terça-feira, 1 de setembro de 2015

Paisagens da China e do Japão

Autor: Wenceslau de Moraes
Título: Paisagens da China e do Japão
Género: Contos
Editora: Livros de Bordo
2014
235 páginas





«E concluí que a felicidade humana seria coisa fácil, se uma impulsão sagaz do espírito fosse guiando sempre os nossos passos no mundo»

«É hoje indiscutível que a caricatura representa um meio altamente poderoso de impressionar os homens; estude-se-lhe os efeitos, por exemplo, na polémica dos princípios, onde ela vale pela mais possante picareta demolidora das instituições, dos tronos e das crenças, rasgando a estrada nova por onde investem os partidos avançados».

Resumo: A editora Livros de Bordo apresenta a reedição de Paisagens da China e do Japão, a partir da segunda edição póstuma do livro, impressa pela Empresa Literária Fluminense, no ano de 1938. A presente edição corresponde à terceira feita em Portugal do livro de Wenceslau de Moraes (1854-1929), a primeira data de 1906 (Livraria Tavares Cardoso) e a segunda foi publicada em 1938. Estas paisagens são um conjunto de contos, assim designadas pelo autor, escritos em Macau e no Japão. O livro é dedicado a dois dos professores que com ele fizeram parte do grupo de docentes do Liceu de Macau, que inaugurou em 1893: João Pereira Vasco e Camilo Pessanha. Este oficial da Marinha prestou serviço em Moçambique, Macau, Timor e Japão e quando se fixara em Macau casou com a chinesa Vong-lo-Chan com quem teve dois filhos mas que logo em 1898 abandona para se fixar definitivamente como cônsul em Kobe, no Japão. Aí teve mais duas relações amorosas com duas japonesas num constante exercício de «japonização».
Ao longo de dezassete contos acompanhamos lendas, caricaturas, retratos deste Império do Sol Nascente percebendo a simbiose clara entre mito e natureza, dentro de uma inusitada fauna falante – rãs, macacos, alforrecas, formigas, borboletas – e flora luxuriante, numa expressão fulgurante, elegante e requintada. Wenceslau de Moraes apresenta-nos os costumes do povo, os seus hábitos emoldurados no humorismo nipónico e numa pintura detalhadamente descritiva e sinestésica: “a paisagem extravagante, inverosímil, inacreditável, das porcelanas e charões, hoje divulgada em toda a parte, é com efeito a paisagem real deste Japão. Colinas, penedias, verdes planícies, lagos, cascatas, torrentes espumantes, ribeiras dormentes, vales profundos, mares interiores salpicados de ilhas e rochedos, tudo reduzido a miniaturas graciosíssimas, reunido em grupos incongruentes e projectado em fundos de céu estupendamente coloridos, eis o que os olhos abrangem num relance». Wenceslau convence-nos de que a história japonesa é cerzida pelo povo, pela colaboração das velhas e das raparigas e de uma certa intuição sentimental das massas, nesta tendência rústica que alimenta o milagre, a maravilha e o inverosímil. Ao mesmo tempo, o japonês não é quimérico, apenas tece graciosas fabulações e aventuras dos seus homens ilustres, sob o arrebatamento das belezas naturais do país.
Fica-nos a lição de que esta alma asiática, subtilmente motejadora e sarcástica não se define, não se explica nem tão pouco se caracteriza e por isso é que hostiliza o intruso porque para assimilar a harmonia desta criação são exigidas as seguintes condições inseparáveis: o sentimento nacional e uma fluidez de espírito e serenidade de consciência. Em suma, finalizemos com as palavras do autor: «o que o tempo e a experiência me têm dado a conhecer, é a convicção profunda da incompatibilidade absoluta entre tudo isto e o europeu; o Japão é dos japoneses e só dos japoneses, o europeu é como um pingo de azeite dentro de água; conserva-se aqui sempre isolado, não se assimila ao meio. Porquê? Por dissemelhanças irreconciliáveis do sentir, da educação, dos hábitos, por essa invencível barreira que se define em três palavras, a – diferença de raças.


Palavras-chave: cultura asiática, paisagens naturais, caricaturas, mitos e lendas

sábado, 1 de agosto de 2015

A Máquina de fazer espanhóis

Autor: Valter Hugo Mãe
Título: A máquina de fazer espanhóis
Género: Romance
Editora: Alfaguara Objectiva
5ª edição 2010
287 páginas





“há incómodos necessários para percebermos os limites dos nossos domínios”
“a morte era afinal a mais organizada das instituições, cheia de afazeres e detalhes, mas muito competente e certeira”.

Resumo: O leitor quando abre as primeiras páginas, na ânsia de corresponder o título às suas eventuais expectativas, surpreende-se com o cenário que lhe é colocado diante dos olhos: encontramo-nos no hospital onde António Silva, de 84 anos, se depara com a morte da mulher, Laura. E na verdade, «com a morte também o amor devia acabar. Acto contínuo, o nosso coração devia esvaziar-se de qualquer sentimento que até ali nutrira pela pessoa que deixou de existir. […] com a morte tudo o que respeita a quem morreu devia ser erradicado, para que aos vivos o fardo não se torne desumano. Esse é o limite, a desumanidade de se perder quem não se pode perder».
Passados poucos dias o senhor Silva vai para o Lar Feliz Idade, juntar-se a outros 92 residentes e, apesar de alguma resistência inicial, aos poucos vai-se entregando às circunstâncias, reaprendendo, com muita dificuldade, a viver depois de cinquenta anos ao lado de quem mais amou. Quando a morte subtrai à vida fica-se ali naquele compasso de espera e num estado transitório, de quem pressente o tempo diante dos olhos a acabar-se a cada dia e a cada instante. Perante os desabafos inconformados do Senhor Silva pela morte da esposa, o senhor Américo revelou-se, desde logo, uma companhia permanente e assertiva: “o américo esperou uns segundos por que me acalmasse. Procurou um silêncio limpo como uma folha muito limpa onde pudesse escrever uma frase mais digna e disse: um dia essa saudade vai ser benigna. A lembrança da sua esposa vai trazer-lhe um sorriso aos lábios porque é isso que a saudade faz, constrói uma memória que já não dói e que lhe traz apenas felicidade. A felicidade de ter partilhado consigo um amor incrível que não pode mais fazê-lo sofrer, apenas levá-lo à glória de o ter vivido e de o ter merecido”.
Ainda assim, nesta Feliz Idade há tempo suficiente para divagações várias, seja sobre futebol, seja sobre política, economia ou religião que dão azo a conversas pouco consensuais e quase sempre controversas como no caso da afirmação de Anísio Franco sobre Deus - “há milagres suficientes no mundo para pensarmos que deus nos observa mas é difícil a pequenez do homem ver a grandeza de um evento assim, é como se tivéssemos os olhos pequenos de mais para verem uma coisa tão grande”. Mas certo é que duvidando-se ou não desta existência, “esperamos que exista no universo uma entidade maior, tentacular e poderosa, que venha obviar estas situações e nos desculpe o não envolvimento ou o nenhum compromisso porque somos pequenos, apenas um grão de areia no cosmos infinito e desmobilizamos sem forças físicas nem mentais”. Aqui reavivam-se e revivem-se as memórias de uma ditadura que não foi mais do que uma exterminável máquina de roubar a metafísica do homem, convertendo-o num cidadão não praticante, numa cidadania de abstenção: “tudo para que não praticássemos cidadania nenhuma e nos portássemos apenas como engrenagem de uma máquina a passar por cima dos nossos ombros, complexa e grande de mais para lhe percebermos o início, o fim e o fito de cultivar a soberba de um só homem”. A propósito da liberdade, com a presença do espanhol Enrique de Badajoz, que assegurava ser esta sua cidade mais portuguesa do que espanhola, discutia-se a independência e a viabilidade deste país fora da alçada de Espanha, sem tempo para rasgos de patriotismo. 
Com as visitas da sua filha Elisa, o senhor Silva dava-se conta de que a cada novo luto -  porque de um lar de idosos não se pode esperar que esse estado não seja de permanência - a morte vinha de todos os lados, leva-nos tudo, mesmo aquilo a que nos agarramos para lhe fugir. O tempo não é linear mas muito menos a morte é unidireccional, é como se fosse um cerco em circuito fechado, muito certeira e eficaz. Nas páginas finais, acompanhamos a doença terminal do senhor Silva e ouvimos a sua confissão ao amigo Américo: "precisava deste resto de solidão para aprender sobre este resto de companhia, este resto de vida, américo, que eu julguei já ser um excesso, uma aberração, deu-me estes amigos e eu que nunca percebi a amizade, nunca esperei nada da solidariedade, apenas da contingência e da coabitação”. 
Os dois amigos reconhecem ser privilegiados porque ao contrário dos peixes que têm três segundos de memória e por isso conseguem passar uma vida inteira dentro de um aquário exíguo como se a cada novo instante conhecessem um lugar novo – o homem pode ter essa capacidade de explosão fulgurante e esse assombro perante novas coisas, acumulando consigo as lembranças de cada manifestação anterior de vida, numa sedimentação de vida plena, completa e integra, mesmo (e principalmente) com todas as suas ausências inerentes. 

quarta-feira, 1 de julho de 2015

A Mulher de trinta anos

Autor: Honoré Balzac
Título: A Mulher de Trinta Anos
Género: Romance
Editora:Book.it
1ª edição 2014
175 páginas



“No amor é certo que se dermos demasiado não receberemos bastante. A mulher que ama mais do que é amada há-de ser necessariamente tiranizada. O amor durável é o que tem sempre as forças dos dois seres em equilíbrio”
H. Balzac


Resumo:

Estamos no mês de Abril de 1813, numa manhã de domingo promissora de um dia radioso quando desce da carruagem, na rua Castiglioni em Paris, a jovem Julie com o seu pai para assistirem juntos à parada oficial das tropas de Napoleão Bonaparte. A jovem encantara-se, rapidamente, pelo coronel Vitor D’Aiglemont, um homem bonito, rico, elegante e com muito prestígio social, porém de carácter duvidoso que rapidamente se revela depois do casamento, confirmando-se assim um homem egoísta, insensível aos desejos e anseios de Julie, principalmente nas suas vivências íntimas. Passados alguns anos e ainda neste primeiro capítulo vemos Julie D’Aiglemont muito longe da jovem feliz e alegre de outrora, continua com o seu rosto delicado e cabelos negros, com um brilho sobrenatural no olhar mas apesar de apaixonada pelo marido sente-se profundamente infeliz no seu casamento.
Pouco tempo depois da morte do pai, Julie é levada por Vítor para casa de uma tia para que este possa cumprir as suas funções militares. Aí a Madame D'Aiglemont conhece um jovem inglês que se encantara arrebatadoramente por ela mas nunca fora correspondido. Passado algum tempo e dadas as convulsões políticas que se avizinhavam, Vitor manda buscar a mulher e não tardou até que nascesse a filha de ambos, Helena. 
Apesar de nunca ter retribuído a atenção ao jovem fidalgo inglês Arthur Olmond, filho do lorde Grenville, ele representava nos sonhos de Julie o símbolo da pureza e da beleza dos sentimentos, o desejo de uma relação correspondida, simétrica e duradoura. Arthur declarou-se a Julie mas mesmo sentindo-se infeliz no seu casamento e com todas estas certezas, ela não concebia a ideia de infidelidade e rejeitara toda e qualquer investida. Repentinamente, Artur morre de pneumonia e Julie cai em depressão, sentindo-se a partir daí imensamente culpada por se ter negado a uma oportunidade de amor verdadeiro, por conta dos constrangimentos sociais e éticos pelos quais sempre se sentira dominada. Consequentemente, começa a sentir-se incapaz de amar a sua filha Helena por ela representar todas essas convenções de um casamento aparente, omisso e frustrado. Apesar da sua correcção de carácter, a Madame D’Aiglemont sempre soubera da existência da amante do marido, a senhora Sérizy, facto que a amargurava profundamente. 
A estes “Primeiros erros” do I capítulo seguem-se “os sofrimentos desconhecidos” no II e os trinta anos no III. Nesta idade, a senhora D’Aiglemont conhece Carlos de Vandenesse, um diplomata por quem se apaixona e se torna amante e desta relação viria a nascer Carlos Vandenesse, que morre tragicamente afogado ainda pequeno quando brincava com Helena. O diplomata amou a senhora d’Aiglemont com essa fé da mocidade, “com esse fervor que comunica às primeiras paixões uma graça encantadora, uma candura que o homem só encontra em ruínas mais tarde quando torna a amar: paixões deliciosas quase sempre saboreadas com delícia pelas mulheres que as fazem nascer, porque nessa bela idade de trinta anos, auge poético da vida das mulheres, elas podem abranger toda a sua vida, ver bem tanto o passado como futuro. Estes trinta anos são o fulgor e o auge da sua feminilidade”.
A marquesa agora com trinta anos continuava a exibir a sua beleza e formas delicadas mas o seu maior encanto emanava de uma fisionomia cuja calma trazia uma maravilhosa profundidade da alma. O seu olhar cheio de brilho deixava qualquer homem superior rendido e atraído por aquela mulher meiga e silenciosa. Do mesmo modo, a sua atitude concordava perfeitamente com o seu rosto e modo de vestir, toda ela em equilíbrio e coerência de sentidos. Honoré Balzac diz-nos que só a partir de uma determinada idade, algumas mulheres escolhidas sabem dar uma linguagem à sua atitude e que uma mulher de trinta anos possui atractivos irresistíveis para um rapaz; nada há de mais natural mais poderosamente urdido e melhor preestabelecido do que as afeições profundas de que a sociedade nos oferece tantos exemplos. "De facto, uma jovem tem demasiadas ilusões, demasiada inexperiência, e o sexo é bastante cúmplice do amor, para que um homem possa sentir-se lisonjeado. Uma mulher de vinte é arrastada pela curiosidade, por seduções estranhas às do amor; a de trinta obedece a um sentimento consciencioso. Uma cede a outra escolhe. A primeira só tem lágrimas e prazeres; a segunda voluptuosidades e remorsos. Enfim, além de todas as vantagens da sua posição, a mulher de trinta anos pode tornar-se jovem, representar todos os papéis, ser pudica e embelezar-se até com a própria desgraça. Entre ambas, encontra-se a diferença incomensurável do previsto ao imprevisto, da força à fraqueza. A mulher de trinta anos satisfaz tudo, e a jovem, sob pena de deixar de o ser, nada deve satisfazer”.
Julie teve ainda Gustavo e Abel com Vitor e Moina com o diplomata Vandenesse, no entanto, sempre tivera muita dificuldade em amar os seus filhos com Vítor, principalmente Helena. No capítulo IV “O dedo de Deus” e no V “Os dois encontros”, encontramos a família D’Aiglemont a receber um homem que lhes bate à porta pedindo auxílio, vindo-se a descobrir que é um assassino mas por quem Helena, agora adulta, caiu de amores. Contrariando os pais, Helena acaba mesmo por fugir com este homem, que se torna um pirata e sete anos mais tarde reencontra o pai feliz com os seus quatro filhos:
“-Ouça, meu pai, tenho por amante, por esposo, por servo, por senhor, um homem cuja alma é tão vasta como este mar sem limites, tão fértil em doçura como o Céu!Durante sete anos, jamais lhe escapou uma palavra, um sentimento, um gesto que pudessem produzir uma dissonância com a divina harmonia das suas palavras, das suas carícias e do seu amor. Os meus desejos são mesmo excedidos; todos os meus caprichos, satisfeitos! Sentir um amor, uma dedicação sem limites por aquele que se ama e encontrar no seu coração um infinito sentimento em que a alma de uma mulher se perde e sempre! Há ventura maior? Já devorei mil existências. A linguagem humana é insuficiente para exprimir uma felicidade celeste”. (p 153).
Volvidos trinta anos, em 1844, entramos no último capítulo VI “A velhice da mãe culpada” e deparamo-nos com uma viúva que perdera três dos cinco filhos: Carlos, no desastre de Bièvre, Gustavo, marquês d’Aiglemont que morrera de cólera, e Abel. Neste momento, a marquesa dedica-se apenas a Moina, que mesmo casada vivia, clandestinamente, o amor com Alfredo de Vandenesse, seu amante e irmão. O desgosto ao saber deste incesto e o sentimento de culpa que a assola vão definhando Julie que não resiste e morre aos cinquenta anos.
Honoré Balzac confronta-nos, de forma sublime e magistral, com o que de mais decisivo existe no destino das mulheres, precisamente aquilo que elas consideram ser sempre o mais insignificante e que tantas vezes delegam nos outros: o da escolha, ou melhor, o da boa escolha. Se esta estiver condicionada e votada às convenções, à vontade de terceiros, a necessidades, fragilidades e carências inerentes à natureza feminina, a vida pode tornar-se demasiadamente sofrível, pesarosa, trágica e irremediável. Se naquela manhã de domingo de 1813, tivesse ouvido o conselho e intuição do pai de que Vítor não era homem para ela, se não se tivesse deixado arrebatar pelo que os sentidos induzem mas que o bom senso refreia, se não se tivesse negado a viver desassombradamente o amor roubado e interrompido que pela sua vida passou, se não tivesse obedecido a convenções e aos grilhões de uma sociedade que a reprimia, se tivesse rompido com determinados cenários, se tivesse ficado e mantido a força, o vigor e as certezas dos seus trinta anos, se a primeira escolha não tivesse sido aquela, pela qual pagou uma vida inteira…Se. 

segunda-feira, 1 de junho de 2015

Medeia - vozes

Autor: Christa Wolf
Título: Medeia vozes
Género: Romance
Editora: Cotovia
1996
204 páginas







“Talvez haja sempre, para aqueles que têm paciência e sabem esperar, um ganho em cada perda, uma alegria em cada sofrimento […] de todas as alegrias simples, afinal são sempre as únicas que duram. E eu, para onde irei? Haverá um mundo, um tempo, com lugar para mim? Ninguém a quem possa perguntar. É esta a resposta”
Voz de Medeia

Resumo: A alemã Crista Wolf (1929-2011) foi escritora, ensaísta, crítica literária mas também activista em movimentos de emancipação do género e acompanhou ainda de perto o processo evolutivo da ex-RDA por acreditar, convictamente, no papel preponderante do indivíduo nas construções históricas e sociais. Nesse sentido, as mulheres são o centro e o catalisador das suas narrativas, ganham força quando devoradas por convulsões interiores e são o móbil de movimentações de poder.
A autora afirmou numa entrevista à Le Magazine Littéraire que “ceux qui ont réellement perdu quelque chose m’intéressent énormément, et comment ils essaient de s’en sortir", por isso se entende que este romance, apesar das ressonâncias de Séneca e de Eurípides, transponha e reinvente as suas matrizes clássicas para se converter num romance contemporâneo. Na verdade, esta Medeia de Wolf, com todas as suas vozes, representa estas minorias desprezadas, seja dos Turcos da Alemanha, seja dos descendentes dos Africanos na Europa ou ainda dos Judeus (vide a este propósito teóricos como Margart Atwood, David. R. Slavitt). Invoquemos as palavras em epígrafe do romance de uma outra ensaísta alemã, Elisabeth Lenk, que nos ajuda a perceber de que forma estas heranças culturais são recebidas: "anacronia não significa as épocas estarem indiferentemente umas ao lado das outras mas sim contidas umas dentro das outras como as bonecas russas onde as paredes do tempo convivem e se rejuvenescem". Assim, estas vozes são acima de tudo uma reinvenção contemporânea do topos clássico do poder e da forma como ele actua sobre a mulher, numa intriga amorosa nunca desvinculada de um jugo político e de dominação, reflectindo cruamente como actua o poder no comportamento humano quando se está no lado oprimido.
Surpreendentemente os traços vingativos e bárbaros da Medeia Euripidiana atenuam-se neste romance onde vemos uma mulher que ama os filhos – Medo e Feres - natural da Cólquida e que foge para Corinto por não se conseguir ajustar à sua terra perdida e corrupta. No entanto, encontra exactamente os mesmos traços de arrogância e medo no rosto do rei Creonte. Não há, por isso, surpresas no que toca o mais torpe e vil da natureza humana, quando visceralmente tomada pela ambição de poder sobre o outro.
Pela voz de Medeia vemos uma mulher que se dá desprotegidamente ao homem que ama, Jasão: “era uma confissão que não esperava dele. Sentei-me a seu lado na esteira, peguei-lhe nas mãos que apertavam as fontes, comecei a acaricia-lo na testa, no rosto, nos ombros, na convinha sensível sobre as clavículas, anda, disse ele em tom suplicante, eu deitei-me a seu lado, conheço o seu corpo, sei como espicaçar-lhe o desejo, fechou os olhos e entregou-se às suas fantasias, onde eu nunca entrava. Sim, sim, sim, Medeia, assim mesmo” (p.28). Por seu lado, a voz de Acamante faz um enquadramento temporal e afirma: “os tempos vão ficando cada vez maiores à medida que nos afastamos deles, é normal e é igualmente absurdo querermos ficar agarrados a esses grandes tempos passados. Mas então a que é que um homem se há-de agarrar? A Medeia?” Este astrónomo do rei faz ainda uma chamada de consciência para a tomada de decisões e lembra que tudo depende daquilo que consideramos útil, bom e correcto. Na verdade, Medeia sempre se recursara a aceitar uma premissa importante: “o que é útil não é necessariamente bom e é insensato partirmos do princípio de que as pessoas ficariam melhores se lhes dissessem a verdade sobre si próprias, quando isso acontece elas ficam desanimadas e obstinadas, tornam-se ingovernáveis.” (p 111). Nenhuma mentira é grosseira o bastante para que as pessoas não acreditem nela, se ela corresponder exactamente ao seu secreto desejo de nela acreditar.
À medida que vão entrando ordenadamente em cena todas estas vozes - Medeia, Jasão (argonauta, comandante da “Argos”), Agámeda (discípula de Medeia), Acamante (primeiro astrónomo do rei Creonte), Glauce (filha do rei Creonte e da mulher Mérope), Leucon (2º astrónomo do rei Creonte), Medeia, Jasão e por último novamente Medeia – vai-se construindo um caleidoscópio, uma circularidade no romance e uma multiplicidade de perspectivas sobre o mesmo fenómeno. Apesar de Medeia ser votada ao exílio é-lhe inculcado sempre um estatuto de vítima das forças políticas, das vontades imponderáveis dos homens, das vicissitudes e contingências do destino.
A autora nessa mesma entrevista à Le Magazine Littéraire legitima esta Medeia e contradiz alguns críticos, que a acusam de destruir a utopia, porque de facto quando esta mulher, no fim do romance, lança uma maldição a todos os que a humilharam e a votaram à solidão e ausência do mundo espelha naquele exacto momento a vitória humana através da sobrevivência e da resignação, tão ao gosto da filosofia cínica, que a partir do século XIX se pauta pela descrença na sinceridade e na bondade das motivações humanas. Medeia despreza as convenções sociais precisamente para sublinhar a frivolidade destas e a sua última saída de cena é feita pelo processo de superioridade teatral Deus ex machina, com o eco das suas palavras: “nem sempre nos agrada aquilo que é necessário mas uma coisa assimilei de forma indelével, que as obrigações do meu lugar me obrigam a decidir, não por razões de agrado pessoal mas em função de valores mais altos.” (p.112)

sexta-feira, 1 de maio de 2015

Uma Viagem à Índia

Autor: Gonçalo M. Tavares
Título: Uma Viagem à Índia
Género: Romance em verso
Editora: Caminho
6ª edição 2010

456 páginas





“Este prosaico poema, antipoema e hiper-poema, com consciência aguda da sua ficcionalidade, navega e vive entre os ecos de mil-textos-objecto do nosso imaginário de leitores.”
Eduardo Lourenço


Uma Viagem à Índia não é uma epopeia que engrandece ou amplifica feitos históricos, não é a aventura de superação e de conquista de um herói, é antes o confronto do Homem com as suas falibilidades, derrogando utopias e ambições. Ao longo de dez cantos acompanhamos a demanda do protagonista, num percurso que não é apenas na horizontal – Lisboa, Londres, Paris, Praga, Índia, Lisboa - mas é, antes e acima de tudo, feito na vertical…em queda. O “romance ensina a cair[1]” e ao mesmo tempo em que se inspira nos clássicos é também assombrado pelo traumático séc. XX, como uma caixa de ressonância que ecoa o pessimismo, o tédio e melancolia, reflecte traições e enganos onde dinheiro é o único valor universal. 
O nosso (anti)herói Bloom – tal como o Ulisses de James Joyce – viu a sua vida destruturada por um duplo homicídio, um que cometeu e outro que sofreu, e decide por isso viajar à procura de sabedoria através do esquecimento e de uma fuga com carácter pedagógico. A figura do Ulisses de Homero opera aqui como um hipertexto, também ele um anti-herói no seu tempo, pelo carácter odioso dos processos de que se serviu e dos fins que perseguiu. Esta irreligio (não ligação, irreligião) que distancia o herói clássico do divino é o que caracteriza o herói contemporâneo de Gonçalo M. Tavares. Lembremos que na Odisseia, Ulisses no entusiasmo da viagem e nos braços de Circe e Calipso, esquece as obrigações como rei de Ítaca e os seus laços tornam-se ténues, frágeis, alimentados apenas unilateralmente por Penélope. Mas Ulisses é também um herói profundamente racional e quando cega e ludibria a força bruta do Ciclope põe termo à era dos gigantes e dá início à era do Homem ávido, curioso por (se) conhecer (n)o mundo, tantas vezes seguindo os trilhos da imperfeição, do declínio e da morte, sinais da fragilidade dos heróis mas também da sua humanidade.
Em pleno século XXI vivemos nas intermitências destes topoi clássicos - viagem e  regresso - mas desta vez não por espaços físicos ou por mares nunca antes navegados mas por espaços íntimos e interiores nesta ambivalência incessante entre a memória e o esquecimento. Sabemos hoje o que já pressentiam os heróis da Antiguidade: não viajamos para nenhum paraíso e todas as viagens são sempre um regresso ao passado de onde nunca saímos. Esta é a genealogia clássica do herói contemporâneo: “não se trata de encontrar a imortalidade mas de dar um certo valor ao que é mortal” (Canto I, 3). Lancemos por isso um olhar sobre a fragilidade, o tédio da condição humana e sobre a sua mesquinhez absurda: “é claro que Bloom também não é uma obra-prima da ética. Não sendo ladrão nem um cabrão traiçoeiro, também não é santo. Tinha até os seus segredos bem negros, mas ainda não é tempo de os revelar” (Canto I, 78). Tal como Ulisses, Bloom também se inebria em lirismos e deixa-se deleitar pela hospitalidade dos cheiros, dos sons e das raparigas bonitas, que perdem a áurea de sensualidade para se tornarem mais lascivas e cruas. O nosso herói contemporâneo relembra a tradição ampliando todos os seus traços: “sabe que fora do nosso país, as mulheres recebem-nos como se salvassem um náufrago” (Canto II, 76). Tal como na vida de Ulisses e epónima de Penélope, Bloom tinha uma entre as mulheres, Mary: “além de tranquila, ela utilizava a memória para se recordar de mim quando estava longe”.
Estas aventuras de Bloom conduzem-nos pelos labirintos intertextuais da epopeia clássica e narram o humanismo de um herói que falha, vinga e sofre com todas as suas vulnerabilidades. Um herói moderno pode ser frágil e este herói contemporâneo é demiurgo e interfere na sua própria mudança porque “até o imutável se não mudar será empurrado” (Canto VIII, 31). Bloom traçou uma viagem para o outro lado do mundo para fugir às memórias mas acabou por ser conduzido para o outro lado de si próprio. Terá aprendido mais em movimento ou quando parou? O tédio e a melancolia do nosso herói nascem da consciência aguda de que “o pior sítio para estar vivo é entre aquilo que um dia exige e aquilo que o eterno promete. No meio, eis o pior sítio”. (Canto X, 104).

Entrevista de Pedro Mexia a Gonçalo M. Tavares no Público a 27/10/2010 : http://www.publico.pt/culturaipsilon/noticia/o-romance-ensina-a-cair-268246?page=-1

terça-feira, 14 de abril de 2015

Outras Cores

Autor: Orham Pamuk
Título: Outras cores
Editora: Editorial Presença
Género: Ensaios
Lisboa 2009
424 páginas


Resumo: Numa recente visita a Portugal para receber o Prémio Europeu Helena Vaz da Silva, pelo seu reconhecido contributo para a promoção e valorização do património cultural europeu, Orhan Pamuk deixou a seguinte mensagem: “A herança cultural europeia não se deve limitar à preservação dos seus monumentos mas também à preservação dos seus valores fundamentais e a Europa deve ter uma discussão séria sobre esses mesmos valores fundamentais”. Na verdade, as preocupações de Pamuk, situam-se sempre em questões fronteiriças, limístrofes e na demanda pela identidade de um país que divide o Ocidente e o Oriente, nesta permanente dialéctica entre a modernidade europeia e a tradição muçulmana.
Arquitecto e Jornalista de formação, apesar de nunca ter exercido nenhuma das duas actividades, Orhan Pamuk mantém o olhar crítico sobre a arquitectura da sociedade e o sentido apurado na análise e denúncia dos seus problemas. Nesta colectânea de reflexões, desabafos, pensamentos e confissões, redigidos em formato de ensaio, o Nóbel turco revela uma postura desalinhada, dissonante, por vezes amarga, inerente a qualquer análise lúcida da realidade. Esta obra divide-se em seis grandes grupos: i) Vida e Preocupações, ii) Livros e Leituras; iii) A Política, a Europa e outros problemas por sermos nós mesmos, iv) Os meus Livros são a minha vida e v) Outras cidades, outras civilizações. Nem sempre estas divisões correspondem a arrumações conceptuais estanques porque sentimos ao longo da leitura que a sua vida pessoal com a mulher e a filha o levam a questionar todas as outras questões exógenas, históricas e circunstanciais, como se de uma força centrípeta se tratasse, que outorga coesão e unidade ao foco das suas preocupações.
Quando um livro é assim concebido, oferece-se aos olhos do leitor dando-lhe a possibilidade de participar de forma subjectiva, livre e pessoal, procurando resposta e reflexão para as suas próprias curiosidades e inquietações. Realço, por isso, dois ensaios muito particulares, que se relacionam, que se complementam e que se justificam mutuamente, talvez por isso escolhidos para abrir e encerrar o livro.
A Mala do meu pai é o título da conferência proferida no momento de entrega do prémio Nobel na Suécia. E porque nunca chegamos ao topo da montanha sem reconhecer o caminho que foi trilhado até lá, o escritor fala sobre a mala e os pertences escritos que seu pai lhe deixou e com isso aproveita o pretexto para discorrer sobre a sua relação com a Literatura e o seu (re)e auto conhecimento nela pois “o escritor que se fecha num quarto e que, antes de mais, viaja ao interior de si mesmo, descobrirá com o passar dos anos a eterna regra de literatura: ter de possuir a capacidade de contar as suas histórias como se fossem as de outros e contar as de outros como se fossem as suas". Neste discurso transparente honesto, íntegro mas também nostálgico, temeroso e revoltado, Orhan Pamuk confessa as razões por que escreve e alguns desses argumentos são bastante desarmantes e intimistas, por vezes num tom algo amargurado: “Eu escrevo porque não consigo fazer um trabalho normal como as outras pessoas. Escrevo porque estou zangado com todos vós, porque estou zangado com toda a gente. Escrevo porque só consigo participar na vida real transformando-a. Escrevo porque gosto da glória e do interesse que a escrita nos traz. Escrevo para estar só. Talvez escreva por querer compreender porque razão estou tão, tão zangado com todos vós, tão, tão zangado com toda a gente. Escrevo porque gosto de ser lido. Escrevo porque é entusiasmante transformar todas as belezas e riquezas do mundo em palavras. Escrevo porque nunca consegui ser feliz. Escrevo para ser feliz”. 
Numa viagem regressiva até ao primeiro texto do livro intitulado O Autor implícito, Pamuk afirma a este propósito que «a literatura não permite a um tal escritor pensar que salva o mundo; em vez disso dá-lhe a hipótese de não desperdiçar o dia. E todos os dias são difíceis especialmente difíceis quando não se escreve».
Escrever é sempre um exercício paciente, um trabalho permanente e persistente, sem espaço para resiliências e onde deve haver espaço para o imprevisto, para o inusitado e para a surpresa. É pelo facto do escritor se sentir surpreendido pela sua própria escrita que o torna actor depois de ter sido agente da construção literária. Tal como na vida, em qualquer viagem, antes de partir fazemos planos: escolhemos a história, determinamos os portos a visitar, as cargas a transportar, calculamos tempos e distâncias, cartografamos o itinerário, o caminho dos sonhos e das vontades. Contudo, o vento surge dos quadrantes mais imprevisíveis e decide mudar a direcção e introduzir novas coordenadas. Quando ele acalma, encontramo-nos em lugares que nunca esperávamos conhecer, em águas calmas e enevoadas e percebemos que, tendo feito muito pouco para isso, fizemos avançar o romance, a viagem, a vida.  


Palavras-Chave: Identidade, Ocidente/Oriente, Viagens exteriores e interiores, Escrita

domingo, 12 de abril de 2015

O Meu Irmão

O Meu Irmão
Autor: Afonso Reis Cabral
Título: O Meu Irmão
Género: Romance
Editora: LeYa (Prémio Leya 2014 - 361 candidatos de 14 países)
1ª edição 2014
365 Páginas




Raça de Abel, dorme, come e bebe,
Deus sorri complacentemente
Baudelaire

“Eu nascera inteligente e perfeito, ele nascera inimputável e incompleto. Sendo irmãos, não podíamos ter nascido em lados mais diferentes da vida e, no entanto, um de nós conquistara o centro da vida e o outro não. O Miguel abdicara de todos os dons antes de nascer e por isso conquistara o paraíso na terra e Deus guiava-o pela mão, aceitando o que ele oferecia. Crescera anjo ferido na expressão do nosso pai. E eu acrescento: crescera anjo ferido e não sabia disso. Bastava-lhe existir para existir bem, em paz.” (p.172).
O Meu Irmão é, assim, um romance que retrata a relação do narrador com o irmão Miguel, um homem de quarenta e alguns anos portador do Síndrome de Down, pelo qual ficara responsável após a morte dos pais. “Porque a vida dele (Miguel) alimentava-se da vida deles. Não nasceu apenas deles, viveu da soma dessas duas pessoas, a mãe e o pai. Agora que não há elementos para somar, como subsiste? (p.115) As outras quatro irmãs reclamaram também Miguel para elas mas de forma titubeante e pouco assertiva, quase como descarte de consciência, apresentando cada uma a sua desculpa, o seu «apesar de»: os filhos - cinco de Constança ou os quatro de Matilde, os novos maridos - Joana ia no terceiro, ou a falta de dinheiro de Inês.
Este narrador, doutor em Letras, professor universitário de Literatura Portuguesa, divorciado e aparentemente bem resolvido com as suas amarguras e frustrações tem agora a oportunidade de aprender com Miguel a aceitar as “não resoluções” que a vida coloca e a lidar com os improvisos com que o destino nos desafia: “nunca sentirei um amor de pai pelo meu irmão, embora saiba que de certa forma é isso que me constringe. Se conseguir amá-lo mais, reconhecê-lo como meu- fingir que desde sempre o vejo como criança, imaginar que lhe peguei ao colo depois de ele nascer-talvez ultrapasse a distância em nós” (p.80, em caixa de texto). A diluição desta distância é, então o desejo mais profundo e explícito do narrador, inseguro perante este novo cenário porque as limitações de Miguel reflectem, em profundidade, a natureza das suas próprias incapacidades, das suas convulsões interiores, das suas ambições e frustrações. Afinal de contas o irmão por ter nascido assim, nasceu “com a vida feita”. Além disso, Miguel era capaz de amar incondicionalmente, de forma absoluta e total e ainda assim era profundamente dependente da protecção do irmão.
A reminiscência bíblica de Caim e Abel é um tom quente nesta relação fraterna, não fosse a epígrafe inicial de Baudelaire (a partir do poema As Negações de S. Pedro, do livro As Flores do Mal) que se oferece ao leitor na abertura da obra e que revela o itinerário desta viagem. Começamos nas primeiras páginas a caminho do Tojal, perto de Arouca e longe de tudo o resto. O Tojal é uma paisagem humana, agreste, abandonada, árida que parece infértil e estéril ao nascimento de qualquer sopro de vida natural ou emocional. Miguel e o irmão encontram-se e privam com a única família daquela aldeia: Olinda, Aníbal e Quim, o único de quatro filhos que ficou, também quarentão, também dependente como Miguel, mas com outro tipo de necessidade e que acaba por morrer. Quim era capaz de ter ambições e daí a amargura de nunca as ter concretizado, Miguel não, vivia na satisfação do que lhe podia ser dado e do que ele poderia conseguir, logo que tivesse a Luciana era quanto lhe bastava.
O amor de Luciana e Miguel foi contra todas as expectativas e convenções uma demonstração de que a deficiência e aparente diminuição não condiciona a existência de estados maiores. Inconscientemente para o narrador Luciana representava o impedimento para um amor fraterno mais consistente, uma atenção e uma prioridade de Miguel que estando viradas para ela deixariam de estar viradas para o irmão. No entanto, um incidente somente revelado nas últimas páginas do romance aproxima os três e fecha uma analepse que explica ao leitor o retorno ao Tojal e àquele espaço de tempo irreflectido, de memórias perdidas mas felizes.
A diferença e a doença são dois temas frágeis, susceptíveis e socialmente de penumbra, abordados neste romance de forma dura e madura, sem complacências, longe do politicamente correcto e dos pudores com que são silenciados. Pela voz deste irmão misantropo angustiado, solitário, que se diz com a impressão de não conseguir amar, face ao modo absoluto com que Miguel o faz, aprendemos que “existem segundas oportunidades para as primeiras impressões” (p. 117). Para dar azo a este espaço mais intimista e confessional, o autor cria dois níveis discursivos, o narrativo ficcional e um outro que resulta como uma caixa de ressonância ao amplificar as pensamentos e principalmente o que fica para além deles. Esta espaço discursivo alternativo dá profundidade à leitura, torna audíveis todas as autocríticas que por falta de coragem não passam a corpo maior: “Tudo o que é ofensa está em corpo menor”, explica o escritor. Apesar dos desabafos, destes comentários paralelos, entrecruzados, espontâneos e tantas vezes ácidos e surpreendentes, o leitor é permanentemente confrontado com a sinceridade e a gratuidade do amor que vê renascer no narrador, que comporta todas as formas, todas as idiossincrasias e diferenças: “volto para junto do Miguel quando me ocorre que é muito fácil fazermos mal às pessoas que amamos” (p 69).

Palavras-chave: Síndrome de Down, relação fraterna, Tojal, Luciana e Miguel