domingo, 29 de maio de 2016

O Regresso de Penélope

Autor: António Vieira
Título: O regresso de Penélope
Género: Romance
Editora: Edições Colibri
Lisboa, 2000
151 páginas



«Como era fácil ligar-se, terrível desligar-se; 
fácil perder-se e difícil encontrar-se…»

«Belo e sinistro me parece o mundo conforme a posição que oferece ao nosso olhar: volve de luz em sombra e sombra em luz. Mas se lutamos é porque ainda o queremos transformar e a nós nele”


Resumo: António Vieira desafia o leitor a descobrir e a actualizar as matrizes clássicas, ao longo de doze capítulos (ou serão cantos?), evocando inúmeras intertextualidades épicas à contraluz da Odisseia de Homero. Este romance ensaístico narra uma viagem, em pleno século XXI, da heroína grega, Penélope. Esta jornalista juntamente com a colega de profissão, a nórdica Inger, fazia a cobertura de uma sublevação em Singapura, quando foram ambas surpreendidas pela informação da CNN, anunciando o furacão Helena. Juntam-se a elas a indiana Kemala e a japonesa Yasuko, que se insurgiam também contra o poder político vigente, duas filipinas, Raïssa e Sarani, e ainda uma malaia, Dewi, que fugiam por sua vez à violência do Islão e à condição de escravas. 
O périplo destas seis argonautas, no veleiro Bunga Manis (Flor Doce), é fértil em aventuras, expedientes e agruras. Mutatis mutandis, Penélope vai (re)conhecer os episódios outrora percorridos por Ulisses, (Cilesso, digo!) que se encontra agora em Catai, cerzindo as suas teias informáticas. Verdade seja dita, «Cilesso fora por muito tempo o magneto que movera nela a agulha da vontade na bússola da Sorte por que gizara a rota. Guiavam-na então o amor, a ternura, a amizade por um homem bem próximo de afecto mas distante, que escapara incólume de uma calamidade e que a esperava» ( p.144). «Ambos tinham decidido um dia escrever conjuntamente um livro e habitar o mesmo espaço literário – o que significava misturarem a percepção do mundo e deles próprios com o horizonte do desejo e a utopia até ao seu extremo e conjectural limite: trabalho que, sabiam-no, só podia provir do apogeu do amor…e eis que, num momento decisivo, estavam separados em pontos opostos da Terra, senão do próprio Ser, repartidos talvez entre o reino da vida e dos mortos» (p.39). No entanto, este ideal conjunto esteve sempre comprometido e vaticinado porque Penélope nunca poderia imaginar que uma viagem fosse afinal uma «vida interior à própria vida» na qual estamos todos condenados à incomunicabilidade e ao isolamento dos nossos desejos, únicos, irrenunciáveis, pessoais e intransmissíveis.
Identificamos muitas ressonâncias homéricas neste Regresso de Penélope, anunciadas desde logo pelo avesso do próprio título ou pelos muitos episódios como o ataque dos Lestrígones, dos piratas “Ciclopes” - dos quais apenas se libertaram graças aos expedientes da líder - passando pelas feitiçarias de Erick na ilha flutuante e luxuriante de Yggoia (qual sedução de Circe), ou ainda o canto das sereias a que Penélope resiste amarrada ao mastro. Na ilha de Yggoia, Yasuko foi a única que não se entregou ao jogo como confirma Penélope: “Yasuko, querida amiga: permanecer assim fora da História, protegidas do jugo dos estados, das normas da cultura, de trabalhos e deveres, é um doce interregno que nos restitui à natureza. Devias ter experimentado também tu, fruído da doçura de jogar e confiar-te ao Jogo…tu que não confias nos jogos reais, como os de Kemala, nem nos jogos de astúcia, como os das nossas companheiras filipinas; nem te confias nunca ao jogo grave e perigoso do amor, a que me tenho dado, doce e violento mais que tudo o que jogar se possa…Tu, tão bela!» Apesar disso, esta obra é muito mais do que um desfio à leitura épica na retrospectiva de Homero, é um comprometimento com o nosso tempo, nesta análise crítica e nostálgica, à distância do mundo edénico da Grécia antiga. Estas heroínas representam várias culturas nas suas diversas circunstâncias em torno de um único anseio: a conquista da liberdade. Por esse facto, a denúncia da violência, da barbárie da civilização machista e opressora, a distância e os avatares desta civilização tecnológica, são o móbil e o interesse soberano nesta obra. Como afirma Kemala: «- Corremos entre dois riscos: a falta de lei, que cria a lei da selva; e a lei implacável da sharia, que nos faria escravas. Os excessos do desvio, como os rigores da norma, enchem de ciladas o século emergente» (p.29).
Já no final da viagem, chegando à costa da Austrália, Penélope abriu a caixa madrepérola de “Pandora” e entornou para o mar a semente letal, negra e brilhante, dádiva de Yasuko e que mais não era do que o símbolo da escravidão e da tortura de que os deuses a tinham poupado. Assim se amenizaram os contrastes abruptos entre a aflição e a esperança, entre a angústia sem consolo e o nirvana, na hibridização de todos fenómenos e acontecimentos: pois haverá regresso mais auspicioso do que este?

Palavras-chave: Penélope, viagem, odisseia do avesso, liberdade, igualdade, mulheres


segunda-feira, 11 de abril de 2016

História dos Mongóis aos quais chamamos Tártaros

Autor: Giovanni da Pian del Carpini
Título: História dos Mongóis aos quais chamamos Tártaros (Ystoria Mongolorum quos nos Tartarus Appellamus)
Tradução do Latim: André Simões e Gustavo Infante
Género: Crónicas de viagens
Editora: Livros de Bordo
2015
136 páginas




«Devem pois as tropas ter cuidado com isto: não corram muito tempo atrás deles por causa das emboscadas que costumam preparar. É que lutam mais com engano do que com valentia»
História dos Mongóis aos quais chamamos Tártaros: 93.

Resumo: O italiano da Ordem Franciscana Giovanni da Pian del Carpini (1180-1252) foi um dos primeiros europeus a viajar até ao Oriente, vinte anos antes do mercador veneziano Marco Polo. Este seu Diário de Bordo é um olhar lúcido e atento sobre a vida e os costumes dos mongóis a quem chamamos tártaros: esse povo distante e desconhecido, que tantas investidas bélicas empreendeu pela Europa em tempos medievos. As investidas deste povo, motivadas pelas suas ambições expansionistas, deixam marcas indeléveis de destruição por Kiev, pela Polónia, pela Alemanha, Hungria, Bulgária bem como por todas as terras do Mar Adriático. O centro da Europa estava assim na mira da ameaça mongol mas, surpreendentemente e de forma repentina, os tártaros bateram em retirada, em 1242, regressando à sua terra por circunstância da morte do imperador Ogodei Khan, filho do grande Gengis Khan. Perante este acontecimento, impunha-se a presença dos chefes mongóis em Karakorum, a antiga capital mongol, para a eleição do novo imperador. No entanto, em 1243, com a nomeação do papa Inocêncio IV, mantinha-se latente o receio de um potencial ataque mongol à Europa, razão pela qual foi enviada uma comitiva, a cargo do frei Giovanni, a essas terras remotas, na ânsia de uma possível conversão à fé católica do então imperador eleito. 
História dos Mongóis apresenta ao longo de nove capítulos, com detalhe e requinte descritivos, o modus vivendi e o modus operandi deste povo. Ainda que toda e qualquer descrição nunca esteja desprovida de parcialidade pois é desde logo uma leitura e interpretação do outro, em momento algum, o leitor se depara com juízos de valor flagrantes ou comentários comparativos. Por vezes até nos surpreendemo com o reconhecimento de alguns rasgos de humanismo e com o elogio de um povo guerreiro, que se rege por uma moral própria, na obediência de um código de conduta bem estabelecido e implacável.
A metodologia destas crónicas de viagens é rigorosa: inicia-se com um breve prólogo, seguindo-se a descrição da terra dos tártaros (localização e natureza), das pessoas, roupas e costumes de ordem social, religiosa (onde se desenvolvem descrições dos rituais fúnebres e de definição do pecado): «Diga-se que, para eles, porém, matar alguém invadir as terras de outrem, adquirir coisas alheias de modo injusto, fornicar, injuriar outros ou ir contra as proibições e os preceitos de Deus não é pecado», p.28).
Depois da caracterização destas idiossincrasias dos hábitos e costumes sociais, explica-se a história ab initio da constituição de poderes do imperador e dos príncipes, de toda a organização e astúcia bélicas e da perfídia para com aqueles que se lhes rendiam e ainda das suas acções mais tirânicas. Paradoxalmente, este povo predisposto para a guerra procura a paz e, nos últimos três capítulos, descreve-se o modo de organização militar das tropas, da fortificação, fundação e reunificação das cidades, na senda do alargamento do império mongol. Além de todo o pragmatismo que lhes é apanágio, estes tártaros pautam-se por uma religiosidade própria: «nada sabem da vida eterna ou do sofrimento perpétuo. Crêem, porém que, depois da morte, viverão noutro século e que os seus rebanhos se multiplicarão; que comerão e beberão e farão tudo aquilo que neste século fazem enquanto estão vivos» (p.29.). Contudo, isso não invalida que se dediquem convictamente à arte da adivinhação, dos presságios, feitiços, encantamentos, interpretações pois qualquer povo tem sempre uma necessidade de legitimação da sua violência por uma entidade maior e por um valor mais alto. Curiosamente, todas as guerras são contra os “outros” e não entre eles: «raramente ou nunca discutem com palavras, nunca chegam a vias de facto. Guerras, rixas, ferimentos, homicídios nunca ocorrem entre eles. Nem salteadores e ladrões de coisas grandes se acham entre eles», (p.35).
Cada capítulo abre de forma sistemática e paralelística com a apresentação prévia dos assuntos que irão ser desenvolvidos. Se acaso nos perguntamos se uma tradução latina desta natureza, feita a quatro mãos, poderá ou não incorrer em falta de coerência pela eventual variação estilística, que se ateste o sucesso da empresa, digno de reconhecimento. 


Palavras-chave: Mongóis, Tártaros, povo bélico, investidas expansionistas, tradições. 

terça-feira, 1 de março de 2016

A Queda

Autor: Albert Camus
Título: A Queda
Género: romance filosófico
Editora: Livros do Brasil – Porto Editora
2015
85 páginas




«A indignação, o talento, a emoção que eu despendia livravam-me, em compensação, de qualquer dívida em relação a eles. Os juízes condenavam, os réus expiavam e eu, isento de qualquer obrigação, de julgamento e de sanção, eu imperava, livremente, numa luz edénica».
A Queda, p. 20.

Resumo: Albert Camus foi agraciado com o Prémio Nobel em 1957, um ano após a publicação daquela que viria a ser a sua última obra ficcional e talvez a mais baudelairiana, A Queda. O filósofo argelino foi reconhecido e enaltecido pela lucidez e ironia com que ilumina os traços mais obscuros da natureza humana e pela forma satírica e, por vezes até, virulenta com que espelha os problemas de consciência, fruto das escolhas mais fracturantes e reveladoras do carácter do Homem. Nesta obra, ecoa uma acidez oscilante entre a maldade e a culpa que tentam ser legitimadas, através da manipulação e da subversão de argumentos. A Queda é um caleidoscópio da decadência moral, da sujeição e transgressão sociais, com a agonia inerente a um paradigma pouco humanista e tão contemporâneo. 
O foco de luz incide no monólogo dramático de um Juíz-penitente - assim auto-designado dada a sua dupla função de vítima e de carrasco - que se encontra em Amesterdão, num bar de marinheiros chamado Mexico-City. De repente, enceta uma conversa com um desconhecido, que apesar de não proferir uma única palavra se faz presente em toda a obra, enquanto interlocutor silencioso mas companheiro de todas as reflexões do protagonista Jean-Baptiste Clamence. Nas últimas páginas do livro, revela-se um pouco da identidade deste ouvinte, numa anagnórise aliás, pouco abonatória para ambos: «Ah! Eu já suspeitava, veja bem. Esta estranha afeição que eu sentia por si, tinha portanto sentido. O senhor exerce em Paris a bela profissão de advogado. Eu bem sabia que éramos da mesma raça. Não somos todos nós semelhantes, falando sem cessar e para ninguém, enfrentando sempre as mesmas perguntas, embora conheçamos de antemão as respostas?».
Ao longo de várias deambulações pelos canais e ruas de Amesterdão, o Juíz-penitente vai abrindo o livro da sua vida, partilhando experiências e lembranças dos seus tempos idos em Paris e confessa um episódio muito particular, que o atormenta e condiciona toda a sua argumentação. Entre preâmbulos e divagações, é reservado um importante espaço cénico-literário para confissões, críticas e análises das suas relações com as mulheres: «Estas damas, por detrás das vidraças? O sonho, meu caro senhor, o sonho com pouco esforço, a viagem às Índias! Estas criaturas perfumam-se com especiarias. Entra-se, elas correm as cortinas e a navegação começa. Os deuses descem sobre os corpos nus e as ilhas vão à deriva, dementes encimadas por uma cabeleira desgrenhada de palmeiras ao vento. Experimente».
A sociedade é alvo de um detalhado escrutínio, nas relações tendenciosas, viciadas e perversas, impulsionadoras da queda de qualquer Homem: «Uns gritam “Ama-me!” Outros “Não me ames!” mas há uma certa raça, a pior e a mais infeliz “Não me ames e sê-me fiel”…encontramo-nos um dia numa situação de possuir sem verdadeiramente desejar. Acredite-me, para certos seres, pelo menos, não possuir o que se não deseja é a coisa mais difícil do mundo». Apenas no que se refere ao hedonismo, o Homem consegue ser fiel a si mesmo, já que nenhum homem é hipócrita nos prazeres: «O ato de amor, por exemplo, é uma confissão. Aí o egoísmo grita, ostensivamente, a vaidade pavoneia-se, ou então revela-se aí a verdadeira generosidade».  
Esta plêiade argumentativa, bem construída e coerente ainda que esteja assente na subversão das premissas, representa a imagem do homem moderno da nossa era, fruto de uma sociedade que relega a verdade em prol do verosímil e onde a sedução da palavra é feita pela forma sem corresponder necessariamente a qualquer essência: «As mentiras não conduzem finalmente à via da verdade? E as minhas histórias, verdadeiras ou falsas, não tenderão todas para o mesmo fim, não terão o mesmo sentido? Que importa, então, que sejam verdadeiras ou falsas, se nos dois casos, são significativas do que fui e do que sou? Vê-se mais claro, por vezes, naquele que mente do que no que fala verdade. A verdade cega, como a luz. A mentira pelo contrário, é um belo crepúsculo que realça cada objecto».
A queda do protagonista é sinónimo de fuga, fraqueza e perversão, revestida de uma falsa ideia de liberdade e autonomia mas no fundo não é mais do que uma uma irreversível sujeição: «Aceitei a duplicidade em vez de ficar desolado com ela. Nela me instalei, pelo contrário, e nela achei o conforto que busquei durante toda a minha vida. O essencial é poder permitir-se tudo, mesmo se for preciso proclamar, de tempos a tempos, em altos brados, a própria indignidade. Permito-me tudo… Não mudei de vida, continuo a amar-me e a servir-me dos outros. Só que a confissão das minhas culpas me permite recomeçar de uma maneira mais leve e gozar duplamente a minha natureza, primeiro, e em seguida, um encantador arrependimento».
Qual foi então o episódio que tanto traumatiza, inquieta e atormenta a consciência de Clamence? A queda de uma mulher nas águas do rio Sena e a sua voluntária omissão e hesitação quando se preparava para a ajudar. Na outra face deste arrependimento está uma hipocrisia e egoísmo, que definem os traços de personalidade de um homem perturbado, decadente e em vertigem na própria queda: «Pronuncie o senhor mesmo as palavras que, há anos, não cessam de retinir nas minhas noites e que eu direi enfim pela sua boca: «Ó pequena, deita-te de novo à água, para que eu tenha pela segunda vez a sorte de nos salvar a ambos!» pela segunda vez, hein?, que imprudência! Suponha, caro coleg,a que nos tomam à letra. Teríamos de cumprir. Brr…! A água está tão fria! Mas tranquilizemo-nos! É tarde de mais, agora, será sempre tarde de mais. Felizmente!»


Palavras chave: Monólogo, Juíz-penitente, Paris, Amesterdão, hipocrisia, peso de consciência. 

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

As cidades Invisíveis

Autor: Italo Calvino
Título: As Cidades Invisíveis
Género: Romance
Editora: Dom Quixote - LeYa
2015
174 páginas




- Viajas para reviver o teu passado? – era agora a pergunta do Kan, que também podia ser formulada assim: - Viajas para achar o teu futuro?
E a resposta de Marco: - O algures é um espelho em negativo.
O viajante reconhece o pouco que é seu, descobrindo o muito que não teve nem terá.
As Cidades Invisíveis: p. 37


Resumo: As Cidades Invisíveis de Italo Calvino é, consensualmente, uma das obras primas do século XX e espelha todo o preciosismo e fulgor literários do realismo mágico. O autor coloca Marco Polo diante do imperador dos tártaros Kublai Khan a quem o viajante descreve, primorosamente e com requinte no detalhe, um catálogo de lugares, um inventário de nomes toponímicos, uma cartografia de cidades.
Tal como num jogo de xadrez em que a jogada seguinte depende da anterior do adversário, e depois das exuberantes descrições de Marco Polo, a mente do Grão Kan começava, por sua conta e risco, a desmontar as cidades peça a peça, na ânsia de as reconstruir de um outro modo, substituindo características, deslocando formas e invertendo os sentidos em busca de uma (sua) cidade ideal. Neste exercício de imaginação e projecção de um novo império, Kublai Khan ia-se conhecendo e reconhecendo, porque todas as cidades são como os sonhos: «todo o imaginável pode ser sonhado mas também o sonho mais inesperado é um enigma que oculta um desejo ou o seu contrário, um terror». Por isso, Khan inquieto perguntara a Polo: «- No dia em que conhecer todos os símbolos – perguntou a Marco - conseguirei possuir o meu império, finalmente? Ao que o veneziano respondera: -Sire, não acredites nisso: nesse dia serás tu mesmo símbolo entre os símbolos». 
É neste imaginário simbólico e abstracto de paradigmas mentais que as cidades desfilam ao longo de nove capítulos, exibindo a racionalidade geométrica da existência humana nas suas múltiplas viagens: «Viajando percebemos que as diferenças se perdem, cada cidade se vai parecendo com todas as cidades, os lugares trocam entre si a forma ordem distâncias, uma poeira informe invade os continentes. O teu atlas guarda intactas todas as diferenças: a provisão de qualidades que são como as letras do nome».
A taxonomia das cidades constrói-se mediante as múltiplas relações que estabelecem com os homens e por isso contam- se cinquenta e cinco cidades divididas pelos seguintes grupos: i) as cidades e a memória - Diomira, Isidora, Zaira, Maurília -  ii) as cidades e o desejo -  Doroteia, Anastásia, Despina, Fedora, Zobaida – iii) as cidades e os sinais: Tamara, Zirma, Zoé, Hipácia, Olívia – iv) as cidades subtis: Isaura, Zenóbia, Armila, Sofrónia, Octávia – v) as cidades e as trocas: Eufémia, Cloé, Eutrópia, Ersília, Esmeraldina – vi) as cidades e os olhos - Valdrada, Zemrude, Bauci, Filias, Moriana – vii) as cidades e o nome: Aglaura, Leandra, Pirra, Clarice, Irene – viii) as cidades e os mortos: Melânia, Adelma, Eusápia, Árgia, Laudomia – ix) as cidades e o céu: Eudóxia, Bersabeia, Tecla, Períncia, Andria – x) as cidades contínuas: Leónia, Trude, Procópia, Cecília, Pentesileia – xi) as cidades ocultas: Olinda, Raissa, Marozia, Teodora, Berenice.
            O olhar analítico e profundamente descritivo de Marco Polo, no retrato que pinta de cada uma destas cidades não ceifa qualquer potencial fantástico, muito pelo contrário, suscita o inebriamento por estes lugares, que ganham tamanho realismo na imaginação do leitor. Cidades com nomes de mulheres, umas mais fortes, outras mais frágeis, umas mais faustosas e luxuriantes, outras mais sombrias e obscuras, mas todas únicas, indecifráveis e inesgotáveis. Se muitas espelham a nostalgia do indivíduo na construção idílica e utópica dos lugares, como se fosse um espaço de reencontro consigo próprio, outras desenham arquitecturas presumíveis e verosímeis preferindo as realidades facilmente concebíveis e palpáveis: «umas encerram o que é aceite como necessário enquanto não o é ainda; as outras o que é imaginado como possível e no minuto a seguir já não o é».
Da mesma forma que encontramos cidades de existência indivisível, descobrimos também cidades de existência dúbia e ambígua, umas parecem mais leves e etéreas, outras mais finitas e mutáveis, umas mais rotineiras, outras mais surpreendentes. Como se não bastasse o desdobramento deste catálogo, Marco Polo inclui ainda no inventário todas aquelas cidades que não existindo poderiam ter existido e sobretudo um modelo de cidade que se deduz extrapolando as utopias e as vontades de todas as outras, uma cidade feita de excepções, impedimentos, contradições, incongruências e contrassensos: «se uma cidade assim é o que há de mais improvável, diminuindo o número de elementos anormais aumentam as probabilidades de existir realmente a cidade […] mas não posso fazer avançar a minha operação para além de um certo limite: obteria cidades demasiado verosímeis para serem verdadeiras».
Não esqueçamos ainda as cidades que dentro do paradoxo conseguem ser coerentes, como Cloé, que nas suas movimentações luxuriantes continua a ser a mais casta das cidades, ou até mesmo Esmeraldina cujas vidas rotineiras e tranquilas decorrem sem se repetirem. Há ainda aquelas cidades que têm em si o próprio contrário, o veneno e seu antídoto como Berenice, dotada de uma qualidade intrínseca: sendo injusta germina nela o segredo de uma cidade justa - «da minha conversa retirarás a conclusão de que a verdadeira Berenice é uma sucessão no tempo de cidades diferentes, alternadamente justas e injustas. Mas a coisa de que pretendia avisar-te é outra: que todas as Berenices futuras já estão presentes neste instante, envolvidas uma dentro da outra, apertadas empilhadas inextricáveis».
Khan interroga Marco Polo sobre a sua cidade italiana mas o viajante sabe que as palavras desgastam as imagens da memória, e uma vez fixadas pelas palavras, as cidades correm os risco de se apagar. Marco Polo tem medo de perder Veneza, se falar dela toda de uma vez, mesmo estando ciente de que talvez a tenha vindo a perder, pouco a pouco, depois de falar de tantas outras cidades. Afinal Veneza estivera sempre no seu olhar sobre todas as outras. 
No fim de todas as viagens e deslocações, a cidade que continua a seduzir, verdadeiramente, Marco Polo é aquela que é descontínua no tempo e no espaço, a única que não pode deixar de ser desejada, procurada e idealizada, por ser a mais utópica porque «o catálogo das formas é infinito: enquanto houver uma forma que não tenha encontrado a sua cidade, continuarão a nascer novas cidades. Onde as formas esgotam as suas variações e se desfazem, começa o fim das cidades». Os limites são o segredo e a medida para uma imaginação livre e infindável pois «só se conheceres o resíduo da infelicidade, que nenhuma pedra preciosa pode compensar, poderás computar o número exacto de quilates que deve ter o diamante final.»

Palavras chave: realismo mágico, cidades, utopia, viagens da imaginação, Marco Polo. 

sexta-feira, 1 de janeiro de 2016

A Instrumentalina

Autor: Lídia Jorge
Título: A Instrumentalina
Género: Conto
Editora: LeYa
2015 (3ª edição)
46 páginas







«Como se o tempo de repente dum outro modo fluísse, ou mesmo a qualidade da sua hora mudasse, e uma coisa perdida aparecesse, uma dúvida se quebra, um amor acaba, e outro que nunca se tinha imaginado, de repente, nasce».

Resumo: «Nunca se sabe o que uma viagem pode trazer ao íntimo do coração.»: são estas as palavras que abrem o conto de Lídia Jorge, prometendo e adivinhando desde logo a ternura e a comoção pelos afectos a que já nos tem habituado. No entanto esta narrativa breve distingue-se da restante obra ficcional da escritora como uma peça autónoma, traduzida e difundida em várias línguas – inglês, francês, italiano, húngaro, búlgaro e alemão –, tendo sido inclusivamente considerada uma obra-prima do conto.
Idalina…Rosalina…Constantina…não, Instrumentalina…uma força fonética que lhe dá quase o estatuto de nome próprio, um simbolismo tão intenso que lhe confere quase uma existência ontológica: afinal ela é a protagonista e personagem principal das memórias da narradora, Greta Garbo, como lhe chamava o tio. O selim, a roda pedaleira, a imagem do retorcido guiador, objectos soltos «que sempre tivemos por separados atam as pontas, imagens que bóiam nas nossas vidas sem ligação juntam-se e criam uma nova sequência com sentido». O cenário é o bar do Royal York Hotel e a narradora encontra-se ali sentada numa mesa, olhando quem entra quem sai, movimentações e deslocações que não a deixaram indiferente a uma viagem ao passado e eis que num ápice se reencontrara num outro tempo, num outro espaço. Aquela bicicleta marca Deka, a sua Kodak e a máquina de escrever quase que esculpiam o retrato e os traços de carácter do tio Fernando. Certo dia foi ela a escolhida, de entre todos os sobrinhos, para acompanhar o tio num passeio na Instrumentalina, pelos extensos campos de margaridas. O quadro das memórias vai-se tornando mais nítido e vai-se presentificando no encaixe de todos estes objectos, o Citroën cinza, aquela moeda dourada, que mais não são do que a consubstanciação de muitos episódios da sua infância. 
É certo que a materialidade de um objecto existe apenas enquanto este é tangível mas pode eternizar-se se conseguir chegar à memória dos afectos. Mesmo estando quebrada a Instrumentalina e mesmo desaparecido o tio Fernando, andava ainda na casa dos seus vinte anos, nunca se fecha a possibilidade de nos surpreendermos com novos sentidos que vão além da nossa própria imaginação. Se é com esse aviso que começa o conto é com essa mesma certeza que termina: «Uma coisa fria, como se o meu coração se dirigisse não para um homem mas para um lago empurrava-me a vista na direcção do bengaleiro. Preparava-me para um encontro singular como nunca havia imaginado ser possível. Ele ali estava. Devagar, um cavalheiro de meia-idade, atrás do vidro transparente retirava o seu abafo, dobrava-o, entregava-o com as luvas, e abrindo aporta como quem acaba de correr numa bicicleta, poisava o seu olhar mediterrânico na minha mesa. “Cresceste, miúda, cresceste. Mas a tua cara é ainda a mesma…”.



Palavras-chave: Instrumentalina, memórias do coração, afectos, tio, Greta Garbo.

terça-feira, 1 de dezembro de 2015

Despenteando parágrafos

Autor: Onésimo Teotónio de Almeida
Título: Despenteando parágrafos
Género: Ensaios
Editora: Quetzal – Língua comum
2015
386 páginas




Resumo: O Açoriano Onésimo Teotónio de Almeida, catedrático no Departamento de Estudos Portugueses e Brasileiros da Universidade de Brown e também reconhecido cronista e ensaísta, apresenta o seu mais recente livro Despenteando Parágrafos: uma colectânea de reflexões, memórias, análises críticas, em torno de polémicas suaves.
Nas breves palavras introdutórias, pelas quais o autor afina as expectativas do leitor, justifica-se o título da obra, inspirado na expressão de José Cardoso Pires “pentear parágrafos”. Ao longo de 25 ensaios e mais três “apêndices”, Onésimo Teotónio de Almeida vai fazendo de forma acutilante e mordaz um escrutínio das questões literárias (ou de suposta crítica literária), retóricas, filosóficas, poéticas, linguísticas, humorísticas, questionando famigerados conceitos como «cultura», «ciência», «dialéctica». Onésimo desafia para um diálogo várias figuras da cultura portuguesa – Vergílio Ferreira, Eduardo Lourenço, José Saramago, Camilo Castelo Branco, Miguel Torga, Jacinto do Prado Coelho, Natália Correia, Helder Macedo - e é com arrojo, mas sempre legitimado e resguardado pelo seu enciclopedismo argumentativo, que se opõe e contrapõe a várias perspectivas.
Se pensarmos que esta obra começou a ser escrita e delineada deste a década de 80, podemos estar preparados para uma galeria de indagações circunscritas a várias movimentações histórico-culturais da sociedade. Apesar de uma aparente desarticulação dos textos, pela ausência de unidade temática, todos eles dialogam e convergem, internamente, seja na coerência das abordagens, na preocupação pela clareza, seja na postura e na metodologia desafiadoras.  
O primeiro ensaio apresenta, desde logo, um título barroco Das excelências axiológicas do bremontismo como hermenêutica crítica da discursividade pós-moderna – Perspectivas epistemológico-pedagógicas, e tamanha opacidade adivinha uma complexidade conceptual, quase inibidora da leitura. No entanto, como já é apanágio do autor, podemos sempre esperar requinte e ironia na apresentação e discussão dos factos. Implicitamente começa a ser desconstruída a obscuridade formal dos intelectuais, que assumem um fetiche claro pelos expedientes estilísticos e que «vendem ignorância envolta em mistério». Apesar disso, todos aprovam a parvoíce para que ninguém se revele menos digno na discussão. A verdade é que a profundidade não advém da complexificação lexical mas da distinção das complexidades semânticas, a profundidade sempre preferiu a elegância e a simplicidade, já assim é desde os Gregos. Mas afinal o que é o bremonstismo? «Explicando em linguagem da crítica corrente, é uma ruptura epistemológica na vanguarda hermenêutica-crítica apontando para o diagnóstico da textualidade vigente através da questionação fundamental interrogativa dos elementos constitutivos da discursividade» mas o autor simplifica algumas linhas abaixo em linguagem não erudita: «trata-se da análise gramatical das orações. Procura-se primeiro o predicado e o sujeito, e depois os complementos directo e indirecto, seguindo-se-lhes os complementos circunstanciais de tempo, lugar, quantidade. […] A prática da metodologia bremontista aprendia-a em criança por isso o nome que lhe dei mas reservo-o para uso pessoal. Cada um deverá escolher o seu. O meu, o bremontismo, ensinou-mo a minha professora da 4ª classe da escola primária, chamava-se Zélia Maria da Mota Machado Bremonte».
Num outro ensaio intitulado As modas que vêm de Paris, a tónica continua a ser o hermetismo de linguagens inacessíveis e não inteligíveis criado por uma elite de mentes altamente intelectualizadas. Assim, emanam da capital da Luzes para os satélites em Portugal discursos que são acriticamente replicados, reproduzidos de forma papagueante mas dotados de uma força sacramental. Qualquer profanação será entendido como um sacrilégio mas a este respeito o autor afirma com assertividade: «cá para mim, preferia mesmo substituir os intelectuais por gente que pensa. Ao menos em Portugal, que é para onde escrevo. Que na França, é com Paris» (p.51).
As discordâncias de Onésimo surgem sempre desprovidas de qualquer remoque ou ataque pessoal, mesmo quando o topos lhe diz respeito e toca na sua condição, como é o caso do ensaio Segundo recado para Miguel Torga sobre o determinismo geográfico – ou da insularidade de Vitorino Nemésio. Neste caso a polémica gera-se e floresce a partir da proposta de Torga sobre a relação de causalidade entre geografia e antropologia, e na influência da questão insular na psicologia humana. O autor não se detém a dirimir todos os argumentos, por já terem sido anteriormente desenvolvidos, no seu livro Açores, Açorianos, Açorianidade, rementendo para espaço e tempo oportunos. Ao mesmo tempo que revela pontos dissonantes no confronto com alguns autores também se confessa profundo admirador de outros, como é o caso de Jorge de Sena.
Onésimo consegue nesta sua obra de ensaios transmitir a sensação ao leitor de estar a privar na sua sala de estar porque partilha com ele bilhetes, imagens, livros e fotografias de vários momentos do seu percurso académico e profissional. Num desses momentos brinda-nos com uma troca de faxes com José Saramgo a propósito de uma contenda semântico-terminológica entre ideologia e mundividência. A preferência do autor pelo género ensaístico passa pela liberdade que este confere na análise lúcida e interventiva de assuntos estruturantes, sempre neste tom de provocação e de escrita sisifística, a fim de despentear os ambientes mais ortodoxos e de olhar pelo avesso as ideias mais renomadas e até tidas como insofismáveis.

Palavras-chave: olhar ensaístico, problematização filosófica, (re)leitura de autores, desconstrução de conceitos. 

Exorcismo
(Carlos Drummond de Andrade, Poesia e Prosa (Rio de janeiro: Editora Nova Aguilar,1979).

«Das relações entre topos e macrotopos
Do elemento suprassegmenta
Libera nos, Domine

Da semia
Do sema, do semema, do semantema
Do lexema
Do classema, do mema, do sentema
Libera nos, Domine

Da estruturação smêmica
Do idioleto e da pancronia científica
Da reliabilidade dos testes psicolinguísticos
Da análise computacional da estruturação silábica dos falares regionais
Libera nos, Domine

Do vocóide
Do vocóide nasal puro ou sem fechamento consonantal
Do vocóide baixo e do semivocóide homorgâmico
Libera nos, Domine

Da leitura sintagmática
Da leitura paradigmática do enunciado
Da linguagem fática
Da factividade e da não factividade na oração principal
Libera nos, Domine

Da organização categorial da língua
Da principalidade da língua no conjunto dos sistemas semiológicos
Da concretez das unidades no estatuto que dialetaliza a língua
Da ortolinguagem
Libera nos, Domine

Do programa epistemológico da obra
Do corte epistemológico e do corte dialógico
Do substrato acústico do culminador
Dos sistemas genitivamente afins
Libera nos, Domine

Da camada imagética
Do espaço heterotópico
Do glide vocálico
Libera nos, Domine

Da linguística frástica e transfrástica
Do signo cinésico, do signo icânico e do signo gestual
Da clitização pronominal obrigatória
Da glossemática
Libera nos, Domine

Da estrutura exo-semântica da linguagem musical
Da totalidade sincrética do emissor
Da linguística gerativo transformacional
Do movimento transformacionalista
Libera nos, Domine

Das aparições de Chomsky, de Mehler, de Perchonock
De Saussure, Cassirer, Troubetzkoy, Althusser
De Zolkiewsky, Jakobson, Barthes, Derrida, Todrov
De Greimas, Fodor, Chao, Laca net caterva

Libera nos, Domine 

domingo, 1 de novembro de 2015

Amada Vida

Autor: Alice Munro
Título: Amada Vida
Género: Contos
Editora: Relógio d’Água
1ª edição 2013
265 Páginas





«O essencial é ser feliz», disse ele. «Não importa em quê. Faz um esforço nesse sentido. Vais ver que és capaz. Com o tempo, torna-se cada vez mais fácil. Não depende em nada das circunstâncias…e de repente estás apenas ali, a caminhar serenamente no mundo»,
Alice Munro, Amada Vida, p.95.

Resumo: Alice Munro nasceu na província canadiana de Ontário, em 1931, e em 2013 foi reconhecida com o Prémio Nobel da Literatura, atribuído pela Academia Sueca, que a define como uma “mestre do conto contemporâneo”. Galardoada com muitos outros prémios e reconhecimentos ao longo da sua vida, quando recebeu o Man Booker International Prize, o júri justificou a escolha dizendo: “embora seja essencialmente conhecida como contista, mostra uma profundidade, sabedoria e precisão que a maior parte dos ficcionistas só consegue alcançar numa vida inteira a escrever romances”.
O enredo das suas histórias é relativamente secundário pois o que enriquece o seu universo ficcional é o desfile de personagens comuns e de assuntos triviais, cuja força e impacto residem na crueza dos problemas e na simplicidade da sua manifestação. Quase todos os seus contos têm como cenário a região sudoeste da província canadiana de Ontário mas poderiam ter-se passado em qualquer aldeia ou espaço remoto, desde que fora do cenário cosmopolita das grandes cidades. Talvez seja esta a fórmula mágica de Alice Munro: desviar a atenção do leitor das movimentações citadinas e alienantes, diluindo a história para fazer sobressair as nuances e complexidades das personagens. Desta forma, o leitor rapidamente se projecta num exercício de alteridade, de entendimento e empatia com as personagens e com as suas dores.
Em Amada Vida, a autora brinda-nos com uma antologia de catorze contos, alguns já anteriormente publicados no The New Yorker ou The Paris Review. Curiosamente os últimos quatro contos, a autora agrupa-os num rol muito particular e que pelas suas próprias palavras “formam um conjunto à parte, autobiográfico no sentimento, embora nem sempre no que concerne aos factos. Penso que são as primeiras e últimas –e mais íntimas – coisas que tenho a dizer sobre a minha vida”. Encontramos a chave de leitura desta antologia precisamente quando somos convidados a entrar pela “intimidade da autora” e quando nos apercebermos que o realismo e a afectividade com que, lúcida e avassaladoramente, descreve a (sua) realidade são exactamente os mesmos que lemos deste o início da obra. Assim, desde a primeira à última página, com mais ou menos ficcionalidade, com mais ou menos tons autobiográficos, a verdade é que nos cremos leitores da veracidade e do verosímil. 
A essência da amada vida é revelada pelo fluxo intravável e surpreendente dos acontecimentos, seja no seguimento de um encontro casual, de uma acção não realizada, de um impulso imprevisível e irracional, e todos os episódios são cerzidos entre o imaginário e o real. Sentimentos mais obscuros, puníveis e silenciados como a culpa, o arrependimento, a revolta, o castigo assim como as forças tanáticas que podem surgir, imprevisivelmente, até de uma criança são descritos com a naturalidade de qualquer faits divers sem julgamentos, sem moralismos.Quando chegamos à última página esta certeza pesa juntamente com a consciência de que, acima de tudo, a vida pode ser amada porque representa uma possibilidade permanente de reconciliação (nossa com o mundo ou simplesmente connosco próprios). Mesmo quando uma filha/autora acompanha a doença de Parkinson da mãe, (ultra)passa por todos os dramas inerentes à perda de alguém que ama...e ainda assim se vê impedida de estar presente no seu funeral, não há dor que não se apazigue. Pergunta-se o leitor: mas como é que nos podemos reconciliar com tamanha omissão? Alice Munro responde: «Dizemos que certas coisas não têm perdão – ou que nunca nos perdoaremos a nós próprios. Mas a verdade é que perdoamos – e fazemo-lo a todo o momento.».

Índice dos contos:
PARA CHEGAR AO JAPÃO
AMUNDSEN
SAIR DE MAVERLEY
SAIBRO
PORTO DE ABRIGO
ORGULHO
CORRIE
COMBOIO
À VISTA DO LAGO
DOLLY
O OLHO
NOITE
VOZES
AMADA VIDA


Palavras chave: sofrimento, reconciliação, fuga, encontro, aventura, imprevisto.