domingo, 3 de julho de 2016

Um Homem: Klaus Klump

Autor: Gonçalo M. Tavares
Título: Um Homem: Klaus Klump
Género: Romance articulado na tetralogia O Reino (conjuntamente com A Máquina de Joseph Walser, Jerusalém e Aprender a rezar na Era da Técnica)
Editora: Editorial Caminho – grupo Leya
6a edição 2015
132 páginas




«Johanna olha pela janela. Klaus, o amante, ainda não chegou. Enquanto o amante não chega a mulher não sai da janela. As janelas existem porque os amantes existem, e porque os amantes ainda não estão em casa. As janelas deixam de existir quando as pessoas que amas voltam».

Resumo: Se lemos Um Homem: Klaus Klump da série O Reino na expectativa de reconhecer a mesma dinâmica da série O Bairro, rapidamente nos surpreendemos por não encontrar o mesmo carácter lúdico, irónico e descomprometido da “vizinhança”. Este romance, que se articula com A Máquina de Joseph Walser, Jerusalém e Aprender a rezar na Era da Técnica, apresenta uma escrita matemática, objectiva, numa estrutura sintáctica mínima, a que Gonçalo M. Tavares já nos habituou. No entanto, esta aparente simplicidade e nudez linguísticas oferecem uma profundidade filosófica, repleta de aforismos, compondo uma narrativa fragmentada e interrompida, que imprime um ritmo discursivo muito sui generis.
Catharina era a mãe louca de Johanna, que era namorada de Klaus, um editor pacato, que se deitou com Herthe, irmã de Clarko. Herthe, por sua vez, casara com Ortho, um oficial bonito e inteligente e em segundas núpcias com Leo Vast, um homem rico, dono de cinco indústrias da região, tinha ela 31 e ele 53. Este núcleo de personagens convida à análise da animalidade do Homem e da desumanização dos afectos, ao escrutínio dos instintos mais impulsivos de sobrevivência, promovidos por um cenário caótico de guerra. Até que ponto a guerra mutila os traços de humanidade? «Pertence a várias coisas-homem que se juntam. E daí que a fornicação seja tão atractiva e assustadora: é a junção de dois mundos: do mundo do ruído e do mundo da palavra, do mundo do Homem e do mundo animal, da natureza incompreensível e bruta e ainda do Homem que tenta compreender […] Klaus, no entanto, sempre tinha pensado que é mais fácil simular a parte humana de um som – a parte verbal – que a parte animal de um som – esses tais barulhos disformes. No amor – havia percebido Klaus – ou mais propriamente, na fornicação, existia com evidência um som com dois rostos – um rosto animal e outro humano; e o único rosto verdadeiro era o animalesco». E afinal, em tempo de guerra, qual é a fronteira entre o humano e o  mecânico? Qual é o limite entre o homem e os deuses? Assumir que não se é Deus talvez seja o acto mais corajoso e o único gesto genuinamente divino. Nem o barulho das balas, nem o das granadas tem vestígios verbais, não podem por isso ser humanos, nem tão pouco naturais ou orgânicos: «Porque o som da bala não é som dos homens, disso Klaus tinha a certeza. Porque um homem não consegue repetir duas vezes o mesmo som inteligente ou a mesma frase, enquanto aqueles sons eram coisas repetidas mecanicamente, repetições exactas. O que mais assustava Klaus era esse modo infalível de cópia. O facto de uma arma conseguir nas mesmas condições, repetir exactamente o mesmo som com duas balas diferentes». 
Na desordem imposta pela guerra tudo se confunde, a velocidade média da bondade e a velocidade média da força, tudo tem ritmo automático e cadências abruptas mas mesmo no cenário mais turbulento e caótico o Homem Klaus Klump lembra que só se extinguem as emoções quando a última célula de um sistema orgânico deixa de viver. Essa capacidade dos afectos é a única regeneradora da natureza humana e que explica, consequentemente, os muros edificados entre o passado e o presente: «Há um muro altíssimo: ninguém percebe o que sucedeu. Como se constrói um muro no tempo? Como se tapa na cabeça das pessoas aquilo que aconteceu?». Mas o leitor encontra a resposta pela analogia inicial à sebe que separava os jardins de Johanna e Klaus: «Se eu não fosse tão alto a sebe seria mais baixa. Klaus acreditava mais no destino do que Johana. Porém nunca há duas mudanças no mundo para um único efeito. Se Klaus fosse mais baixo, isso constituiria uma mudança no mundo. Se a sebe fosse também mais baixa, seriam duas mudanças no mundo. Se existissem dois factos diferentes no passado, então não poderia ter sucedido o mesmo. O destino tem uma lógica própria. São necessários cálculos complexos para perceber o que poderia ter acontecido em vez do que realmente aconteceu. Há demasiadas possibilidades para que aconteça sempre o mesmo. O mundo tem variedade e é longo.» E já agora...pois que seja também pleno de humanismo.


Palavras-chave: guerra, mecanização, desumanização, sobrevivência

segunda-feira, 20 de junho de 2016

A Moral Anarquista

Autor: Piotr Alexeevinch Kropotkine
Tradução, notas e prefácio: José Luís de Sousa Pérez
Título: A Moral Anarquista
Género: Ensaio político
Editora: Edições Sílabo
Lisboa, 2006
134 páginas






Resumo: O cognome de Príncipe Anarquista dado a Piotr Alexeevich Kropotkine (1842-1921) representa um percurso de vida invulgar, repleto de acções políticas e intervenções sociais polémicas, escolhas fracturantes e dissidentes de um descendente da alta aristocracia russa, que nunca calou a sua insatisfação e inconformismo[1]A Moral Anarquista apresenta as principais coordenadas de um itinerário ideológico-político, internamente diverso e complexo, nas escolas emergentes no seio da doutrina anarquista (individualismo, colectivismo, mutualismo...). Apesar disso, o elemento unificador e primordial deste programa assenta na organização de uma sociedade sem mediação de uma autoridade coerciva, nomeadamente a do Estado. Kropotkine afigura-se como expoente principal do anarquismo comunista ou anarco-comunismo, que privilegiava as necessidades de cada um frente a outras correntes doutrinárias que eram preferencialmente defensoras da distribuição dos bens de forma proporcional ao tempo de trabalho do indivíduo. O anarquista russo defendia também que as necessidades deveriam ser determinadas por associações voluntárias de trabalhadores, no que diz respeito à produção, e em comunas locais no que se refere ao consumo. Impera, inevitavelmente, uma questão que não se satisfaz inteiramente (ou pelo menos explicitamente) em nenhuma das reflexões ao longo dos ensaios: qual é o modelo económico que viabiliza a instituição e a preservação dos valores de justiça e de equidade nas relações inter-pessoais na sociedade? A corrente kropotkiana desnuda, no entanto, alguns problemas nevrálgicos associados a esta questão soberana. O optimismo impetuoso em relação natureza humana, esbatido pelas outras escolas anarquistas ou até na doutrina marxista-leninista, é para Kropotkine um ponto de partida seguro e irrevogável.
No primeiro capítulo em que se questiona a moral enquanto momento de crise social, o pensador russo indaga por que razão deve a moral ser obrigatória ou imposta, levantando o véu para o capítulo seguinte, sobre a procura do prazer próprio, em que considera a moral algo muito mais intrínseco à natureza humana do que uma construção político, religiosa ou até social. Neste ponto, há que considerar que os actos dos homens são sempre o resultado de uma luta interior entre dois elementos hostis e de dialécticas insanáveis. O Homem é por isso tão ou mais virtuoso quando deixa vencer na alma a consciência em detrimento da carne e das paixões. Por muito diferentes que sejam as duas acções, no que se refere ao resultado para a humanidade, a verdade é que o móbil sempre foi a procura de prazer. Perguntamo-nos então neste momento, onde reside nesta ilação o optimismo pela natureza humana aparentemente sequiosa de prazer próprio e hedonista. Se assumirmos que procurar o prazer é o mesmo que evitar uma dor, agir em prol e benefício do outro pode trazer satisfação quando se evita o sofrimento dos outros.
No capítulo seguinte, sobre o Bem e o Mal, desconstrói-se este par agónico tantas vezes associado à ideia de punição, castigo ou recompensa, uma herança religiosa e até mitológica. Estes dois conceitos podem assumir-se como produtos naturais e Kropotkine acredita que não é uma distinção estritamente humana, podendo ser alargada em toda a biodiversidade, a peixes, insectos, aves ou mamíferos, e exemplifica evocando Auguste Henri Forel (1848-1931), um observador de formigas. Este médico demonstrou e confirmou nas suas várias experiências que uma formiga que se enfartou de mel ao encontrar outra de ventre vazio tem o dever de vomitar o mel para que as outras se possam satisfazer. Caso a formiga não proceda desta forma, é mal tratada como se de um inimigo da própria espécie se tratasse. Exemplos como este multiplicam-se - pardais, as marmotas, entre tantos outros - e desde animais considerados inferiores até aos mais desenvolvidos. 
Em suma, a moral pode resumir-se do seguinte modo, «faz aos outros aquilo que quererias que te fizessem a ti nas mesmas circunstâncias». Daqui nasce o princípio da solidariedade, desenvolvido no capítulo seguinte, o bom é aquilo que é útil para a sociedade e o mau aquilo que lhe é nocivo. É certo, que na biodiversidade a águia devora o pardal, o lobo devora as marmotas mas as águias e os lobos ajudam-se entre si para caçar e os pardais e as marmotas solidarizam-se também contra os animais predadores. No mundo animal e humano, a lei do apoio mútuo constitui a base do progresso e, tal como a coragem e a iniciativa individual que dele resultam, assegura a vitória e a sobrevivência da espécie. A competição entre espécies não invalida por isso a cooperação entre semelhantes, concluindo-se que os costumes e os instintos são os reguladores da acção em sociedade sem que para isso seja necessário recorrer a qualquer tipo de leis ou governo. Encaminhando-nos para o sexto capítulo, percebemos que a anarquia não conflitua com a moralidade, nem tão pouco implica a sua extinção.
O príncipe anarquista ensaia neste seu tratado uma tentativa de recondução da evolução humana, ciente de que a liberdade e o poder de agir são simultâneos ao dever agir. O trabalho finaliza com um capítulo sobre a distinção entre altruísmo e egoísmo, e citando Herbert Spencer (1820-1903), reitera que o bem do indivíduo se confunde com o bem da espécie e se os dois não coincidissem a própria evolução do reino animal nunca poderia ter acontecido. O desígnio de cada indivíduo é viver uma vida intensa e plena, e a intensidade é proporcional à sociabilidade, na mais perfeita identificação de si com todos aqueles que o rodeiam.




[1] Filho do general do exército imperial russo, descendia de uma das famílias mais antigas da nobreza russa, da ancestral casa real dos Rurik. Desde tenra idade, ainda ele frequentava o Corpo de Pajens, instituição militar privilegiada da Rússia Imperial, Kropotkine detinha já a fama de rebelde. Apesar da carreira militar não corresponder às suas aspirações, considerava este um percurso favorável para quem pretendia instituir a alteração de leis e medidas que produzissem o melhoramento da vida das classes sociais mais pobres. Para este efeito, escolheu um trabalho administrativo no regimento cossaco, na Sibéria, experiência que em muito contribuiu para o seu amadurecimento ideológico e evolução social, devido ao facto de ter sido assistente pessoal do general Koukel. Este general siberiano não só favoreceu o acesso de Kropotkine a obras de Mikhail Bakinine, Alexander Herzen como se aproximava também do ideal reformador liberal, que poderia vir a introduzir alterações radicais na administração russa, como desejava o jovem Kropotkine.
Entre 1868-1870, Kropotkine dedica-se aos seus estudos e observações realizando viagens pela Finlândia, Suécia e em 1872, na Suíça, filia-se na Associação Internacional dos Trabalhadores, que visava a união de diversos grupos políticos de esquerda e sindicatos com vista à adopção de medidas que melhorassem as condições da classe trabalhadora. No entanto, este ideal socialista ainda não satisfazia as suas aspirações e, em seguida, entrou em contacto com a Federação Jura, a mais importante e anti-autoritária secção anarquista.
De regresso à sua terra natal e munido de uma bagagem ideológica considerável inicia agora uma intensa actividade de difusão de propaganda anarquista através do Círculo de Tchaikovsky, uma sociedade literária de auto-educação dos revolucionários russos formada por jovens burgueses e da aristocracia procurando inculcar nos espíritos desinformados os ideais de revolta e de liberdade contra a opressão czarista.
Em 1877, Kropotkine desloca-se a Paris para participar activamente no despontar do movimento socialista francês, fundando juntamente com Paul Brosse o jornal internacional L’Avant garde e participando, nesse mesmo ano, no congresso de tendência bakineana em Verviers, tendo regressado à Suiça em 1878. No ano seguinte, editou para a Federação Jura o jornal Le Révolté e em 1887 o jornal muda de nome para La révolte e finalmente para Les temps nouveaux (1895).
Em 1881, Ktopotkine assiste em Inglaterra ao Congresso Internacional Anarquista e apelou ao empenho de actividades orientadas para a deposição do poder vigente, defendendo a necessidade do assassinato do czar russo Alexandre II, o que viria a acontecer efectivamente pouco tempo depois. Em virtude do assassinato do czar russo, Kropotkine virá a ser expulso pelo governo suíço devido às suas declarações pró-violência contra a realeza russa. Na verdade, o Principe Anarquista acreditava que uma revolta do povo oprimido era mais eficaz do que um voto. Continuou a sua demanda por Inglaterra, França, onde foi novamente detido juntamente com cinquenta e nove anarquistas, devido ao atentado ocorrido na Praça Bellecour, em Lyon, actividade na qual não tinha sequer participado. Ficou detido e nesse tempo dedicou-se a ensinar cosmografia, geometria, física, línguas aos companheiros, reiterando a necessidade da difusão do conhecimento enquanto etapa e instrumento fundamentais para o processo revolucionário das massas.
A 18 de Janeiro de 1886, deu-se a libertação do anarquista russo, graças à pressão de figuras conhecidas do panorama social, político e intelectual francês e inglês. Inglaterra seria o seu próximo destino e aí terá permanecido com a sua esposa Sophie Ananief durante trinta anos. Na década de 1890, as actividades de Kropotkine centram-se na escrita e além da actividade literária viaja para o Canadá e para os Estados Unidos, em 1897, leccionando e dando palestras sobre as eras glaciares como forma de assistir a congressos anarquistas nesses mesmos países. Entre 1909 e 1914 regressa à Suíça abstendo-se de participar em qualquer actividade anarquista.
Após a Revolução de Fevereiro, primeira etapa da Revolução Russa de 1917, cujo resultado imediato foi a deposição do Czar Nicolau II, Kropotkine é calorosamente acolhido no seu país de origem, sendo-lhe inclusivamente oferecido o cargo de Ministro da Educação no governo provisório, pasta que rejeitou sem hesitação. A promessa de erradicação de todo o tipo de autoridade política opressiva converteu-se numa outra, no fundo igual, a centralização despótica do poder. 

domingo, 29 de maio de 2016

O Regresso de Penélope

Autor: António Vieira
Título: O regresso de Penélope
Género: Romance
Editora: Edições Colibri
Lisboa, 2000
151 páginas



«Como era fácil ligar-se, terrível desligar-se; 
fácil perder-se e difícil encontrar-se…»

«Belo e sinistro me parece o mundo conforme a posição que oferece ao nosso olhar: volve de luz em sombra e sombra em luz. Mas se lutamos é porque ainda o queremos transformar e a nós nele”


Resumo: António Vieira desafia o leitor a descobrir e a actualizar as matrizes clássicas, ao longo de doze capítulos (ou serão cantos?), evocando inúmeras intertextualidades épicas à contraluz da Odisseia de Homero. Este romance ensaístico narra uma viagem, em pleno século XXI, da heroína grega, Penélope. Esta jornalista juntamente com a colega de profissão, a nórdica Inger, fazia a cobertura de uma sublevação em Singapura, quando foram ambas surpreendidas pela informação da CNN, anunciando o furacão Helena. Juntam-se a elas a indiana Kemala e a japonesa Yasuko, que se insurgiam também contra o poder político vigente, duas filipinas, Raïssa e Sarani, e ainda uma malaia, Dewi, que fugiam por sua vez à violência do Islão e à condição de escravas. 
O périplo destas seis argonautas, no veleiro Bunga Manis (Flor Doce), é fértil em aventuras, expedientes e agruras. Mutatis mutandis, Penélope vai (re)conhecer os episódios outrora percorridos por Ulisses, (Cilesso, digo!) que se encontra agora em Catai, cerzindo as suas teias informáticas. Verdade seja dita, «Cilesso fora por muito tempo o magneto que movera nela a agulha da vontade na bússola da Sorte por que gizara a rota. Guiavam-na então o amor, a ternura, a amizade por um homem bem próximo de afecto mas distante, que escapara incólume de uma calamidade e que a esperava» ( p.144). «Ambos tinham decidido um dia escrever conjuntamente um livro e habitar o mesmo espaço literário – o que significava misturarem a percepção do mundo e deles próprios com o horizonte do desejo e a utopia até ao seu extremo e conjectural limite: trabalho que, sabiam-no, só podia provir do apogeu do amor…e eis que, num momento decisivo, estavam separados em pontos opostos da Terra, senão do próprio Ser, repartidos talvez entre o reino da vida e dos mortos» (p.39). No entanto, este ideal conjunto esteve sempre comprometido e vaticinado porque Penélope nunca poderia imaginar que uma viagem fosse afinal uma «vida interior à própria vida» na qual estamos todos condenados à incomunicabilidade e ao isolamento dos nossos desejos, únicos, irrenunciáveis, pessoais e intransmissíveis.
Identificamos muitas ressonâncias homéricas neste Regresso de Penélope, anunciadas desde logo pelo avesso do próprio título ou pelos muitos episódios como o ataque dos Lestrígones, dos piratas “Ciclopes” - dos quais apenas se libertaram graças aos expedientes da líder - passando pelas feitiçarias de Erick na ilha flutuante e luxuriante de Yggoia (qual sedução de Circe), ou ainda o canto das sereias a que Penélope resiste amarrada ao mastro. Na ilha de Yggoia, Yasuko foi a única que não se entregou ao jogo como confirma Penélope: “Yasuko, querida amiga: permanecer assim fora da História, protegidas do jugo dos estados, das normas da cultura, de trabalhos e deveres, é um doce interregno que nos restitui à natureza. Devias ter experimentado também tu, fruído da doçura de jogar e confiar-te ao Jogo…tu que não confias nos jogos reais, como os de Kemala, nem nos jogos de astúcia, como os das nossas companheiras filipinas; nem te confias nunca ao jogo grave e perigoso do amor, a que me tenho dado, doce e violento mais que tudo o que jogar se possa…Tu, tão bela!» Apesar disso, esta obra é muito mais do que um desfio à leitura épica na retrospectiva de Homero, é um comprometimento com o nosso tempo, nesta análise crítica e nostálgica, à distância do mundo edénico da Grécia antiga. Estas heroínas representam várias culturas nas suas diversas circunstâncias em torno de um único anseio: a conquista da liberdade. Por esse facto, a denúncia da violência, da barbárie da civilização machista e opressora, a distância e os avatares desta civilização tecnológica, são o móbil e o interesse soberano nesta obra. Como afirma Kemala: «- Corremos entre dois riscos: a falta de lei, que cria a lei da selva; e a lei implacável da sharia, que nos faria escravas. Os excessos do desvio, como os rigores da norma, enchem de ciladas o século emergente» (p.29).
Já no final da viagem, chegando à costa da Austrália, Penélope abriu a caixa madrepérola de “Pandora” e entornou para o mar a semente letal, negra e brilhante, dádiva de Yasuko e que mais não era do que o símbolo da escravidão e da tortura de que os deuses a tinham poupado. Assim se amenizaram os contrastes abruptos entre a aflição e a esperança, entre a angústia sem consolo e o nirvana, na hibridização de todos fenómenos e acontecimentos: pois haverá regresso mais auspicioso do que este?

Palavras-chave: Penélope, viagem, odisseia do avesso, liberdade, igualdade, mulheres


segunda-feira, 11 de abril de 2016

História dos Mongóis aos quais chamamos Tártaros

Autor: Giovanni da Pian del Carpini
Título: História dos Mongóis aos quais chamamos Tártaros (Ystoria Mongolorum quos nos Tartarus Appellamus)
Tradução do Latim: André Simões e Gustavo Infante
Género: Crónicas de viagens
Editora: Livros de Bordo
2015
136 páginas




«Devem pois as tropas ter cuidado com isto: não corram muito tempo atrás deles por causa das emboscadas que costumam preparar. É que lutam mais com engano do que com valentia»
História dos Mongóis aos quais chamamos Tártaros: 93.

Resumo: O italiano da Ordem Franciscana Giovanni da Pian del Carpini (1180-1252) foi um dos primeiros europeus a viajar até ao Oriente, vinte anos antes do mercador veneziano Marco Polo. Este seu Diário de Bordo é um olhar lúcido e atento sobre a vida e os costumes dos mongóis a quem chamamos tártaros: esse povo distante e desconhecido, que tantas investidas bélicas empreendeu pela Europa em tempos medievos. As investidas deste povo, motivadas pelas suas ambições expansionistas, deixam marcas indeléveis de destruição por Kiev, pela Polónia, pela Alemanha, Hungria, Bulgária bem como por todas as terras do Mar Adriático. O centro da Europa estava assim na mira da ameaça mongol mas, surpreendentemente e de forma repentina, os tártaros bateram em retirada, em 1242, regressando à sua terra por circunstância da morte do imperador Ogodei Khan, filho do grande Gengis Khan. Perante este acontecimento, impunha-se a presença dos chefes mongóis em Karakorum, a antiga capital mongol, para a eleição do novo imperador. No entanto, em 1243, com a nomeação do papa Inocêncio IV, mantinha-se latente o receio de um potencial ataque mongol à Europa, razão pela qual foi enviada uma comitiva, a cargo do frei Giovanni, a essas terras remotas, na ânsia de uma possível conversão à fé católica do então imperador eleito. 
História dos Mongóis apresenta ao longo de nove capítulos, com detalhe e requinte descritivos, o modus vivendi e o modus operandi deste povo. Ainda que toda e qualquer descrição nunca esteja desprovida de parcialidade pois é desde logo uma leitura e interpretação do outro, em momento algum, o leitor se depara com juízos de valor flagrantes ou comentários comparativos. Por vezes até nos surpreendemo com o reconhecimento de alguns rasgos de humanismo e com o elogio de um povo guerreiro, que se rege por uma moral própria, na obediência de um código de conduta bem estabelecido e implacável.
A metodologia destas crónicas de viagens é rigorosa: inicia-se com um breve prólogo, seguindo-se a descrição da terra dos tártaros (localização e natureza), das pessoas, roupas e costumes de ordem social, religiosa (onde se desenvolvem descrições dos rituais fúnebres e de definição do pecado): «Diga-se que, para eles, porém, matar alguém invadir as terras de outrem, adquirir coisas alheias de modo injusto, fornicar, injuriar outros ou ir contra as proibições e os preceitos de Deus não é pecado», p.28).
Depois da caracterização destas idiossincrasias dos hábitos e costumes sociais, explica-se a história ab initio da constituição de poderes do imperador e dos príncipes, de toda a organização e astúcia bélicas e da perfídia para com aqueles que se lhes rendiam e ainda das suas acções mais tirânicas. Paradoxalmente, este povo predisposto para a guerra procura a paz e, nos últimos três capítulos, descreve-se o modo de organização militar das tropas, da fortificação, fundação e reunificação das cidades, na senda do alargamento do império mongol. Além de todo o pragmatismo que lhes é apanágio, estes tártaros pautam-se por uma religiosidade própria: «nada sabem da vida eterna ou do sofrimento perpétuo. Crêem, porém que, depois da morte, viverão noutro século e que os seus rebanhos se multiplicarão; que comerão e beberão e farão tudo aquilo que neste século fazem enquanto estão vivos» (p.29.). Contudo, isso não invalida que se dediquem convictamente à arte da adivinhação, dos presságios, feitiços, encantamentos, interpretações pois qualquer povo tem sempre uma necessidade de legitimação da sua violência por uma entidade maior e por um valor mais alto. Curiosamente, todas as guerras são contra os “outros” e não entre eles: «raramente ou nunca discutem com palavras, nunca chegam a vias de facto. Guerras, rixas, ferimentos, homicídios nunca ocorrem entre eles. Nem salteadores e ladrões de coisas grandes se acham entre eles», (p.35).
Cada capítulo abre de forma sistemática e paralelística com a apresentação prévia dos assuntos que irão ser desenvolvidos. Se acaso nos perguntamos se uma tradução latina desta natureza, feita a quatro mãos, poderá ou não incorrer em falta de coerência pela eventual variação estilística, que se ateste o sucesso da empresa, digno de reconhecimento. 


Palavras-chave: Mongóis, Tártaros, povo bélico, investidas expansionistas, tradições. 

terça-feira, 1 de março de 2016

A Queda

Autor: Albert Camus
Título: A Queda
Género: romance filosófico
Editora: Livros do Brasil – Porto Editora
2015
85 páginas




«A indignação, o talento, a emoção que eu despendia livravam-me, em compensação, de qualquer dívida em relação a eles. Os juízes condenavam, os réus expiavam e eu, isento de qualquer obrigação, de julgamento e de sanção, eu imperava, livremente, numa luz edénica».
A Queda, p. 20.

Resumo: Albert Camus foi agraciado com o Prémio Nobel em 1957, um ano após a publicação daquela que viria a ser a sua última obra ficcional e talvez a mais baudelairiana, A Queda. O filósofo argelino foi reconhecido e enaltecido pela lucidez e ironia com que ilumina os traços mais obscuros da natureza humana e pela forma satírica e, por vezes até, virulenta com que espelha os problemas de consciência, fruto das escolhas mais fracturantes e reveladoras do carácter do Homem. Nesta obra, ecoa uma acidez oscilante entre a maldade e a culpa que tentam ser legitimadas, através da manipulação e da subversão de argumentos. A Queda é um caleidoscópio da decadência moral, da sujeição e transgressão sociais, com a agonia inerente a um paradigma pouco humanista e tão contemporâneo. 
O foco de luz incide no monólogo dramático de um Juíz-penitente - assim auto-designado dada a sua dupla função de vítima e de carrasco - que se encontra em Amesterdão, num bar de marinheiros chamado Mexico-City. De repente, enceta uma conversa com um desconhecido, que apesar de não proferir uma única palavra se faz presente em toda a obra, enquanto interlocutor silencioso mas companheiro de todas as reflexões do protagonista Jean-Baptiste Clamence. Nas últimas páginas do livro, revela-se um pouco da identidade deste ouvinte, numa anagnórise aliás, pouco abonatória para ambos: «Ah! Eu já suspeitava, veja bem. Esta estranha afeição que eu sentia por si, tinha portanto sentido. O senhor exerce em Paris a bela profissão de advogado. Eu bem sabia que éramos da mesma raça. Não somos todos nós semelhantes, falando sem cessar e para ninguém, enfrentando sempre as mesmas perguntas, embora conheçamos de antemão as respostas?».
Ao longo de várias deambulações pelos canais e ruas de Amesterdão, o Juíz-penitente vai abrindo o livro da sua vida, partilhando experiências e lembranças dos seus tempos idos em Paris e confessa um episódio muito particular, que o atormenta e condiciona toda a sua argumentação. Entre preâmbulos e divagações, é reservado um importante espaço cénico-literário para confissões, críticas e análises das suas relações com as mulheres: «Estas damas, por detrás das vidraças? O sonho, meu caro senhor, o sonho com pouco esforço, a viagem às Índias! Estas criaturas perfumam-se com especiarias. Entra-se, elas correm as cortinas e a navegação começa. Os deuses descem sobre os corpos nus e as ilhas vão à deriva, dementes encimadas por uma cabeleira desgrenhada de palmeiras ao vento. Experimente».
A sociedade é alvo de um detalhado escrutínio, nas relações tendenciosas, viciadas e perversas, impulsionadoras da queda de qualquer Homem: «Uns gritam “Ama-me!” Outros “Não me ames!” mas há uma certa raça, a pior e a mais infeliz “Não me ames e sê-me fiel”…encontramo-nos um dia numa situação de possuir sem verdadeiramente desejar. Acredite-me, para certos seres, pelo menos, não possuir o que se não deseja é a coisa mais difícil do mundo». Apenas no que se refere ao hedonismo, o Homem consegue ser fiel a si mesmo, já que nenhum homem é hipócrita nos prazeres: «O ato de amor, por exemplo, é uma confissão. Aí o egoísmo grita, ostensivamente, a vaidade pavoneia-se, ou então revela-se aí a verdadeira generosidade».  
Esta plêiade argumentativa, bem construída e coerente ainda que esteja assente na subversão das premissas, representa a imagem do homem moderno da nossa era, fruto de uma sociedade que relega a verdade em prol do verosímil e onde a sedução da palavra é feita pela forma sem corresponder necessariamente a qualquer essência: «As mentiras não conduzem finalmente à via da verdade? E as minhas histórias, verdadeiras ou falsas, não tenderão todas para o mesmo fim, não terão o mesmo sentido? Que importa, então, que sejam verdadeiras ou falsas, se nos dois casos, são significativas do que fui e do que sou? Vê-se mais claro, por vezes, naquele que mente do que no que fala verdade. A verdade cega, como a luz. A mentira pelo contrário, é um belo crepúsculo que realça cada objecto».
A queda do protagonista é sinónimo de fuga, fraqueza e perversão, revestida de uma falsa ideia de liberdade e autonomia mas no fundo não é mais do que uma uma irreversível sujeição: «Aceitei a duplicidade em vez de ficar desolado com ela. Nela me instalei, pelo contrário, e nela achei o conforto que busquei durante toda a minha vida. O essencial é poder permitir-se tudo, mesmo se for preciso proclamar, de tempos a tempos, em altos brados, a própria indignidade. Permito-me tudo… Não mudei de vida, continuo a amar-me e a servir-me dos outros. Só que a confissão das minhas culpas me permite recomeçar de uma maneira mais leve e gozar duplamente a minha natureza, primeiro, e em seguida, um encantador arrependimento».
Qual foi então o episódio que tanto traumatiza, inquieta e atormenta a consciência de Clamence? A queda de uma mulher nas águas do rio Sena e a sua voluntária omissão e hesitação quando se preparava para a ajudar. Na outra face deste arrependimento está uma hipocrisia e egoísmo, que definem os traços de personalidade de um homem perturbado, decadente e em vertigem na própria queda: «Pronuncie o senhor mesmo as palavras que, há anos, não cessam de retinir nas minhas noites e que eu direi enfim pela sua boca: «Ó pequena, deita-te de novo à água, para que eu tenha pela segunda vez a sorte de nos salvar a ambos!» pela segunda vez, hein?, que imprudência! Suponha, caro coleg,a que nos tomam à letra. Teríamos de cumprir. Brr…! A água está tão fria! Mas tranquilizemo-nos! É tarde de mais, agora, será sempre tarde de mais. Felizmente!»


Palavras chave: Monólogo, Juíz-penitente, Paris, Amesterdão, hipocrisia, peso de consciência. 

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

As cidades Invisíveis

Autor: Italo Calvino
Título: As Cidades Invisíveis
Género: Romance
Editora: Dom Quixote - LeYa
2015
174 páginas




- Viajas para reviver o teu passado? – era agora a pergunta do Kan, que também podia ser formulada assim: - Viajas para achar o teu futuro?
E a resposta de Marco: - O algures é um espelho em negativo.
O viajante reconhece o pouco que é seu, descobrindo o muito que não teve nem terá.
As Cidades Invisíveis: p. 37


Resumo: As Cidades Invisíveis de Italo Calvino é, consensualmente, uma das obras primas do século XX e espelha todo o preciosismo e fulgor literários do realismo mágico. O autor coloca Marco Polo diante do imperador dos tártaros Kublai Khan a quem o viajante descreve, primorosamente e com requinte no detalhe, um catálogo de lugares, um inventário de nomes toponímicos, uma cartografia de cidades.
Tal como num jogo de xadrez em que a jogada seguinte depende da anterior do adversário, e depois das exuberantes descrições de Marco Polo, a mente do Grão Kan começava, por sua conta e risco, a desmontar as cidades peça a peça, na ânsia de as reconstruir de um outro modo, substituindo características, deslocando formas e invertendo os sentidos em busca de uma (sua) cidade ideal. Neste exercício de imaginação e projecção de um novo império, Kublai Khan ia-se conhecendo e reconhecendo, porque todas as cidades são como os sonhos: «todo o imaginável pode ser sonhado mas também o sonho mais inesperado é um enigma que oculta um desejo ou o seu contrário, um terror». Por isso, Khan inquieto perguntara a Polo: «- No dia em que conhecer todos os símbolos – perguntou a Marco - conseguirei possuir o meu império, finalmente? Ao que o veneziano respondera: -Sire, não acredites nisso: nesse dia serás tu mesmo símbolo entre os símbolos». 
É neste imaginário simbólico e abstracto de paradigmas mentais que as cidades desfilam ao longo de nove capítulos, exibindo a racionalidade geométrica da existência humana nas suas múltiplas viagens: «Viajando percebemos que as diferenças se perdem, cada cidade se vai parecendo com todas as cidades, os lugares trocam entre si a forma ordem distâncias, uma poeira informe invade os continentes. O teu atlas guarda intactas todas as diferenças: a provisão de qualidades que são como as letras do nome».
A taxonomia das cidades constrói-se mediante as múltiplas relações que estabelecem com os homens e por isso contam- se cinquenta e cinco cidades divididas pelos seguintes grupos: i) as cidades e a memória - Diomira, Isidora, Zaira, Maurília -  ii) as cidades e o desejo -  Doroteia, Anastásia, Despina, Fedora, Zobaida – iii) as cidades e os sinais: Tamara, Zirma, Zoé, Hipácia, Olívia – iv) as cidades subtis: Isaura, Zenóbia, Armila, Sofrónia, Octávia – v) as cidades e as trocas: Eufémia, Cloé, Eutrópia, Ersília, Esmeraldina – vi) as cidades e os olhos - Valdrada, Zemrude, Bauci, Filias, Moriana – vii) as cidades e o nome: Aglaura, Leandra, Pirra, Clarice, Irene – viii) as cidades e os mortos: Melânia, Adelma, Eusápia, Árgia, Laudomia – ix) as cidades e o céu: Eudóxia, Bersabeia, Tecla, Períncia, Andria – x) as cidades contínuas: Leónia, Trude, Procópia, Cecília, Pentesileia – xi) as cidades ocultas: Olinda, Raissa, Marozia, Teodora, Berenice.
            O olhar analítico e profundamente descritivo de Marco Polo, no retrato que pinta de cada uma destas cidades não ceifa qualquer potencial fantástico, muito pelo contrário, suscita o inebriamento por estes lugares, que ganham tamanho realismo na imaginação do leitor. Cidades com nomes de mulheres, umas mais fortes, outras mais frágeis, umas mais faustosas e luxuriantes, outras mais sombrias e obscuras, mas todas únicas, indecifráveis e inesgotáveis. Se muitas espelham a nostalgia do indivíduo na construção idílica e utópica dos lugares, como se fosse um espaço de reencontro consigo próprio, outras desenham arquitecturas presumíveis e verosímeis preferindo as realidades facilmente concebíveis e palpáveis: «umas encerram o que é aceite como necessário enquanto não o é ainda; as outras o que é imaginado como possível e no minuto a seguir já não o é».
Da mesma forma que encontramos cidades de existência indivisível, descobrimos também cidades de existência dúbia e ambígua, umas parecem mais leves e etéreas, outras mais finitas e mutáveis, umas mais rotineiras, outras mais surpreendentes. Como se não bastasse o desdobramento deste catálogo, Marco Polo inclui ainda no inventário todas aquelas cidades que não existindo poderiam ter existido e sobretudo um modelo de cidade que se deduz extrapolando as utopias e as vontades de todas as outras, uma cidade feita de excepções, impedimentos, contradições, incongruências e contrassensos: «se uma cidade assim é o que há de mais improvável, diminuindo o número de elementos anormais aumentam as probabilidades de existir realmente a cidade […] mas não posso fazer avançar a minha operação para além de um certo limite: obteria cidades demasiado verosímeis para serem verdadeiras».
Não esqueçamos ainda as cidades que dentro do paradoxo conseguem ser coerentes, como Cloé, que nas suas movimentações luxuriantes continua a ser a mais casta das cidades, ou até mesmo Esmeraldina cujas vidas rotineiras e tranquilas decorrem sem se repetirem. Há ainda aquelas cidades que têm em si o próprio contrário, o veneno e seu antídoto como Berenice, dotada de uma qualidade intrínseca: sendo injusta germina nela o segredo de uma cidade justa - «da minha conversa retirarás a conclusão de que a verdadeira Berenice é uma sucessão no tempo de cidades diferentes, alternadamente justas e injustas. Mas a coisa de que pretendia avisar-te é outra: que todas as Berenices futuras já estão presentes neste instante, envolvidas uma dentro da outra, apertadas empilhadas inextricáveis».
Khan interroga Marco Polo sobre a sua cidade italiana mas o viajante sabe que as palavras desgastam as imagens da memória, e uma vez fixadas pelas palavras, as cidades correm os risco de se apagar. Marco Polo tem medo de perder Veneza, se falar dela toda de uma vez, mesmo estando ciente de que talvez a tenha vindo a perder, pouco a pouco, depois de falar de tantas outras cidades. Afinal Veneza estivera sempre no seu olhar sobre todas as outras. 
No fim de todas as viagens e deslocações, a cidade que continua a seduzir, verdadeiramente, Marco Polo é aquela que é descontínua no tempo e no espaço, a única que não pode deixar de ser desejada, procurada e idealizada, por ser a mais utópica porque «o catálogo das formas é infinito: enquanto houver uma forma que não tenha encontrado a sua cidade, continuarão a nascer novas cidades. Onde as formas esgotam as suas variações e se desfazem, começa o fim das cidades». Os limites são o segredo e a medida para uma imaginação livre e infindável pois «só se conheceres o resíduo da infelicidade, que nenhuma pedra preciosa pode compensar, poderás computar o número exacto de quilates que deve ter o diamante final.»

Palavras chave: realismo mágico, cidades, utopia, viagens da imaginação, Marco Polo. 

sexta-feira, 1 de janeiro de 2016

A Instrumentalina

Autor: Lídia Jorge
Título: A Instrumentalina
Género: Conto
Editora: LeYa
2015 (3ª edição)
46 páginas







«Como se o tempo de repente dum outro modo fluísse, ou mesmo a qualidade da sua hora mudasse, e uma coisa perdida aparecesse, uma dúvida se quebra, um amor acaba, e outro que nunca se tinha imaginado, de repente, nasce».

Resumo: «Nunca se sabe o que uma viagem pode trazer ao íntimo do coração.»: são estas as palavras que abrem o conto de Lídia Jorge, prometendo e adivinhando desde logo a ternura e a comoção pelos afectos a que já nos tem habituado. No entanto esta narrativa breve distingue-se da restante obra ficcional da escritora como uma peça autónoma, traduzida e difundida em várias línguas – inglês, francês, italiano, húngaro, búlgaro e alemão –, tendo sido inclusivamente considerada uma obra-prima do conto.
Idalina…Rosalina…Constantina…não, Instrumentalina…uma força fonética que lhe dá quase o estatuto de nome próprio, um simbolismo tão intenso que lhe confere quase uma existência ontológica: afinal ela é a protagonista e personagem principal das memórias da narradora, Greta Garbo, como lhe chamava o tio. O selim, a roda pedaleira, a imagem do retorcido guiador, objectos soltos «que sempre tivemos por separados atam as pontas, imagens que bóiam nas nossas vidas sem ligação juntam-se e criam uma nova sequência com sentido». O cenário é o bar do Royal York Hotel e a narradora encontra-se ali sentada numa mesa, olhando quem entra quem sai, movimentações e deslocações que não a deixaram indiferente a uma viagem ao passado e eis que num ápice se reencontrara num outro tempo, num outro espaço. Aquela bicicleta marca Deka, a sua Kodak e a máquina de escrever quase que esculpiam o retrato e os traços de carácter do tio Fernando. Certo dia foi ela a escolhida, de entre todos os sobrinhos, para acompanhar o tio num passeio na Instrumentalina, pelos extensos campos de margaridas. O quadro das memórias vai-se tornando mais nítido e vai-se presentificando no encaixe de todos estes objectos, o Citroën cinza, aquela moeda dourada, que mais não são do que a consubstanciação de muitos episódios da sua infância. 
É certo que a materialidade de um objecto existe apenas enquanto este é tangível mas pode eternizar-se se conseguir chegar à memória dos afectos. Mesmo estando quebrada a Instrumentalina e mesmo desaparecido o tio Fernando, andava ainda na casa dos seus vinte anos, nunca se fecha a possibilidade de nos surpreendermos com novos sentidos que vão além da nossa própria imaginação. Se é com esse aviso que começa o conto é com essa mesma certeza que termina: «Uma coisa fria, como se o meu coração se dirigisse não para um homem mas para um lago empurrava-me a vista na direcção do bengaleiro. Preparava-me para um encontro singular como nunca havia imaginado ser possível. Ele ali estava. Devagar, um cavalheiro de meia-idade, atrás do vidro transparente retirava o seu abafo, dobrava-o, entregava-o com as luvas, e abrindo aporta como quem acaba de correr numa bicicleta, poisava o seu olhar mediterrânico na minha mesa. “Cresceste, miúda, cresceste. Mas a tua cara é ainda a mesma…”.



Palavras-chave: Instrumentalina, memórias do coração, afectos, tio, Greta Garbo.