma narrativa aparentemente simples, evocando o «peso» do tempo através da personagem central, Pedro, que tem evidentes semelhanças com o Hans Castorp de A Montanha Mágica, de Thomas Mann: «A impressão de que tudo era igual para si e seguia igual, de que entre a noite e o dia, para si, não houvera sombra nem trégua, de que vivia já infinitamente entregue ao tempo, pavoroso de tão vasto, horrível de tão sereno – isto persistia em si. “É como a certeza de ter de esperar para sempre” – pensou» (pág. 6).
No entanto, quem pensa que este mundo de Agustina se encerra neste protagonista melancólico limita a sua leitura porque toda a mundividência feminina que o rodeia dá densidade a esta personagem e profundidade às suas reflexões. Pedro saiu da capital para umas férias na terra em casa das suas tias: Rita e Maria. Este universo feminino alarga-se à Senhora Aninhas e a outras duas figuras fundamentais na construção dos afectos e identidade do protagonista: Teresa e Estrelinha. Estrelinha tinha sido um amor ingénuo da infância que agora reencontrado se distanciara profundamente do imaginário de Pedro, uma escritora não consagrada que vive sob o jugo de um irmão. Teresa, por outro lado, é viúva de um homem doente que legou essa carga genética à filha de ambos. Teresa é uma tecedeira resignada e apaziguada com esse seu destino e é precisamente este seu mundo simples de aceitação e resiliência que encantara Pedro, este mundo que lhe era inatingível e fechado. A postura de Teresa espelhava precisamente, por oposição, a incapacidade de Pedro de alcançar a felicidade das coisas banais, que é sempre onde reside o segredo do sentimento humano: «Faz medo olhar-te assim muda, cheia dessa indiferença que não sei se é a expressão do teu mundo fechado. Ah, esse mundo fechado em tua alma e nos teus olhos! Esse mundo que vocês, pobres e humildes e tristes, vocês os simples no sofrimento, os pacificamente vencidos, trazem no peito, fechado e raso e morte e ignorado para nós, os que intelectualizamos o sofrimento humano! Ah, esse mundo fechado nos teus olhos – teria eu que morrer contigo, lado a lado, para me aproximar dele, teria eu que nascer outra vez e crescer contigo, lado a lado para o conhecer». 
Nesta novela, Agustina dá corpo a esta ambivalência humana, onde se jogam oposições e dialécticas no espaço interior de um indivíduo angustiado e insatisfeito, que se afirma doente ao longo da obra, mesmo que o leitor nunca chegue a perceber verdadeiramente a razão da sua enfermidade.Mundo Fechado é um título coerente com a circularidade da escrita, do espaço e do tempo, coordenadas que se projectam em todas as obras da escritora tendo como pano de fundo esta estranha obsessão pela intangibilidade do que parece tão falaciosamente ao alcance de qualquer um neste ciclo vicioso: paradoxos da natureza humana. 
Lembremos as palavras da autora à LER em 1988: “Uma vida humana é sempre demasiado frágil e curta para fazer uma obra. O sofrimento é que traz toda essa força da vida, um desdobramento da nossa duração. É o que faz falta a muitos autores novos».


Palavras-chave: circularidade do tempo, simplicidade, Pedro, angústias e indagações interiores. 

quinta-feira, 1 de outubro de 2015

O Livro dos Camaleões

Autor: José Eduardo Agualusa
Título: O Livro dos Camaleões
Género: Contos
Editora: Quetzal
2015
108 páginas



“Era um escritor cego. A escrita ajudava-me a ver. Agora que vejo, mas não escrevo, acho que vejo pior.”


“À escala da eternidade toda a improbabilidade é mais do que certa. Tudo o que não pode acontecer, acontecerá.”

Resumo: José Eduardo Agualusa desafia o poder de imaginação, promove a capacidade de efabulação e questiona os limites da significação da Literatura e da História, tornando as suas fronteiras ténues para podermos escrever as nossas vidas de forma livre, libertadora e inventiva. A sua formação em agronomia talvez tenha consolidado este olhar sobre a infinitude da natureza, como um ciclo intravável de nascimento, morte e regeneração no qual a poesia interfere como clarividência e revelação.
Este Livro dos Camaleões é a compilação de vários contos já publicados em revistas e jornais –Visão, Pública, Expresso – e apresenta-nos agora um convívio de personagens que comungam de um traço comum: a procura de identidade em trânsito pela descoberta do seu lugar no mundo. A percepção do leitor vai-se metamorfoseando entre a ficção e entre a realidade, neste jogo dúbio e de incerteza, que nos leva a questionar a natureza e as limitações do factual. As geografias por vezes são obscuras mas sentimo-nos viajantes em Angola, São Tomé, Rio de Janeiro, Salvador da Baía ou Paris.
Nas primeiras páginas, estamos em contagem decrescente para a passagem de ano e enquanto umas pessoas procuram passas o nosso protagonista procura desejos tendo acabado por pedir emprestados sonhos alheios. No entanto mesmo in extremis ocorrera-lhe um décimo terceiro desejo que apesar de vir ligeiramente fora de prazo, era inteiramente dele: terá sido o suficiente para funcionar e ser atendido?
Quando um Construtor de Castelos se encontra com o Menino que Vendia Amendoins e com um mulher bonita, morena, com um vestido faustoso entramos na discussão da razão pela qual “fazemos de conta” ser quem não somos: medo que os outros não gostem da pessoa que realmente somos? Será mais fácil sermos muitos em vez de um só? O Construtor de Castelos afirma ter-se deixado levar pela arrogância de começar a construir pontes por vaidades, como aqueles escritores que escrevem não para verem melhor mas para melhor serem vistos. Nas páginas seguintes junta-se à discussão um escritor cego e um marinheiro que desenvolvem uma nova perspectiva: tudo o que fazemos é regido pelo medo mas não vale a pena recear a travessia para a outra margem porque o Inferno não é mais do que um território interior, “não se vai para o Inferno, não se vai para o Paraíso. Vamos é com eles para toda a parte. Trazemo-los dentro de nós. Há pessoas que expandem o inferno que trazem dentro de si e outras o Paraíso. Muitas não chegam a desenvolver nenhum dos dois. Essas são as mais infelizes”.
Nos contos seguintes conhecemos Sombra que perdera o passado na guerra. Há quem perca um pai, um irmão, um marido, um braço ou uma perna - pois é sabido que toda e qualquer guerra é sempre um roubo - mas no caso de Sombra perder a memória é seguramente a maior de todas as perdas. Da mesma forma, numa outra viagem camaleónica por Salvador da Baía entramos num salão onde de entre imagens religiosas, santos católicos como Cosme e Damião, venerados como ibêjis nos terreiros de candomblé e diante de uma voluptuosa Iemanjá encontramos uma Virgem sem Cabeça. A literalidade da imagem representa precisamente alguém que perdera a cabeça por um homem mas a julgar pela profusão de velas que a rodeava era esta a mais querida por todos. Afinal “há sempre mais humanidade numa virgem sem cabeça, que amou e caiu do que numa qualquer divindade casta e fria, cercada por anjos e pombas”.
Nas incursões por África conhecemos um ditador de um estado iníquo mas muito respeitado em Portugal como o próprio afirma: “A comunidade internacional e, em particular, Portugal, tem apoiado, sem reservas, o nosso modelo de democracia. Sou igualmente generoso para com os estrangeiros. Muitos dos que ontem barafustavam contra mim, e contra a corrupção, estão agora do meu lado. Ficaram-me ainda mais baratos do que os meus adversários. Na verdade, o lucro é sempre meu”. Sabemos hoje que os regimes fortes só começam a desmoronar-se quando o medo troca de lugar. 
Todos estes camaleões revelam-nos as cambiantes da realidade, a capacidade que ela tem de assumir muitas formas e manifestações e de (res)sugerir sempre em outras tantas aparências. Acima de tudo, ficamos cientes da necessidade de reinventarmos essa mesma realidade a cada instante para que a vida siga sempre mais além do aquilo que hoje alcançamos. 

Palavras-chave: diversidade, metamorfose, adaptação, identidade

terça-feira, 1 de setembro de 2015

Paisagens da China e do Japão

Autor: Wenceslau de Moraes
Título: Paisagens da China e do Japão
Género: Contos
Editora: Livros de Bordo
2014
235 páginas





«E concluí que a felicidade humana seria coisa fácil, se uma impulsão sagaz do espírito fosse guiando sempre os nossos passos no mundo»

«É hoje indiscutível que a caricatura representa um meio altamente poderoso de impressionar os homens; estude-se-lhe os efeitos, por exemplo, na polémica dos princípios, onde ela vale pela mais possante picareta demolidora das instituições, dos tronos e das crenças, rasgando a estrada nova por onde investem os partidos avançados».

Resumo: A editora Livros de Bordo apresenta a reedição de Paisagens da China e do Japão, a partir da segunda edição póstuma do livro, impressa pela Empresa Literária Fluminense, no ano de 1938. A presente edição corresponde à terceira feita em Portugal do livro de Wenceslau de Moraes (1854-1929), a primeira data de 1906 (Livraria Tavares Cardoso) e a segunda foi publicada em 1938. Estas paisagens são um conjunto de contos, assim designadas pelo autor, escritos em Macau e no Japão. O livro é dedicado a dois dos professores que com ele fizeram parte do grupo de docentes do Liceu de Macau, que inaugurou em 1893: João Pereira Vasco e Camilo Pessanha. Este oficial da Marinha prestou serviço em Moçambique, Macau, Timor e Japão e quando se fixara em Macau casou com a chinesa Vong-lo-Chan com quem teve dois filhos mas que logo em 1898 abandona para se fixar definitivamente como cônsul em Kobe, no Japão. Aí teve mais duas relações amorosas com duas japonesas num constante exercício de «japonização».
Ao longo de dezassete contos acompanhamos lendas, caricaturas, retratos deste Império do Sol Nascente percebendo a simbiose clara entre mito e natureza, dentro de uma inusitada fauna falante – rãs, macacos, alforrecas, formigas, borboletas – e flora luxuriante, numa expressão fulgurante, elegante e requintada. Wenceslau de Moraes apresenta-nos os costumes do povo, os seus hábitos emoldurados no humorismo nipónico e numa pintura detalhadamente descritiva e sinestésica: “a paisagem extravagante, inverosímil, inacreditável, das porcelanas e charões, hoje divulgada em toda a parte, é com efeito a paisagem real deste Japão. Colinas, penedias, verdes planícies, lagos, cascatas, torrentes espumantes, ribeiras dormentes, vales profundos, mares interiores salpicados de ilhas e rochedos, tudo reduzido a miniaturas graciosíssimas, reunido em grupos incongruentes e projectado em fundos de céu estupendamente coloridos, eis o que os olhos abrangem num relance». Wenceslau convence-nos de que a história japonesa é cerzida pelo povo, pela colaboração das velhas e das raparigas e de uma certa intuição sentimental das massas, nesta tendência rústica que alimenta o milagre, a maravilha e o inverosímil. Ao mesmo tempo, o japonês não é quimérico, apenas tece graciosas fabulações e aventuras dos seus homens ilustres, sob o arrebatamento das belezas naturais do país.
Fica-nos a lição de que esta alma asiática, subtilmente motejadora e sarcástica não se define, não se explica nem tão pouco se caracteriza e por isso é que hostiliza o intruso porque para assimilar a harmonia desta criação são exigidas as seguintes condições inseparáveis: o sentimento nacional e uma fluidez de espírito e serenidade de consciência. Em suma, finalizemos com as palavras do autor: «o que o tempo e a experiência me têm dado a conhecer, é a convicção profunda da incompatibilidade absoluta entre tudo isto e o europeu; o Japão é dos japoneses e só dos japoneses, o europeu é como um pingo de azeite dentro de água; conserva-se aqui sempre isolado, não se assimila ao meio. Porquê? Por dissemelhanças irreconciliáveis do sentir, da educação, dos hábitos, por essa invencível barreira que se define em três palavras, a – diferença de raças.


Palavras-chave: cultura asiática, paisagens naturais, caricaturas, mitos e lendas

sábado, 1 de agosto de 2015

A Máquina de fazer espanhóis

Autor: Valter Hugo Mãe
Título: A máquina de fazer espanhóis
Género: Romance
Editora: Alfaguara Objectiva
5ª edição 2010
287 páginas





“há incómodos necessários para percebermos os limites dos nossos domínios”
“a morte era afinal a mais organizada das instituições, cheia de afazeres e detalhes, mas muito competente e certeira”.

Resumo: O leitor quando abre as primeiras páginas, na ânsia de corresponder o título às suas eventuais expectativas, surpreende-se com o cenário que lhe é colocado diante dos olhos: encontramo-nos no hospital onde António Silva, de 84 anos, se depara com a morte da mulher, Laura. E na verdade, «com a morte também o amor devia acabar. Acto contínuo, o nosso coração devia esvaziar-se de qualquer sentimento que até ali nutrira pela pessoa que deixou de existir. […] com a morte tudo o que respeita a quem morreu devia ser erradicado, para que aos vivos o fardo não se torne desumano. Esse é o limite, a desumanidade de se perder quem não se pode perder».
Passados poucos dias o senhor Silva vai para o Lar Feliz Idade, juntar-se a outros 92 residentes e, apesar de alguma resistência inicial, aos poucos vai-se entregando às circunstâncias, reaprendendo, com muita dificuldade, a viver depois de cinquenta anos ao lado de quem mais amou. Quando a morte subtrai à vida fica-se ali naquele compasso de espera e num estado transitório, de quem pressente o tempo diante dos olhos a acabar-se a cada dia e a cada instante. Perante os desabafos inconformados do Senhor Silva pela morte da esposa, o senhor Américo revelou-se, desde logo, uma companhia permanente e assertiva: “o américo esperou uns segundos por que me acalmasse. Procurou um silêncio limpo como uma folha muito limpa onde pudesse escrever uma frase mais digna e disse: um dia essa saudade vai ser benigna. A lembrança da sua esposa vai trazer-lhe um sorriso aos lábios porque é isso que a saudade faz, constrói uma memória que já não dói e que lhe traz apenas felicidade. A felicidade de ter partilhado consigo um amor incrível que não pode mais fazê-lo sofrer, apenas levá-lo à glória de o ter vivido e de o ter merecido”.
Ainda assim, nesta Feliz Idade há tempo suficiente para divagações várias, seja sobre futebol, seja sobre política, economia ou religião que dão azo a conversas pouco consensuais e quase sempre controversas como no caso da afirmação de Anísio Franco sobre Deus - “há milagres suficientes no mundo para pensarmos que deus nos observa mas é difícil a pequenez do homem ver a grandeza de um evento assim, é como se tivéssemos os olhos pequenos de mais para verem uma coisa tão grande”. Mas certo é que duvidando-se ou não desta existência, “esperamos que exista no universo uma entidade maior, tentacular e poderosa, que venha obviar estas situações e nos desculpe o não envolvimento ou o nenhum compromisso porque somos pequenos, apenas um grão de areia no cosmos infinito e desmobilizamos sem forças físicas nem mentais”. Aqui reavivam-se e revivem-se as memórias de uma ditadura que não foi mais do que uma exterminável máquina de roubar a metafísica do homem, convertendo-o num cidadão não praticante, numa cidadania de abstenção: “tudo para que não praticássemos cidadania nenhuma e nos portássemos apenas como engrenagem de uma máquina a passar por cima dos nossos ombros, complexa e grande de mais para lhe percebermos o início, o fim e o fito de cultivar a soberba de um só homem”. A propósito da liberdade, com a presença do espanhol Enrique de Badajoz, que assegurava ser esta sua cidade mais portuguesa do que espanhola, discutia-se a independência e a viabilidade deste país fora da alçada de Espanha, sem tempo para rasgos de patriotismo. 
Com as visitas da sua filha Elisa, o senhor Silva dava-se conta de que a cada novo luto -  porque de um lar de idosos não se pode esperar que esse estado não seja de permanência - a morte vinha de todos os lados, leva-nos tudo, mesmo aquilo a que nos agarramos para lhe fugir. O tempo não é linear mas muito menos a morte é unidireccional, é como se fosse um cerco em circuito fechado, muito certeira e eficaz. Nas páginas finais, acompanhamos a doença terminal do senhor Silva e ouvimos a sua confissão ao amigo Américo: "precisava deste resto de solidão para aprender sobre este resto de companhia, este resto de vida, américo, que eu julguei já ser um excesso, uma aberração, deu-me estes amigos e eu que nunca percebi a amizade, nunca esperei nada da solidariedade, apenas da contingência e da coabitação”. 
Os dois amigos reconhecem ser privilegiados porque ao contrário dos peixes que têm três segundos de memória e por isso conseguem passar uma vida inteira dentro de um aquário exíguo como se a cada novo instante conhecessem um lugar novo – o homem pode ter essa capacidade de explosão fulgurante e esse assombro perante novas coisas, acumulando consigo as lembranças de cada manifestação anterior de vida, numa sedimentação de vida plena, completa e integra, mesmo (e principalmente) com todas as suas ausências inerentes. 

quarta-feira, 1 de julho de 2015

A Mulher de trinta anos

Autor: Honoré Balzac
Título: A Mulher de Trinta Anos
Género: Romance
Editora:Book.it
1ª edição 2014
175 páginas



“No amor é certo que se dermos demasiado não receberemos bastante. A mulher que ama mais do que é amada há-de ser necessariamente tiranizada. O amor durável é o que tem sempre as forças dos dois seres em equilíbrio”
H. Balzac


Resumo:

Estamos no mês de Abril de 1813, numa manhã de domingo promissora de um dia radioso quando desce da carruagem, na rua Castiglioni em Paris, a jovem Julie com o seu pai para assistirem juntos à parada oficial das tropas de Napoleão Bonaparte. A jovem encantara-se, rapidamente, pelo coronel Vitor D’Aiglemont, um homem bonito, rico, elegante e com muito prestígio social, porém de carácter duvidoso que rapidamente se revela depois do casamento, confirmando-se assim um homem egoísta, insensível aos desejos e anseios de Julie, principalmente nas suas vivências íntimas. Passados alguns anos e ainda neste primeiro capítulo vemos Julie D’Aiglemont muito longe da jovem feliz e alegre de outrora, continua com o seu rosto delicado e cabelos negros, com um brilho sobrenatural no olhar mas apesar de apaixonada pelo marido sente-se profundamente infeliz no seu casamento.
Pouco tempo depois da morte do pai, Julie é levada por Vítor para casa de uma tia para que este possa cumprir as suas funções militares. Aí a Madame D'Aiglemont conhece um jovem inglês que se encantara arrebatadoramente por ela mas nunca fora correspondido. Passado algum tempo e dadas as convulsões políticas que se avizinhavam, Vitor manda buscar a mulher e não tardou até que nascesse a filha de ambos, Helena. 
Apesar de nunca ter retribuído a atenção ao jovem fidalgo inglês Arthur Olmond, filho do lorde Grenville, ele representava nos sonhos de Julie o símbolo da pureza e da beleza dos sentimentos, o desejo de uma relação correspondida, simétrica e duradoura. Arthur declarou-se a Julie mas mesmo sentindo-se infeliz no seu casamento e com todas estas certezas, ela não concebia a ideia de infidelidade e rejeitara toda e qualquer investida. Repentinamente, Artur morre de pneumonia e Julie cai em depressão, sentindo-se a partir daí imensamente culpada por se ter negado a uma oportunidade de amor verdadeiro, por conta dos constrangimentos sociais e éticos pelos quais sempre se sentira dominada. Consequentemente, começa a sentir-se incapaz de amar a sua filha Helena por ela representar todas essas convenções de um casamento aparente, omisso e frustrado. Apesar da sua correcção de carácter, a Madame D’Aiglemont sempre soubera da existência da amante do marido, a senhora Sérizy, facto que a amargurava profundamente. 
A estes “Primeiros erros” do I capítulo seguem-se “os sofrimentos desconhecidos” no II e os trinta anos no III. Nesta idade, a senhora D’Aiglemont conhece Carlos de Vandenesse, um diplomata por quem se apaixona e se torna amante e desta relação viria a nascer Carlos Vandenesse, que morre tragicamente afogado ainda pequeno quando brincava com Helena. O diplomata amou a senhora d’Aiglemont com essa fé da mocidade, “com esse fervor que comunica às primeiras paixões uma graça encantadora, uma candura que o homem só encontra em ruínas mais tarde quando torna a amar: paixões deliciosas quase sempre saboreadas com delícia pelas mulheres que as fazem nascer, porque nessa bela idade de trinta anos, auge poético da vida das mulheres, elas podem abranger toda a sua vida, ver bem tanto o passado como futuro. Estes trinta anos são o fulgor e o auge da sua feminilidade”.
A marquesa agora com trinta anos continuava a exibir a sua beleza e formas delicadas mas o seu maior encanto emanava de uma fisionomia cuja calma trazia uma maravilhosa profundidade da alma. O seu olhar cheio de brilho deixava qualquer homem superior rendido e atraído por aquela mulher meiga e silenciosa. Do mesmo modo, a sua atitude concordava perfeitamente com o seu rosto e modo de vestir, toda ela em equilíbrio e coerência de sentidos. Honoré Balzac diz-nos que só a partir de uma determinada idade, algumas mulheres escolhidas sabem dar uma linguagem à sua atitude e que uma mulher de trinta anos possui atractivos irresistíveis para um rapaz; nada há de mais natural mais poderosamente urdido e melhor preestabelecido do que as afeições profundas de que a sociedade nos oferece tantos exemplos. "De facto, uma jovem tem demasiadas ilusões, demasiada inexperiência, e o sexo é bastante cúmplice do amor, para que um homem possa sentir-se lisonjeado. Uma mulher de vinte é arrastada pela curiosidade, por seduções estranhas às do amor; a de trinta obedece a um sentimento consciencioso. Uma cede a outra escolhe. A primeira só tem lágrimas e prazeres; a segunda voluptuosidades e remorsos. Enfim, além de todas as vantagens da sua posição, a mulher de trinta anos pode tornar-se jovem, representar todos os papéis, ser pudica e embelezar-se até com a própria desgraça. Entre ambas, encontra-se a diferença incomensurável do previsto ao imprevisto, da força à fraqueza. A mulher de trinta anos satisfaz tudo, e a jovem, sob pena de deixar de o ser, nada deve satisfazer”.
Julie teve ainda Gustavo e Abel com Vitor e Moina com o diplomata Vandenesse, no entanto, sempre tivera muita dificuldade em amar os seus filhos com Vítor, principalmente Helena. No capítulo IV “O dedo de Deus” e no V “Os dois encontros”, encontramos a família D’Aiglemont a receber um homem que lhes bate à porta pedindo auxílio, vindo-se a descobrir que é um assassino mas por quem Helena, agora adulta, caiu de amores. Contrariando os pais, Helena acaba mesmo por fugir com este homem, que se torna um pirata e sete anos mais tarde reencontra o pai feliz com os seus quatro filhos:
“-Ouça, meu pai, tenho por amante, por esposo, por servo, por senhor, um homem cuja alma é tão vasta como este mar sem limites, tão fértil em doçura como o Céu!Durante sete anos, jamais lhe escapou uma palavra, um sentimento, um gesto que pudessem produzir uma dissonância com a divina harmonia das suas palavras, das suas carícias e do seu amor. Os meus desejos são mesmo excedidos; todos os meus caprichos, satisfeitos! Sentir um amor, uma dedicação sem limites por aquele que se ama e encontrar no seu coração um infinito sentimento em que a alma de uma mulher se perde e sempre! Há ventura maior? Já devorei mil existências. A linguagem humana é insuficiente para exprimir uma felicidade celeste”. (p 153).
Volvidos trinta anos, em 1844, entramos no último capítulo VI “A velhice da mãe culpada” e deparamo-nos com uma viúva que perdera três dos cinco filhos: Carlos, no desastre de Bièvre, Gustavo, marquês d’Aiglemont que morrera de cólera, e Abel. Neste momento, a marquesa dedica-se apenas a Moina, que mesmo casada vivia, clandestinamente, o amor com Alfredo de Vandenesse, seu amante e irmão. O desgosto ao saber deste incesto e o sentimento de culpa que a assola vão definhando Julie que não resiste e morre aos cinquenta anos.
Honoré Balzac confronta-nos, de forma sublime e magistral, com o que de mais decisivo existe no destino das mulheres, precisamente aquilo que elas consideram ser sempre o mais insignificante e que tantas vezes delegam nos outros: o da escolha, ou melhor, o da boa escolha. Se esta estiver condicionada e votada às convenções, à vontade de terceiros, a necessidades, fragilidades e carências inerentes à natureza feminina, a vida pode tornar-se demasiadamente sofrível, pesarosa, trágica e irremediável. Se naquela manhã de domingo de 1813, tivesse ouvido o conselho e intuição do pai de que Vítor não era homem para ela, se não se tivesse deixado arrebatar pelo que os sentidos induzem mas que o bom senso refreia, se não se tivesse negado a viver desassombradamente o amor roubado e interrompido que pela sua vida passou, se não tivesse obedecido a convenções e aos grilhões de uma sociedade que a reprimia, se tivesse rompido com determinados cenários, se tivesse ficado e mantido a força, o vigor e as certezas dos seus trinta anos, se a primeira escolha não tivesse sido aquela, pela qual pagou uma vida inteira…Se. 

segunda-feira, 1 de junho de 2015

Medeia - vozes

Autor: Christa Wolf
Título: Medeia vozes
Género: Romance
Editora: Cotovia
1996
204 páginas







“Talvez haja sempre, para aqueles que têm paciência e sabem esperar, um ganho em cada perda, uma alegria em cada sofrimento […] de todas as alegrias simples, afinal são sempre as únicas que duram. E eu, para onde irei? Haverá um mundo, um tempo, com lugar para mim? Ninguém a quem possa perguntar. É esta a resposta”
Voz de Medeia

Resumo: A alemã Crista Wolf (1929-2011) foi escritora, ensaísta, crítica literária mas também activista em movimentos de emancipação do género e acompanhou ainda de perto o processo evolutivo da ex-RDA por acreditar, convictamente, no papel preponderante do indivíduo nas construções históricas e sociais. Nesse sentido, as mulheres são o centro e o catalisador das suas narrativas, ganham força quando devoradas por convulsões interiores e são o móbil de movimentações de poder.
A autora afirmou numa entrevista à Le Magazine Littéraire que “ceux qui ont réellement perdu quelque chose m’intéressent énormément, et comment ils essaient de s’en sortir", por isso se entende que este romance, apesar das ressonâncias de Séneca e de Eurípides, transponha e reinvente as suas matrizes clássicas para se converter num romance contemporâneo. Na verdade, esta Medeia de Wolf, com todas as suas vozes, representa estas minorias desprezadas, seja dos Turcos da Alemanha, seja dos descendentes dos Africanos na Europa ou ainda dos Judeus (vide a este propósito teóricos como Margart Atwood, David. R. Slavitt). Invoquemos as palavras em epígrafe do romance de uma outra ensaísta alemã, Elisabeth Lenk, que nos ajuda a perceber de que forma estas heranças culturais são recebidas: "anacronia não significa as épocas estarem indiferentemente umas ao lado das outras mas sim contidas umas dentro das outras como as bonecas russas onde as paredes do tempo convivem e se rejuvenescem". Assim, estas vozes são acima de tudo uma reinvenção contemporânea do topos clássico do poder e da forma como ele actua sobre a mulher, numa intriga amorosa nunca desvinculada de um jugo político e de dominação, reflectindo cruamente como actua o poder no comportamento humano quando se está no lado oprimido.
Surpreendentemente os traços vingativos e bárbaros da Medeia Euripidiana atenuam-se neste romance onde vemos uma mulher que ama os filhos – Medo e Feres - natural da Cólquida e que foge para Corinto por não se conseguir ajustar à sua terra perdida e corrupta. No entanto, encontra exactamente os mesmos traços de arrogância e medo no rosto do rei Creonte. Não há, por isso, surpresas no que toca o mais torpe e vil da natureza humana, quando visceralmente tomada pela ambição de poder sobre o outro.
Pela voz de Medeia vemos uma mulher que se dá desprotegidamente ao homem que ama, Jasão: “era uma confissão que não esperava dele. Sentei-me a seu lado na esteira, peguei-lhe nas mãos que apertavam as fontes, comecei a acaricia-lo na testa, no rosto, nos ombros, na convinha sensível sobre as clavículas, anda, disse ele em tom suplicante, eu deitei-me a seu lado, conheço o seu corpo, sei como espicaçar-lhe o desejo, fechou os olhos e entregou-se às suas fantasias, onde eu nunca entrava. Sim, sim, sim, Medeia, assim mesmo” (p.28). Por seu lado, a voz de Acamante faz um enquadramento temporal e afirma: “os tempos vão ficando cada vez maiores à medida que nos afastamos deles, é normal e é igualmente absurdo querermos ficar agarrados a esses grandes tempos passados. Mas então a que é que um homem se há-de agarrar? A Medeia?” Este astrónomo do rei faz ainda uma chamada de consciência para a tomada de decisões e lembra que tudo depende daquilo que consideramos útil, bom e correcto. Na verdade, Medeia sempre se recursara a aceitar uma premissa importante: “o que é útil não é necessariamente bom e é insensato partirmos do princípio de que as pessoas ficariam melhores se lhes dissessem a verdade sobre si próprias, quando isso acontece elas ficam desanimadas e obstinadas, tornam-se ingovernáveis.” (p 111). Nenhuma mentira é grosseira o bastante para que as pessoas não acreditem nela, se ela corresponder exactamente ao seu secreto desejo de nela acreditar.
À medida que vão entrando ordenadamente em cena todas estas vozes - Medeia, Jasão (argonauta, comandante da “Argos”), Agámeda (discípula de Medeia), Acamante (primeiro astrónomo do rei Creonte), Glauce (filha do rei Creonte e da mulher Mérope), Leucon (2º astrónomo do rei Creonte), Medeia, Jasão e por último novamente Medeia – vai-se construindo um caleidoscópio, uma circularidade no romance e uma multiplicidade de perspectivas sobre o mesmo fenómeno. Apesar de Medeia ser votada ao exílio é-lhe inculcado sempre um estatuto de vítima das forças políticas, das vontades imponderáveis dos homens, das vicissitudes e contingências do destino.
A autora nessa mesma entrevista à Le Magazine Littéraire legitima esta Medeia e contradiz alguns críticos, que a acusam de destruir a utopia, porque de facto quando esta mulher, no fim do romance, lança uma maldição a todos os que a humilharam e a votaram à solidão e ausência do mundo espelha naquele exacto momento a vitória humana através da sobrevivência e da resignação, tão ao gosto da filosofia cínica, que a partir do século XIX se pauta pela descrença na sinceridade e na bondade das motivações humanas. Medeia despreza as convenções sociais precisamente para sublinhar a frivolidade destas e a sua última saída de cena é feita pelo processo de superioridade teatral Deus ex machina, com o eco das suas palavras: “nem sempre nos agrada aquilo que é necessário mas uma coisa assimilei de forma indelével, que as obrigações do meu lugar me obrigam a decidir, não por razões de agrado pessoal mas em função de valores mais altos.” (p.112)

sexta-feira, 1 de maio de 2015

Uma Viagem à Índia

Autor: Gonçalo M. Tavares
Título: Uma Viagem à Índia
Género: Romance em verso
Editora: Caminho
6ª edição 2010

456 páginas





“Este prosaico poema, antipoema e hiper-poema, com consciência aguda da sua ficcionalidade, navega e vive entre os ecos de mil-textos-objecto do nosso imaginário de leitores.”
Eduardo Lourenço


Uma Viagem à Índia não é uma epopeia que engrandece ou amplifica feitos históricos, não é a aventura de superação e de conquista de um herói, é antes o confronto do Homem com as suas falibilidades, derrogando utopias e ambições. Ao longo de dez cantos acompanhamos a demanda do protagonista, num percurso que não é apenas na horizontal – Lisboa, Londres, Paris, Praga, Índia, Lisboa - mas é, antes e acima de tudo, feito na vertical…em queda. O “romance ensina a cair[1]” e ao mesmo tempo em que se inspira nos clássicos é também assombrado pelo traumático séc. XX, como uma caixa de ressonância que ecoa o pessimismo, o tédio e melancolia, reflecte traições e enganos onde dinheiro é o único valor universal. 
O nosso (anti)herói Bloom – tal como o Ulisses de James Joyce – viu a sua vida destruturada por um duplo homicídio, um que cometeu e outro que sofreu, e decide por isso viajar à procura de sabedoria através do esquecimento e de uma fuga com carácter pedagógico. A figura do Ulisses de Homero opera aqui como um hipertexto, também ele um anti-herói no seu tempo, pelo carácter odioso dos processos de que se serviu e dos fins que perseguiu. Esta irreligio (não ligação, irreligião) que distancia o herói clássico do divino é o que caracteriza o herói contemporâneo de Gonçalo M. Tavares. Lembremos que na Odisseia, Ulisses no entusiasmo da viagem e nos braços de Circe e Calipso, esquece as obrigações como rei de Ítaca e os seus laços tornam-se ténues, frágeis, alimentados apenas unilateralmente por Penélope. Mas Ulisses é também um herói profundamente racional e quando cega e ludibria a força bruta do Ciclope põe termo à era dos gigantes e dá início à era do Homem ávido, curioso por (se) conhecer (n)o mundo, tantas vezes seguindo os trilhos da imperfeição, do declínio e da morte, sinais da fragilidade dos heróis mas também da sua humanidade.
Em pleno século XXI vivemos nas intermitências destes topoi clássicos - viagem e  regresso - mas desta vez não por espaços físicos ou por mares nunca antes navegados mas por espaços íntimos e interiores nesta ambivalência incessante entre a memória e o esquecimento. Sabemos hoje o que já pressentiam os heróis da Antiguidade: não viajamos para nenhum paraíso e todas as viagens são sempre um regresso ao passado de onde nunca saímos. Esta é a genealogia clássica do herói contemporâneo: “não se trata de encontrar a imortalidade mas de dar um certo valor ao que é mortal” (Canto I, 3). Lancemos por isso um olhar sobre a fragilidade, o tédio da condição humana e sobre a sua mesquinhez absurda: “é claro que Bloom também não é uma obra-prima da ética. Não sendo ladrão nem um cabrão traiçoeiro, também não é santo. Tinha até os seus segredos bem negros, mas ainda não é tempo de os revelar” (Canto I, 78). Tal como Ulisses, Bloom também se inebria em lirismos e deixa-se deleitar pela hospitalidade dos cheiros, dos sons e das raparigas bonitas, que perdem a áurea de sensualidade para se tornarem mais lascivas e cruas. O nosso herói contemporâneo relembra a tradição ampliando todos os seus traços: “sabe que fora do nosso país, as mulheres recebem-nos como se salvassem um náufrago” (Canto II, 76). Tal como na vida de Ulisses e epónima de Penélope, Bloom tinha uma entre as mulheres, Mary: “além de tranquila, ela utilizava a memória para se recordar de mim quando estava longe”.
Estas aventuras de Bloom conduzem-nos pelos labirintos intertextuais da epopeia clássica e narram o humanismo de um herói que falha, vinga e sofre com todas as suas vulnerabilidades. Um herói moderno pode ser frágil e este herói contemporâneo é demiurgo e interfere na sua própria mudança porque “até o imutável se não mudar será empurrado” (Canto VIII, 31). Bloom traçou uma viagem para o outro lado do mundo para fugir às memórias mas acabou por ser conduzido para o outro lado de si próprio. Terá aprendido mais em movimento ou quando parou? O tédio e a melancolia do nosso herói nascem da consciência aguda de que “o pior sítio para estar vivo é entre aquilo que um dia exige e aquilo que o eterno promete. No meio, eis o pior sítio”. (Canto X, 104).

Entrevista de Pedro Mexia a Gonçalo M. Tavares no Público a 27/10/2010 : http://www.publico.pt/culturaipsilon/noticia/o-romance-ensina-a-cair-268246?page=-1